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Destaques

Sonho protegido

Que o meu sonha seja protegido. Que eu consiga viver dias de paz. Que tudo o que achei que não fose possível, agora se torne possível. São naqueles dias de mais preguiça, que temos que admitir ao mundo de voz alta, quase como se tivéssemos que lidar com uma vergonha mortal. A aula se desenrolava em um ritmo mais lento. Era melhor assim, naquele dia. Assim tinha mais tempo para aprender e não ficar com dúvidas. Embora também era gostoso assistir a aula com velocidade aumentada.  Cada um sabia qual era o melhor ritmo para di mesmo. Não se tratava de melhor ou pior, se tratava de encontrar o equilíbrio e deixar as coisas fluírem. Então, quando menos se dava conta, estava escrevendo novamente. Escrever o ajudava a reter os conteúdos, ajudava a tornar mais real o que antes parecia apenas possibilidade. Ia, escrevendo, como uma forma de agradecimento. A quem lia, e a mim mesmo. O processo era uma via de mão-dupla. Mas, repente, a escrita e a leitura estavam vivas e agora precisava descan...

Crônica São Cipriano e a Histérica

*Texto: Ben Oliveira

Eu estava na cozinha segurando o livro de capa dura de cor preta A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, escrito por Júlio Verne, quando tudo começou.

A mulher me perguntou o que eu tanto lia.

– A bíblia do capeta – brinquei.

Seus olhos se encheram de curiosidade. Ela sabia que eu estava brincando e mesmo assim entrou no meu jogo.

– Você fala essas coisas por que não acredita. Tenho dois tios que se mataram por que leram o livro de São Cipriano.

– E você acredita? Você acredita em tudo o que te falam.

– Você que não acredita em nada.

– E se eu te disser que já li o livro de São Cipriano.

– Você leu? – ela fez uma cara de espanto.

– Já. Um trecho.

– Se você não ler o livro inteiro, você vai enlouquecer.

Não consegui me controlar. Eu ria e ria sem parar.

– Eu estou falando sério – ela disse.

– Eu estou lendo ele agora – disse enquanto mostrava o livro de capa preta. – Quer ver?

– Não. Tira isto de perto de mim!

Eu a olhava com um misto de pena e fascínio. Era incrível quando como as pessoas tinham medo de alguma coisa, elas acreditavam em tudo o que te falavam. Perguntava-me se não era exatamente isto o que as religiões faziam para controlar as pessoas. Talvez exista um limite entre a normalidade e a loucura, onde a sanidade mental se pressionada mais um pouco tiraria qualquer pessoa do seu equilíbrio.

Enquanto eu ria outra mulher entrou na cozinha. Perguntei a outra se ela conhecia São Cipriano.

– Ele é um santo, não é?

– Sim, mas ele praticava magia – respondi.

– Será que não tem nenhum feitiço para afastar um rapaz da minha filha?

– Deve ter.

– Não faça isto, senhora. – A primeira mulher logo respondeu. – Você pode enlouquecer ao ler o livro.

– E onde eu encontro ele para comprar? – a segunda mulher levantou as sobrancelhas.

– Em qualquer livraria. – respondi.

Observei como as duas mulheres reagiam de maneiras diferentes em uma mesma situação. Uma estava em estado de pânico e a outra calma.

– Se ele é tão ruim assim eu não sei, mas sempre que acontece algo eu fico falando “Ai, meu São Cipriano, me ajuda!”.

A segunda mulher repetiu tantas vezes o nome São Cipriano, que a cada vez que ela dizia, a outra se balançava como se estivesse levando um choque.

– Você não acredita em nada. Todos os dias eu oro por você – a primeira mulher me falou.

– Mas, não é por que ele não acredita que não vai para o céu. Você nunca ouviu falar na história que Chico Xavier contou do homem ateu que foi para o céu?

– Não. Ele era macumbeiro?

– Médium. Na história, mesmo sendo ateu, o homem foi ao céu porque ajudava os outros. Ir para a igreja não salva ninguém. Tem gente que vai lá só para bater ponto.

Fiquei olhando as duas mulheres conversando e me abstive de fazer mais comentários. Se eu falasse mais um pouco sobre São Cipriano, uma delas não retornaria mais a minha casa e a outra ficaria mais curiosa para saber sobre o tal santo e seus feitiços.

Percebi que quando se trata de estruturas psíquicas, há uma linha que podemos cruzar ou não. Se movermos um dos pilares da crença de uma pessoa, algo que ela acreditou a vida inteira, todo o resto pode desabar.

Saí da cozinha feliz por fazer aquelas mulheres saírem de suas inércias e se questionarem coisas que não sabiam, mas de maneira alguma tentei mudar os seus pontos de vista. Respeitei.

Um trecho da conversa ecoava na minha mente.

– Eu fui criada assim. O que meu pai vai pensar de mim se eu não acreditar no que ele me disse?

– Não importa o que ele acha, mas o que você acredita que é verdade. – respondi.

Ela balançou a cabeça confusa e seu olhar se perdeu. Era como se minha simples mentira sobre o livro tivesse pressionado suas estruturas. Eu havia plantado a semente da dúvida. Eu sabia que se continuasse com aquele papo algo ruim poderia acontecer.

A outra mulher? Mesmo dizendo que não acreditava em feitiços e sentindo pena do santo por ser culpado por tantos suicídios e loucuras, dizia que iria procurar algum feitiço de São Cipriano na internet.

– Não faça isto, por favor. – pediu a primeira mulher.

– Você acredita em feitiços? – questionou a segunda.

– Não.

– A maldade está no coração humano, na intenção.

Voltei para o meu quarto e fiquei lá entre risadas e pensamentos, refletindo o que eu havia acabado de presenciar.

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