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Destaques

Para Toda a Eternidade: Livro explora rituais funerários diversos

Entre a naturalidade e o espanto, o tradicional e o moderno, o ocidental e o oriental, Caitlin Doughty transmite ao leitor histórias de suas visitas a espaços e profissionais envolvidos com o universo mortuário. Uma das obras pedidas por quem já tinha lido Confissões do Crematório, o novo livro foi publicado no Brasil pela editora DarkSide Books, em junho de 2019, com tradução de Regiane Winarski e ilustrações de Landis Blair.


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“Eu passei a acreditar que os méritos de um costume relacionados à morte não são baseados em matemática [...] mas em emoções, numa crença na nobreza única da própria cultura da pessoa. Isso quer dizer que consideramos os rituais de morte selvagens apenas quando eles não são como os nossos” – Caitlin Doughty, Para Toda a Eternidade
Dá para ler tranquilamente Para Toda a Eternidade sem ter lido Confissões do Crematório, mas acredito que as duas leituras são complementares. Enquanto na p…

Resenha: O Sol Ainda Brilha – Anthony Ray Hinton

Liberdade é uma palavra duvidosa, mas talvez faça mais sentido quando somos mais privados dela ainda. No livro O Sol Ainda Brilha (The Sun Does Shine), escrito por Anthony Ray Hinton com Lara Love Hardin, o leitor é apresentado à história trágica de um homem que passou 30 anos no corredor da morte por assassinatos que não cometeu. A obra foi publicada no Brasil pela Editora Vestígio, em 2019, com tradução de Luis Reyes Gil.


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Quem poderá dizer que é realmente livre? Ou que acredita que a justiça sempre acerta? O Sol Ainda Brilha pode servir como um conto caucionário sobre o sistema judiciário, especialmente em regiões com penas mais severas. O autor nos faz refletir sobre a existência de outras pessoas inocentes que também foram mandadas para o corredor da morte.

“Os sons à noite davam a impressão de se estar no meio de um filme de horror – criaturas rastejando, homens gemendo, gritando ou chorando. Todo mundo chorava à noite. Uma pessoa parava, e então outra começava. Era a única hora em que você podia chorar anonimamente. Eu bloqueava o som. Não me importava com as lágrimas de ninguém ou com seus gritos. Às vezes ouviam-se risadas – risadas maníacas –, e isso era o mais assustador. Não havia risadas de verdade no corredor da morte” – O Sol Ainda Brilha, Anthony Ray Hinton

Narrado em primeira pessoa por Anthony Ray Hinton, o livro traz as memórias de esperança e desespero de um homem, desde os dias de visitas e julgamento, até o lento e controverso desenrolar do caso e os momentos trancados no minúsculo cubículo, descrevendo os momentos de solidão, de devaneios e de autopreservação.

À medida que o leitor vivencia os dias de isolamento e revive o passado de Anthony, também se dá conta de que todos ali têm uma história para contar e que a atmosfera e as ações do lugar não afetam só os prisioneiros, mas todos envolvidos de alguma forma com os processos formais e informais. Imagine o impacto emocional de colocar um fim na vida de outro ser humano?

“Nós berramos até que as luzes pararam de piscar e o gerador que alimentava a cadeira elétrica foi desligado. Bati nas barras até que o cheiro da morte de Michael Lindsey chegou a mim, e então fui para a cama, puxei o cobertor por cima da cabeça e chorei. chorei por um homem que teve que morrer sozinho, e chorei por quem quer que fosse o próximo a morrer. Eu não queria ver mais mortes. Não queria olhar para os guardas no dia seguinte e ficar imaginando qual deles havia feito o que na execução de Michael quando viessem me trazer a comida. Não queria viver perto da câmara da morte, mas não tinha para onde ir” – O Sol Ainda Brilha, Anthony Ray Hinton

Preso em 1985, no estado do Alabama, nos Estados Unidos, os relatos são contados desde 1986 até 2015. Como fica o estado psicológico de um ser humano que passou 30 anos no corredor da morte, sem saber quando chegaria a sua vez de ser executado? Para sobreviver, Anthony se perde em seus próprios pensamentos e usa a imaginação para entreter os outros e passear pelo mundo, relembrando os pequenos prazeres da vida, conhecendo celebridades e se redescobrindo.

Duas coisas me marcaram bastante na leitura: como Anthony usou os livros para manter seu lado humano vivo, buscando uma válvula de escape, uma forma de interagir, explorar a empatia e discutir questões sociais, e como ele cumpriu sua promessa de levar a mensagem adiante – ao publicar o livro, ele não só contou sua própria história, como de outros possíveis inocentes na mesma situação, como havia dito que faria.

“Cada um passava o tempo a seu modo. Um cara podia ficar só desenhando espirais num pedaço de papel – o dia inteiro, dia após dia; Espirais dentro de espirais dentro de espirais, de modo que você nunca sabia onde começavam ou terminavam. Era assim. Alguns caras simplesmente passavam o tempo entre uma refeição e outra tentando não enlouquecer – cantarolando, balançando-se ou gemendo de um jeito que quase parecia um canto” – O Sol Ainda Brilha, Anthony Ray Hinton

Ao final do livro, o autor deixa uma lista de nomes de pessoas que estavam no corredor da morte e sugere que o leitor não só faça uma oração por cada um deles, como que reflita sobre as estatísticas de erros de julgamento e de como o sistema falho tem viés, como a forte influência do racismo.

Sobre o autor – Anthony Ray Hinton passou três décadas no corredor da morte injustamente. Libertado em abril de 2015, hoje advoga a favor das reformas penitenciárias e fala sobre o poder da fé e do perdão. O Sol Ainda Brilha, seu primeiro livro, foi escolhido por Oprah Winfrey para seu clube do livro no verão de 2018.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro, jornalista por formação e Asperger. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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