terça-feira, 27 de outubro de 2015

Crônica: Ilusionar

Quando foi a última vez em que você escreveu um texto prazeroso? Quando foi a última vez em que você sorriu? Eu queria. Mas a morte do querer, às vezes, se faz necessária. Se as coisas simplesmente acontecessem como deveriam acontecer, quem sabe tudo não se resolveria sozinho. Eu, no presente, agora e aqui. Não quero pensar em ontem nem em amanhã. Só quero me sentir em paz.


Seus olhos continuam brilhando em minha mente. O que eles querem de mim? O que eu quero deles? Não sei. Já dizia Caio Fernando Abreu: “Num deserto de almas também desertas, uma alma reconhece a outra”. E eu tenho consciência de que foi isso o que aconteceu. Eu te reconheci. De onde? Não me pergunte.

A cada pergunta que me faço, mil respostas me silenciam. Qual é o propósito desta atração? Se nada acontece por acaso, qual será o meu papel em sua vida? Qual será o seu papel em minha vida? A vida não é como uma narrativa em que tudo precisa fazer sentido. Se temos liberdade, também temos escolha, livre-arbítrio. Será uma ilusão te desejar?

Eu que nem mesmo te conheço. Eu que quero te ajudar a se libertar de suas amarras. Eu que queria estar ao seu lado, por cinco minutos. Cinco minutos é capaz de mudar uma vida. Cinco minutos é capaz de transformar até mesmo o mais cético dos mortais. Cinco minutos. Um beijo, um abraço longo e os nossos olhos se encontrando.

Você sorri para mim. Uma lágrima escorre pelo seu rosto. O que está havendo? O que estamos sentindo? Eu quero te abraçar e desejar que este sentimento nunca passe. Quero dizer que eu estava te procurando. Pra quê? Por quê? Quando? Como? Nada disso importa. Um momento. Um minuto. Um.

Quando um se tornam dois. A fusão. Eu brincaria contigo, dizendo que gostaria de fundir nossas células, como uma piada de mal gosto feita por um ex-amor. Você diria que não é tão ruim a ideia. Você, ator. Eu, autor. Você, artista. Eu, escritor. Você, no palco. Eu, nos bastidores. Eu te observo por trás das cortinas, desejando estar ao seu lado. Lado. De quem? Meu? Seu? Nosso?

E se o nosso círculo não tivesse lados? E se eu pudesse aproveitá-lo, sem querer prendê-lo, sem querer soltá-lo? E se eu pudesse gostar de você, sem mesmo te tocar? Muitas inquietações. Minha mente, como um vulcão convulsiona e explode sensações. Como pode alguém que você não conhece te fazer tão bem e não saber? Como pode? Ilusão? Destino? Acaso? Carência? Solidão? Tristeza? Fome? Não sei. Não sei. Não sei.

Será que vou ter coragem de te pedir um encontro? Será que não vou fraquejar? O que houve com toda aquela minha segurança, com a paz que ainda ontem eu sentia? Ser invisível diante de ti me causa um rasgo na alma. Sou o vagalume sem vida, prestes a ser esmagado pela sola suja do seu sapato.

Eu queria. Eu queria. Eu queria.

Já não quero? Pois, quem é que muda de ideia de uma hora para a outra? Eu não. Eu quero, mas não quero dizer. Eu quero, mas quero que o universo se ajeite. Quero simplesmente sentar e aproveitar a viagem, enquanto você bate suas asas, para perto ou longe de mim, não importa, desde que você voe e seja feliz. Não quero sentir ciúmes. Não quero te prender. Não quero. Desejo que sejas feliz. E que seus olhos possam sempre brilhar, provocando a refração nos meus. Que em algum lugar do universo, eu possa senti-lo, ainda que nossas almas jamais se cruzem novamente.

Eu te peço. Peço um abraço, um beijo, um chamego. Eu quero. Não sei se vou conseguir me controlar. Não sei se meu ego vai permitir. Não sei se vou sofrer. Não sei se posso, se devo, se quero, se vou, se sou, se fui.

Escrevo uma carta que você não vai receber. Ela começa assim:

Garoto dos Grandes Olhos Castanhos,

Que seus olhos continuem brilhando o seu universo interior. Gostaria de me perder pelos seus labirintos. Um instante foi suficiente para que nossos corações se encontrassem. Você sente isso? Escuta as batidas? Sim, são os acidentes que meus pensamentos estão causando. Todos querem que esta batalha não seja perdida. Mas todos sabem que é preciso deixá-lo livre, para realmente tê-lo. Ter. Ser. Amar.

Minha carta. Minha carta jamais será entregue. Minha carta jamais será impressa. Você já não me escutará. O que houve? Desencanto? Não. O verdadeiro sacrifício vem das coisas que nos importamos. E como posso me importar contigo, sem mesmo te conhecer? Não me pergunte. Deixe essas questões para a metafísica, para os religiosos, para os espíritos. Eu só sei que hoje te quero bem.

Queimo esta carta, mas em meu coração eu sei que você vai escutar minha voz no meio da noite, te soprando em sua nuca todas as coisas que você já quis e nunca ninguém te falou. Eu sei.

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