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Destaques

Causa Autista, História e Divergências Políticas no mundo inteiro

Para quem acha que o que acontece no Brasil é inédito, basta conhecer a história do autismo. As divergências políticas são parte da história do autismo. Cada conquista aconteceu por causa das lutas dos movimentos sociais organizados.


Leia: A História do Autismo: 10 Motivos para ler o livro Outra Sintonia

O Brasil não inventou o fogo. As pessoas poderiam fazer escolhas melhores se estudassem mais. Serve para quem quer falar de política, mas não conhece as questões biológicas também.

Sobre o mundo das organizações brasileiras, já falei algumas vezes: nenhuma me contempla. Nenhum dos lados acerta sempre nem vai acertar, pois cada lado tem seu viés e puxa mais para o que acredita.

O que é melhor para um autista, pode não ser para o outro, seja por questões sociais ou neurobiológicas: o assunto SEMPRE será complexo, pois o autismo é complexo, não é simples como as pessoas fazem parecer.

Quem paga o preço? Quem é invisibilizado. Quem já tem diagnóstico, dificilmente se importa com os que não…

Espectro Autista: Aspergers com baixa autopercepção das limitações e habilidades

Ontem queimei meu dedo ao tirar uma assadeira do forno. Foi bem leve, mas foi por descuido do esgotamento mental/disfunção executiva.


Eu tenho muita energia desde a hora que acordo, mas quanto mais próximo da noite, fico podre. Para quem não sabe, o cérebro autista não desliga e muitos têm dificuldade de fazer pausas e relaxar.

Aí de bônus tive que lavar louça na madrugada, pois estava tudo acumulado e 'ficamos parecendo preguiçosos' se não fizermos essas coisas. Mesmo que já tenhamos gastado todas colheres de energia.

Muitas vezes, estamos tão hiperfocados que nem percebemos o cansaço. Só percebemos no final do dia ou nos dias seguintes quando parece que um caminhão nos atropelou e/ou ficamos sobrecarregados sensorialmente.

Existem Aspergers que acham que autismo não deveria ser CID nem considerado deficiência, porque na visão deles afeta só as habilidades sociais. Muitas vezes, são pessoas que não conseguem identificar suas próprias limitações (têm uma baixa autopercepção das dificuldades e habilidades).

Muitos acham que não precisam de ajuda/intervenções/autoconhecimento, aí tu começa a perguntar e percebe que as limitações são maiores do que imaginava, que rola uma dificuldade gigantesca de interpretar textos, que sempre arranjam confusões na internet porque não compreendem o que os outros falam ou distorcem os contextos do que foi dito, que não sabem diferenciar o que é autismo, comorbidades e/ou personalidade ou que pela dificuldade com a Teoria da Mente, imaginam que os outros Aspergers e outros autistas são iguais a ele e que eles não precisam de intervenções terapêuticas.

Em alguns casos, são pessoas com Síndrome de Asperger que vivem com os pais, algumas que foram/são superprotegidas, mas que não tiveram suas habilidades de autonomia testadas no dia-a-dia: não precisam fazer compras, cozinhar, trabalhar, viajar sozinho, pagar as contas e por aí vai...

Muitos acham que não precisam de apoio, porém têm dificuldade de integração na escola e universidade, têm dificuldade com o mercado de trabalho, afinal, se o desemprego está em alta para neurotípicos (não-autistas), imagina para pessoas que têm autismo? E, sim, algumas áreas dão mais abertura para Aspergers, mas não são todas e nem todos autistas escolhem seguir essas carreiras/profissões e/ou têm essas ilhas de conhecimento e hiperfocos.

Mesmo entre os Aspergers há uma dificuldade com a autonomia. Nem sempre por questão das limitações do autismo, mas pelo preconceito e/ou pelas poucas oportunidades de inclusão social ou por causa de comorbidades, como ansiedade, depressão, pânico e fobias. A quantidade de pessoas empregada no espectro autista, por exemplo, é bem baixa em relação às outras deficiências.

Mesmo a inteligência acima da média e os hiperfocos, vistos como vantajosos para muitas empresas, não são tudo o que nos representam, tampouco é parte de todo Asperger/autista. Muitas pessoas no espectro odeiam quando neurotípicos e familiares de autistas fazem comparações entre autistas, mas elas mesmos se comparam e não têm essa percepção. Se a pessoa não precisa de tanto apoio, ela deduz que outros autistas também não vão precisar. Aspergers com Altas Habilidades/Superdotação (Dupla Excepcionalidade), por exemplo, têm muito mais chances de autonomia do que Aspergers sem Altas Habilidades/Superdotação.

E aí, diante desse cenário todo no qual a pessoa acha que seu autismo não precisa ser visto como um CID e/ou deficiência, muitas vezes, basta mergulhar a fundo para perceber que existem dificuldades que ou a pessoa não sabe que tem, ou ainda não apareceram pelo contexto social em que vive.

