segunda-feira, 18 de junho de 2018

Aspergers: Dia do Orgulho Autista e a Psicofobia

Nesta segunda-feira, 18 de junho, é comemorado o Dia do Orgulho Autista. Algumas coisas, entre tantas outras que eu gostaria de dizer. Essa data foi criada pelo grupo Aspies for Freedom (Aspies pela Liberdade). Aspie = pessoa que tem Síndrome de Asperger.

Dia do Orgulho Autista: 


Autismo não é doença crônica, não é doença autoimune, não é doença. O cérebro funciona de forma diferente. A única doença que existe é o preconceito que autistas têm que lidar diariamente.


Todo santo dia autista tem que ler bobagens e as pessoas acham que estão 'ajudando'. "Asperger não existe". Eu existo. Eu sou real.

Quem culpar por tanto preconceito sobre autismo? O preconceito começa a ser reproduzido por profissionais desatualizados e se espalha pela população leiga e pelos familiares de autistas. "Meu filho é autista e é diferente de você". Muito bem, somos todos diferentes. Não somos clones humanos.

As pessoas precisam entender o que é Gaslighting. Elas fazem sem querer o tempo inteiro :) E isso torna a convivência insuportável. Toda vez que um autista diz 'A', aparece um não-autista para dizer "Você está inventando tal coisa".

Psicofobia é quando alguém diz para um autista que ele é doente, mas ao mesmo tempo faz parecer que ele está inventando quando diz que autismo não é doença. Ainda sobre a psicofobia, é quando as pessoas têm resistência em acreditar que você é autista, porque parece 'normal' ou diferente de outros autistas e isso assusta, pois é um sinal de que ela pode ter passado a vida inteira sem diagnóstico também e você se transforma em uma espécie de espelho quebrado, que é melhor cobrir com um pano.

O dia do Orgulho Autista é uma data para celebrar a neurodiversidade. Se nascemos diferentes e não estamos doentes, precisamos aprender a nos amar do jeito que somos. Já falei algumas vezes e vou repetir: eu não trocaria o meu cérebro autista por um não-autista. Sou capaz de absorver conhecimentos e informações em uma velocidade que neurotípicos (não-autistas) nem sonham em conseguir. Não me acho melhor do que ninguém, mas também não aceito ser diminuído pelo olhar capacitista (de pena) dos outros. Sou diferente: não sou melhor nem pior.

É cada coisa que autista tem que aguentar. Os autistas que são 'diferentes' têm que ficar dando satisfação para os outros, como se eles tivessem inventando o próprio autismo, como se eles não tivessem sido uma vítima de um sistema de saúde precário e ineficaz que deixa centenas de diagnósticos passarem batidos.

As pessoas precisam sair da bolha de privilégio e parar de achar que toda cidade tem profissional especialista em autismo e perceber que, em alguns casos, é uma exceção no Brasil e no mundo. Não tenho muita paciência com quem sabe o básico de autismo e quer bater boca, até porque tenho o hábito de consumir conteúdos internacionais e os que foram traduzidos são bem diluídos e superficiais. Pelo menos, informe-se sobre a realidade do sistema de saúde e o despreparo profissional. Existem muitas pessoas que nem sabem o que é Síndrome de Asperger e deveriam saber.

Para os pais que adicionam autistas adultos como exemplo. Todo autista é diferente, viu? Não somos perfeitos nem anjos azuis ou peças de quebra-cabeça. Embora o autismo esteja relacionado a tudo o que fazemos, somos mais do que isso; não somos só nossas condições neurológicas diversas. Temos limitações, temos habilidades e mesmo duas pessoas com Síndrome de Aspergers podem ser bem diferentes, quem dirá o espectro autista inteiro?

Eu odiaria que as pessoas lessem meus livros só porque sou autista. Sou escritor e passei anos da minha vida dedicando a isso. Minha identidade autista não anula minhas outras identidades: escritor e gay. Autistas lidam com vários preconceitos diariamente, especialmente os que se comportam de forma diferente da que é idealizada na cabeça deles. Esse estranhamento com autistas diferentes (já falei em outro texto do blog que está listado abaixo: Autismo: Problema de representatividade na ficção ou no mundo real?) só acontece por causa da ineficiência na diagnosticação de autistas que são diversos. Nem todo autista é branco e heterossexual. Os livros sobre autismo estão totalmente desatualizados. Livros tentam enquadrar autistas meninas como emocionais e artísticas e autistas meninos como lógicos e amantes da matemática e dinossauros. Bom, deixa eu começar dizendo que minha identidade não é feminina e que acho totalmente desnecessário a divisão de gêneros no autismo, foi algo que só atrapalhou o diagnóstico de aspies e ainda atrapalha. Prazer, sou um autista escritor que adora artes, música e livros.

