quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Resenha: Antes de Dormir – S. J. Watson

Antes De Dormir é um destes livros que você se lamenta de ter lido somente após ter assistido ao filme, mas ainda assim consegue te proporcionar uma experiência maravilhosa de imersão, principalmente pela habilidade do escritor de brincar com as palavras, de forma que as memórias, o autor, a protagonista e o leitor entram numa mistura deliciosa. O thriller de S. J. Watson, Before I Go To Sleep, foi publicado em 2011, na Grã-Bretanha, pela Transworld Publishers, e traduzido para o português por Ana Carolina Mesquita, publicado pela Editora Record, em 2015.


Logo no início o leitor fica sabendo que Christine sofreu um acidente e perdeu a memória. Todos os dias, a personagem principal acorda sem ter ideia de onde está, quem é o homem que ela vê na casa e o que está acontecendo. Se não fosse por seu marido, Ben, ela ficaria perdida, já que está constantemente presa ao passado: sua mente é incapaz de guardar memórias recentes e dos últimos anos, período em que sua vida mudou completamente.

A condição de Christine é um dos pontos que mais tornam o romance envolvente. Qualquer pessoa que sofresse um acidente parecido ou passasse por qualquer outra situação de trauma cerebral poderia vivenciar as mesmas coisas. Aliás, bem no final do livro, na nota do autor, S. J. Watson comenta que o livro foi inspirado em um livro de memórias sobre pacientes amnésicos: Forever Today – A memoir of love and amnesia, escrito por Deborah Wearing.

“Meu nome é Christine Lucas. Tenho 47 anos. Sou amnésica. Estou sentada aqui, nesta cama estranha, escrevendo a minha história vestida com uma camisola de seda que parece que o homem lá embaixo – que me diz ser meu marido e se chamar Ben – comprou para mim no meu 47º aniversário. O quarto está em silêncio, e a única luz vem do abajur sobre a mesa de cabeceira – um brilho alaranjado suave. Sinto como se eu estivesse flutuando, suspensa em uma poça de luz”.

O romance é narrado em primeira pessoa, do início ao final, principalmente por meio de um diário que Christine mantém.  Todos os dias, Christine recebe uma ligação de seu médico lembrando-a de quando ela tem consulta marcada com ele e onde ela esconde o seu diário. A cada dia em que a mulher escreve, embora sua amnésia apresente pouquíssimos sinais de melhora, Christine consegue juntar, lentamente, as peças de sua história.

Não tem como não sentir a tensão na narrativa desde as primeiras páginas. Imagine ter que depender de outra pessoa para se orientar no mundo, não ter ideia de onde mora, o que fazer, o que aconteceu nos últimos anos, onde estão seus familiares (por não se lembrar que alguns deles já estão mortos) e como se comportar como uma esposa amável, quando você nem mesmo se lembra do rosto do seu marido, de como vocês se conheceram e das coisas que gostam de fazer juntos.


O livro está dividido em três partes: Hoje, O Diário de Christine Lucas e Hoje, sendo que a parte mais extensa é a do meio. Christine é vulnerável. O leitor se sente em um barco prestes a naufragar, arrastando de um lado para o outro. Quando as coisas começam a se desenrolar, percebemos que ainda há muito para se descobrir. Christine descobre que o seu marido pode não ser tão confiável, logo na sua primeira anotação do diário ela lê em letras maiúsculas: NÃO CONFIE EM BEN.

“Mas agora me sinto vazia. É verdade o que Ben disse. Não tenho memória. Nada. Não há uma coisa que me lembre de ter visto antes. Nem uma única fotografia – sejam as que rodeiam o espelho, sejam aquelas no álbum à minha frente – me desperta lembrança de quando foi tirada, não há nenhum momento com Ben de que eu me recorde, a não ser os que compartilhamos esta manhã. Minha mente parece totalmente vazia”.

