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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

O Exorcista: O livro, o medo e o sucesso não tão acidental

Quando pensamos em O Exorcista, logo associamos o livro ao filme que se tornou um clássico do terror. O que muita gente não faz ideia é de que o escritor e roteirista William Peter Blatty nunca teve a intenção de escrever um romance de terror, não gostava de assistir filmes do gênero e tampouco se interessou por outros livros contemporâneos de temáticas parecidas com a qual ele produziu, além de ter ficado com ranço de outras produções cinematográficas que tentaram captar a essência de sua obra e provavelmente odiaria a nova série televisiva da Fox, The Exorcist – embora a nova adaptação toque em muitas feridas e desdobramentos relacionados ao universo do exorcismo.


Escrever é um jogo de sorte, mas mesmo quando o autor acerta, nem sempre ele está disposto a pagar o preço da sua conquista. O que leva um escritor de comédia a se aventurar pelo universo de uma criança supostamente possuída por demônios? Para começar, não dá para ignorar a importância do dinheiro, embora muitos escritores ainda tenham receio e preconceito de admitir o quanto era, ainda é e será difícil para muitos contadores de histórias; com exceção de autores best-sellers e seus contratos de milhares de dólares. Só o amor pelo ofício nem sempre garante ao escritor profissional a possibilidade de fazer aquilo que gosta, especialmente aos que se dedicam em tempo integral à carreira.

O sucesso pode alavancar e também se tornar um peso. Da inquietação e curiosidade com um caso de exorcismo noticiado em um jornal, ele mergulhou neste universo para entender mais sobre o lado religioso e psicológico da possessão. Dá para imaginar que ele pudesse retomar sua carreira de textos comediantes depois do impacto de O Exorcista? Apesar de alguns leitores terem um medo terrível de O Exorcista e do filme ter feito muitas pessoas perderem o sono e passarem mal, William Peter Blatty descreve o seu romance como uma obra detetivesca paranormal ou um thriller teológico – que pode ser considerado uma trilogia junto com os livros A Nona Configuração e Legião. As entrelinhas trazem provocações existenciais e religiosas sobre o fenômeno da possessão, como o desconhecimento e a descrença dos próprios membros da igreja.

Inspirado em um acontecimento no qual os desdobramentos permanecem misteriosos e muitas vezes são analisados e aceitos pela ótica da fé ou negados pela ciência, O Exorcista é inquietante porque nos faz perceber o quanto estamos sujeitos a perder o controle, independente da razão ou crença. Mais preocupante é lembrar que muitos dos casos se tratam de autossugestão ou até mesmo de sugestão que acontecem em ambientes nos quais o medo e a opressão são estratégias de controle. Sabendo disso, na época de estreia do filme, o próprio autor demonstrou receio de que mais pessoas pudessem manifestar sintomas e achassem que precisavam de exorcistas, mas também lembrou que os delírios sempre estiveram presentes na sociedade.

Apesar de saber que vários casos eram fraudes ou distúrbios mentais, o escritor não duvidou de que alguns fenômenos paranormais eram reais e alegou ter tido suas próprias experiências. Independente do rótulo adotado pelo autor, a força de sua história aterrorizou milhares de pessoas de diferentes lugares do mundo. Aos que não se sentiram incomodados ou impactados, vale lembrar que a intenção do escritor nunca tinha sido a de provocar o medo, mas a de contar uma história investigativa e paranormal. As expectativas ficam por conta de quem lê, assim como as diferentes percepções da leitura.

O Exorcista é um desses livros que dificilmente esquecemos e de tempos em tempos, os leitores se surpreendem com os efeitos causados pela narrativa ao longo da leitura. Há quem tenha medo de ler na madrugada e escutar barulhos estranhos. Enquanto outros são levados a acreditar que algo ruim vai acontecer se lerem.



Mesmo lançado há mais de 45 anos, o legado de William Peter Blatty nos lembra da influência do medo em nossas vidas. Para alguns, o livro vai além do entretenimento e é visto como um conto caucionário sobre a importância da religião (a luta entre o bem e o mal), mas basta ler as entrelinhas para lembrar que diante do desconhecido e quando as coisas fogem de nosso controle, até mesmo os mais religiosos e os mais céticos têm suas estruturas abaladas. No final, intencionalmente ou não, mais do que um livro de terror, Blatty criou uma atmosfera sombria e confessional, na qual encaramos que a existência é circular e que a única certeza da vida humana é a incerteza.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad.

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