Existem autistas que gostam de fotos e outros que não suportam tirar fotos; existem autistas que adoram matemática e outros que odeiam (eu); existem autistas que são bons com arte e outros que não conseguem interpretar; enfim, eu poderia passar o dia inteiro dando exemplos de como autistas podem ser completamente diferentes e ainda não seria suficiente. É errado quando as pessoas julgam autistas com base nas suas opiniões e preconceitos. Você conheceu UM autista e, de repente, acha que conhece como são todos?

Antes de opinar sobre autismo, sobre Síndrome de Asperger, leia sobre o assunto, mas não leia só os livros mastigados; leia artigos escritos por autistas de diferentes graus (sim, autistas não falantes também escrevem, não só pessoas com Síndrome de Asperger).

Procure quebrar o seu preconceito, pois é extremamente cansativo viver em um mundo no qual temos que lidar com excesso de estímulos sensoriais diariamente e que não é adaptado para nós. Um mundo que nos exclui e que nos relega um canto no quarto, pois muitas vezes é o único lugar em que podemos recarregar as energias sem sermos perturbados e desrespeitados por nossas diferenças. Um mundo que tenta nos silenciar. Um mundo que não percebe que não somos máquinas, não somos peças de quebra-cabeça, não somos criaturas místicas e folclóricas (anjos, crianças indigo e cristal, sensitivos, Pé Grande, lobisomem). Um mundo que espera que nós sejamos capazes de nos comunicar e nos empurra a normalidade diariamente, mas quando queremos falar, não somos escutados e nos dizem que estamos inventando tudo.

Um mundo no qual poucos profissionais entendem sobre autismo que qualquer mudança mínima de comportamento é o suficiente para eles acharem que 'estamos curados'. Um mundo que não entende que autismo não é doença e que mesmo que existisse uma 'cura', muitos de nós não tomaríamos. Um mundo no qual nós não nos encaixamos, muitas vezes, por causa do olhar preconceituoso, não necessariamente porque não temos vontade. Um mundo que continua espalhando mitos sobre autismo, mesmo eles sendo desmentidos diariamente.



Leia também:


Síndrome de Asperger: Orgulho autista e hiperfoco 

Autismo: Problema de representatividade na ficção ou no mundo real? 

Autismo: Entre mentiras, mitos e preconceitos 

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The Good Doctor: Personagem autista médico e o preconceito 

Vídeo: Trechos do livro Em Algum Lugar nas Estrelas (Clare Vanderpool) 

Autismo no cinema: Filme Tudo Que Quero faz estreia tímida no Brasil 

Autismo: Aspergers camaleões e o silêncio sobre adultos 

Asperger na adolescência e amizade são temas do livro Em Algum Lugar nas Estrelas 

Asperger: Autismo não tem rosto 

Aspie: entre o silêncio e o excesso de palavras 

Asperger (Forma leve de autismo): Graphic novel francesa ajuda na conscientização 





*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

6 comentários:

  1. Exatamente. Cada autista é um, assim como cada NT é um NT, Então por que não respeitar estas diferenças entre os autistas, Asperger, TDAH e seja qual for a neurodiversidade? Parabéns pelo texto.

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  2. Seus textos são sempre muito bons, mas esse eu demais! Sinceridade total! Palavras saídas do fundo da alma.

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    1. Olá, Nadejda! Fico feliz que tenha gostado. Quanto à sinceridade, faz parte da minha condição haha às vezes, tento me controlar para não ser sincero demais, mas acredito que a data pedia.

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  3. Te admiro demais, você é uma inspiração!! :)

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    1. Gratidão, Michele! Fico muito feliz em saber isso ♥
      As pessoas disfarçam a psicofobia com autismo delas diariamente. É algo do tipo "Se você é autista, será que eu sou também?"
      Abraço

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