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Destaques

Neurodiversidade: Autismo não só biológico ou só identidade social

A Neurodiversidade dá um tiro no pé ao tratar o autismo como algo meramente social (identidade social), ignorando as particularidades neurobiológicas de CADA autista. Mas o extremismo científico também erra ao ver como algo meramente biológico, ou até mesmo patológico.


O ideal seria ver o melhor dos dois mundos, algo impossível diante da polarização. Todo mundo sai perdendo.

É utopia esperar que a sociedade vá se adequar completamente aos autistas, especialmente porque cada autista pode ser completamente diferente do outro. O ambiente adaptado para um autista, é o ambiente desadaptado para o outro – isso entre os próprios autistas.

Enquanto as pessoas continuarem tratando o autismo como algo 'universal', ignorando as especificidades, esse debate não vai para frente.

O Asperger que não precisa interagir com os outros, não precisa trabalhar, não precisa fazer nada que o tire da zona de conforto, talvez não sinta muita dificuldade em viver em um mundo não adaptado. Mas não é a re…

Espectro Autista: Dia das Mães, Autoestima e Liberdade para Voar

Por que gosto tanto de Atypical?


Fotos: Minha formatura de jornalismo (2013) e foto da minha mãe e avó neste fim de semana (2019).

A série da Netflix tenta mostrar o personagem autista, mas sem se focar exclusivamente no autismo. Assim como a série, não faço minha vida girar ao redor só do espectro. Embora meu diagnóstico oficial seja bem recente, já faz dois anos que abordo o assunto.

A mãe do Sam é humana, tem suas qualidades e defeitos, como qualquer pessoa. O Sam não é perfeito, tampouco a irmã ou o pai. E assim é a vida.

Outro ponto bacana é que conforme ele envelhece, a mãe dele percebe que precisa deixá-lo mais livre e tirá-lo um pouco da bolha, mesmo que isso signifique entrar em áreas desconhecidas.

Neste caso, um diagnóstico tardio (pelo menos de Asperger) pode fazer muita diferença. Vivi muitas coisas que não teria vivido com um diagnóstico na infância – ou se as pessoas soubessem (era uma época diferente e o preconceito era muito maior e se sofro o preconceito na vida adulta nos dias atuais, imagino como seria na infância e adolescência).

Tenho 29 anos. Se não viajei mais por falta de dinheiro, não de vontade. Sempre fui 'namorador'. Conforme fui construindo minha identidade ao longo da vida, fui dependendo menos das pessoas ao meu redor (buscando mais autonomia) e aprendendo a me divertir com ou sem os outros. A autoestima, o autoconhecimento, a autoaceitação das limitações e potencialidades e a personalidade são tão importantes quanto o diagnóstico formal

Meu mantra para todo relacionamento é: esteja bem e feliz com ou sem a pessoa.

Tem um episódio que a Elsa morre de medo do filho se apaixonar e quebrar o coração. Bom, a vida real é assim. Nem tudo tem um roteiro. Não existe perfeição. Existe tentativa, falha, aprendizado e conquistas. Mesmo sem diagnóstico, minha mãe sempre me incentivou a buscar o autoconhecimento e aprender a me levantar depois de cair, sempre tentando buscar o equilíbrio.


Caí em muitas ciladas? Com certeza. Quebrei muito a cara com relacionamentos amorosos e amizades? Sim. Mas eu não seria quem sou hoje, sem todas experiências que passei. Não teria me desenvolvido tanto socialmente sem tantos erros e acertos e não teria a bagagem que tenho hoje.

Mesmo intuitivamente, minha mãe acertou e muito comigo. Não falo pelo espectro autista inteiro, tampouco represento todos Aspergers. Mesmo sem papel de altas habilidades, meus comportamentos se enquadram em Dupla Excepcionalidade (Asperger com Altas Habilidades) e existe essa variação mesmo entre Aspergers, então, provavelmente esse texto não serve para todos e está tudo bem. Mas acredito que amor, cuidado, liberdade e autoestima são importantes para todos seres humanos.

O que quero dizer é: saber amar é também saber abrir a mão, deixar livre e estar disposta a abraçar as consequências das escolhas, sejam os erros, ou os acertos e admitir que ninguém tem um manual da vida.

Muitos Aspergers/autistas acreditam que a vida dos NTs é mais simples: talvez eles não tenham muitas limitações sensoriais, sociais, comorbidades etc. quanto nós, mas no fundo, estamos todos nadando, todos estamos tentando descobrir nossos caminhos. Ninguém tem um roteiro definido que sirva para todas áreas. São as imperfeições da vida que nos tornam humanos.


Então, tão importante quanto usar um diagnóstico para orientar, em muitos casos (especialmente os mais leves), é importante saber deixar o filho abrir as asas e voar.

Sou grato por minha mãe me ter permitido voar tantas vezes. Tem coisas que só descobrimos quando nos permitimos. Se eu envelhecer com a mesma vitalidade que minha mãe e minha avó, tenho certeza de que terei uma vida feliz.

Feliz Dia das Mães!

PS: Entre as características de Dupla Excepcionalidade: Espectro Autista com Altas Habilidades estão Mais Flexibilidade Mental e pensamento mais abstrato (mais desenvolvimento da Teoria da Mente) do que os Aspergers sem altas habilidades. Esse maior desenvolvimento faz as pessoas soltarem frases como 'não parece Asperger', expressão que vêm de familiares de autistas, profissionais desatualizados e outros Aspergers.

PS2: O diagnóstico de Dupla Excepcionalidade é mais complexo e bem difícil de conseguir em vários países, incluindo o Brasil. As características das Altas Habilidades mascaram as do autismo e vice-versa. É comum a pessoa ter só um dos dois diagnósticos oficialmente. No meu caso, depois de tanto estresse para conseguir o de Asperger, tive que atravessar o Brasil de carro, não tive interesse de  ir atrás de um diagnóstico de Altas Habilidades.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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