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Escrita Maldita: Livro de terror indicado por página literária do Instagram

Escrita Maldita foi indicado pela página literária @redrum.literario , no dia 11 de outubro de 2026. Fiquei muito feliz com esse apoio à literatura nacional independente. Fica aqui a minha gratidão. A escritora Elisangela Domingos da Silva escreveu um texto indicando Escrita Maldita. Vou tentar resumir um pouco do que foi dito. Mas vocês podem acessar o Instagram redrum.literario e saber mais informações. “Tem livros que a gente lê, guarda na estante, e mesmo depois de muito tempo sente vontade de reencontrar e esse é um dos títulos que voltaram à minha lembrança”. “O que me chama a atenção nessa proposta é justamente essa relação entre quem escreve e aquilo que cria. Para quem gosta de terror, existe algo muito interessante na possibilidade de uma história ultrapassar as páginas e invadir a vida de quem está quem está por trás dela”. “Quem acompanha o mundo literário sabe que, às vezes, perdemos o contato com autores cujos livros passaram em nossas mãos. A vida segue, chegam novas lei...

Crônica São Cipriano e a Histérica

*Texto: Ben Oliveira

Eu estava na cozinha segurando o livro de capa dura de cor preta A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, escrito por Júlio Verne, quando tudo começou.

A mulher me perguntou o que eu tanto lia.

– A bíblia do capeta – brinquei.

Seus olhos se encheram de curiosidade. Ela sabia que eu estava brincando e mesmo assim entrou no meu jogo.

– Você fala essas coisas por que não acredita. Tenho dois tios que se mataram por que leram o livro de São Cipriano.

– E você acredita? Você acredita em tudo o que te falam.

– Você que não acredita em nada.

– E se eu te disser que já li o livro de São Cipriano.

– Você leu? – ela fez uma cara de espanto.

– Já. Um trecho.

– Se você não ler o livro inteiro, você vai enlouquecer.

Não consegui me controlar. Eu ria e ria sem parar.

– Eu estou falando sério – ela disse.

– Eu estou lendo ele agora – disse enquanto mostrava o livro de capa preta. – Quer ver?

– Não. Tira isto de perto de mim!

Eu a olhava com um misto de pena e fascínio. Era incrível quando como as pessoas tinham medo de alguma coisa, elas acreditavam em tudo o que te falavam. Perguntava-me se não era exatamente isto o que as religiões faziam para controlar as pessoas. Talvez exista um limite entre a normalidade e a loucura, onde a sanidade mental se pressionada mais um pouco tiraria qualquer pessoa do seu equilíbrio.

Enquanto eu ria outra mulher entrou na cozinha. Perguntei a outra se ela conhecia São Cipriano.

– Ele é um santo, não é?

– Sim, mas ele praticava magia – respondi.

– Será que não tem nenhum feitiço para afastar um rapaz da minha filha?

– Deve ter.

– Não faça isto, senhora. – A primeira mulher logo respondeu. – Você pode enlouquecer ao ler o livro.

– E onde eu encontro ele para comprar? – a segunda mulher levantou as sobrancelhas.

– Em qualquer livraria. – respondi.

Observei como as duas mulheres reagiam de maneiras diferentes em uma mesma situação. Uma estava em estado de pânico e a outra calma.

– Se ele é tão ruim assim eu não sei, mas sempre que acontece algo eu fico falando “Ai, meu São Cipriano, me ajuda!”.

A segunda mulher repetiu tantas vezes o nome São Cipriano, que a cada vez que ela dizia, a outra se balançava como se estivesse levando um choque.

– Você não acredita em nada. Todos os dias eu oro por você – a primeira mulher me falou.

– Mas, não é por que ele não acredita que não vai para o céu. Você nunca ouviu falar na história que Chico Xavier contou do homem ateu que foi para o céu?

– Não. Ele era macumbeiro?

– Médium. Na história, mesmo sendo ateu, o homem foi ao céu porque ajudava os outros. Ir para a igreja não salva ninguém. Tem gente que vai lá só para bater ponto.

Fiquei olhando as duas mulheres conversando e me abstive de fazer mais comentários. Se eu falasse mais um pouco sobre São Cipriano, uma delas não retornaria mais a minha casa e a outra ficaria mais curiosa para saber sobre o tal santo e seus feitiços.

Percebi que quando se trata de estruturas psíquicas, há uma linha que podemos cruzar ou não. Se movermos um dos pilares da crença de uma pessoa, algo que ela acreditou a vida inteira, todo o resto pode desabar.

Saí da cozinha feliz por fazer aquelas mulheres saírem de suas inércias e se questionarem coisas que não sabiam, mas de maneira alguma tentei mudar os seus pontos de vista. Respeitei.

Um trecho da conversa ecoava na minha mente.

– Eu fui criada assim. O que meu pai vai pensar de mim se eu não acreditar no que ele me disse?

– Não importa o que ele acha, mas o que você acredita que é verdade. – respondi.

Ela balançou a cabeça confusa e seu olhar se perdeu. Era como se minha simples mentira sobre o livro tivesse pressionado suas estruturas. Eu havia plantado a semente da dúvida. Eu sabia que se continuasse com aquele papo algo ruim poderia acontecer.

A outra mulher? Mesmo dizendo que não acreditava em feitiços e sentindo pena do santo por ser culpado por tantos suicídios e loucuras, dizia que iria procurar algum feitiço de São Cipriano na internet.

– Não faça isto, por favor. – pediu a primeira mulher.

– Você acredita em feitiços? – questionou a segunda.

– Não.

– A maldade está no coração humano, na intenção.

Voltei para o meu quarto e fiquei lá entre risadas e pensamentos, refletindo o que eu havia acabado de presenciar.

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