Quanto mais Christine se encontra com Dr. Nash e cruza as informações sobre seu passado, com suas anotações e as coisas que Ben a contou, mais ela se sente perdida. Christine não sabe em quem pode confiar. Estaria o seu próprio marido escondendo o seu passado? Ele estaria fazendo isso para protegê-la? Ou será que o médico a está enganando? Tudo parece tão confuso para a mulher. Além de não se lembrar de fatos recentes, Christine está sempre pensando nos anos anteriores ao acidente, acreditando que ainda é criança ou mais jovem e tem dificuldades de reconhecer o reflexo da própria imagem no espelho.

Dividida entre contar ao marido sobre o diário, as consultas secretas com o médico ou continuar investigando o seu passado e saber mais sobre o seu acidente, muitas fotos que desapareceram e o porquê de Christine estar tão isolada do resto do mundo, a trama vai ficando cada vez mais emocionante, especialmente, quando a memória que estava totalmente bloqueada da personagem começa a liberar alguns flashes do passado.

“Esses momentos roubados. Ajoelhada diante do armário ou reclinada na cama. Escrevendo. Febril. As palavras jorram de mim quase automaticamente. Páginas e mais páginas. Estou aqui novamente, enquanto Ben pensa que estou descansando. Não consigo parar. Quero anotar tudo”.

O que falar sobre as reviravoltas e o clímax? Antes de Dormir causa um estranhamento maravilhoso, amarrando o estômago. Entre o mal-estar de avançar e dar passos para trás diariamente, pois mesmo com as descobertas, sem o diário Christine é incapaz de saber o que aconteceu no dia anterior, e a excitação de quando o thriller vai se tornando mais eletrizante com as revelações e os planos temporais começam a se fundir, em que a protagonista confronta o que tanto a estava assustando e foi responsável pela sua amnésia. Mesmo quem já assistiu ao filme, como aconteceu comigo, não tem como não se deixar levar pela narrativa e se identificar – principalmente, pois no romance Christine mantém um diário escrito, enquanto na adaptação cinematográfica, ela usa uma câmera para gravar.

A maneira que S. J. Watson maneja as palavras, seja para criar suspense, reconstituir memórias falhas e mostrar a importância da identidade para a personagem e como isso reflete na sua visão de mundo e escrita torna Antes de Dormir uma delícia. Tudo o que eu esperava que fosse mais trabalhado no livro Para Sempre Alice, da autora Lisa Genova –apesar de também abordar a perda de memória, falta um toque mais literário –, eu encontrei no thriller. Escrever por si só é sempre falhar... Descrever a memória falhando, os fragmentos (tema que muito me agrada) e essa questão de como a linguagem molda a perspectiva do ser humano, acaba se tornando um desafio enorme, que o escritor soube como ordenar. Não é à toa que o livro foi tão bem-recebido em tantos países e acabou sendo premiado. Apesar de todo o preconceito bobo contra best-sellers que ainda existe, principalmente no meio acadêmico, Before I Go To Sleep explora a literatura e demais áreas do conhecimento que estão relacionadas à temática, de forma a deixar a narrativa mais verossímil e intrigante. Dá para notar como o curso de escrita de ficção foi muito bem explorado pelo autor.

Sobre o autor – S. J. Watson nasceu nas Midlands, mora em Londres e trabalhou no National Health Service durante anos. Em 2009, foi aceito no primeiro curso “Como escrever um romance” da Faber Academy, programa que abrange todos os aspectos do processo de escrita de um romance. Antes de Dormir é o resultado.

A obra já teve os direitos de publicação vendidos para 42 países e ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Rowan Joffe, protagonizada por Nicole Kidman, Colin Firth e Mark Strong. Antes de Dormir foi o vencedor de melhor livro do ano na categoria Crime & Thriller do Galaxy National Book Awards.

O livro Antes De Dormir pode ser encontrado no site das livrarias Submarino, Saraiva, Amazon e Livrarias Curitiba

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