Existem Aspergers que precisam de menos apoio? Existem. Eu moro sozinho com meu namorado há mais de três anos e já tinha morado sozinho antes, assim como conheço outros Aspergers que também vivem sozinhos e/ou com seus parceiros, mas achar que todos são assim e é só uma questão de querer, nem sempre é real.

Afinal, especialmente com o diagnóstico tardio na vida adulta, nem todo autista desenvolveu estratégias de compensação para lidar com os desafios de ser independente e a exclusão no mercado de trabalho dificulta ainda mais ter autonomia, pois nem todos têm o mesmo cenário social e oportunidades de crescimento, acesso aos recursos financeiros, de saúde e educação e por aí vai... Motivo pelo qual muitos desenvolvem depressão, pelo medo do futuro, de como vão sobreviver se não conseguirem ser incluídos e/ou sem o apoio financeiro da família.

Aí fico pistola por vários motivos:

1) Saturado desse pessoal falar sobre o que não sabe. Vamos estudar mais antes de falar de autismo, gente?

Tem muitas coisas que eu consigo fazer com facilidade que outras pessoas no espectro não conseguem e eu não uso isso como 'comparação', pois eu sei que somos todos diferentes. Assim como tem coisas que são fáceis para os outros e não são fáceis para mim. Não é uma competição de que autista tem mais autonomia/habilidades do que o outro, tá?

2) Se fosse só a parte social, seria moleza para os autistas. As pessoas confundem autismo com introversão e solidão/misantropia.

Se fosse só isso, realmente, não daria para considerar um transtorno. O autismo afeta tudo, desde a alimentação, sono, energia, funções executivas e cognitivas (habilidades de funcionamento diário) e por aí vai...

Outra coisa que eu estou saturado: do pessoal comparar Aspergers e autistas de graus diferentes, por exemplo. Se mesmo dois Aspergers podem ser muito diferentes, por que a insistência em comparar o espectro autista inteiro?

Tem autista que dirige e outros nunca vão poder dirigir; tem autista que anda de bicicleta e outros não tem coordenação motora; tem autista que consegue vestir uma máscara e se passar temporariamente por não-autista em situações sociais (camaleões) e outros que têm muita dificuldade de interagir sobre assuntos que não sejam seus hiperfocos e não abrem a boca se não tiver um interesse em comum. Isso entre os próprios Aspergers, imagina no resto do espectro... entre inúmeros exemplos que eu poderia dar.

Por isso eu tento entender não só o lado dos autistas, mas também dos familiares e profissionais. Muita gente de cada um dos lados corre o risco de generalizar falas sobre autismo.

Nenhuma generalização sobre autismo é boa, pois não leva em conta toda complexidade da condição e a ideia de que não existem dois cérebros iguais (não só autistas, mas não-autistas também).

PS: Não param de surgir páginas de autismo na internet. Fico muito feliz em ver mais pessoas no espectro autista compartilhando informações, mas acho importante que muita gente estude mais sobre a condição neurológica, para não ajudar a espalhar informações erradas sobre autismo.

Muitas pessoas só repetem o que outra pessoa falou, sem o estudo e a pesquisa para saberem se o que foi dito é verdadeiro. Reclamam dos jornais e das informações que familiares de autistas passam porque acham imparciais ou erradas e/ou não gostam das terminologias adotadas pelos médicos, mas ajudam a espalhar desinformação do mesmo jeito.

Não aguento mais comentários de pessoas falando que não existe mais Síndrome de Asperger, por exemplo. Ainda não estamos em 2022 (quando o CID-11 vai entrar em vigor). Ou alguém inventou a máquina do tempo e não avisou o resto?
***
Não há vergonha alguma em admitir que precisa de ajuda e apoio. Porém, algumas coisas podem ser ensinadas. 


As intervenções não devem levar em conta só a questão da fala, mas a realização de atividades diárias que são importantes para a autonomia.

Estimular a comunicação é importante. Entender as próprias limitações ajuda a buscar ferramentas para lidar com elas. O diagnóstico serve para orientar.
***
A Rivotrip publicou um texto sobre disfunção executiva. Para quem ainda não leu: http://bit.ly/RivoDisfExect

A disfunção executiva é uma coisa, preguiça é outra. Tem dias que estou esgotado? Tem. Mas tem dias que tenho preguiça e escolho fazer uma coisa em vez de outra, por exemplo. É importante distinguir que somos humanos, não definidos só por nossa condição. 

E, sim, parece que um caminhão atropela a gente dependendo do esforço que fazemos, do excesso de interações sociais e de estímulos sensoriais. Cada caso é um caso e cada pessoa tem sua tolerância e estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.


Texto da imagem:

A disfunção executiva não é um mito, mas a preguiça também não é. O autoconhecimento é importantíssimo para conseguirmos enxergar nossos comportamentos e aceitar nossas virtudes e falhas.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro, jornalista por formação e Asperger. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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Comentários

  1. Obrigada pelo texto, Ben!!!!! Sempre aprendo muito contigo!!!

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    1. Oi, Sara. Fico feliz em ajudar de alguma forma.
      Grato pela leitura e pelo comentário.
      Abraço

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