Outubro enfim chegou. Tem sido bom conferir como a previsão do tempo tem errado e não tem chovido. É um alívio poder voltar a tomar minha dose diária de sol. A verdade era que os dias de sol ajudavam a manter o humor estável. Desta vez, sentia-se levemente acelerado, mas com esperança de que tudo fosse voltar ao normal. Escrevia como uma forma de ajudar a regular o humor. Escrevia para organizar os pensamentos. Escrevia para extravasar as emoções. Escrevia. Nos últimos tempos tinha pensado em como conseguira abrir mão do cigarro, mas também em como tinha dias em que sentia falta. Mas não, não ia voltar atrás. Ia seguindo outubro, torcendo para que a previsão do tempo continuasse errando e pudesse desfrutar da dose de sol. De repente, percebia que estava cada vez mais distante de quem tinha sido há um ano. De repente, ser diferente não era algo tão ruim assim. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror Escrita Maldita , p ubli...
Leia um trecho do livro Escrita Maldita, de Ben Oliveira:
Sentado em frente ao computador, Daniel Luckman encarava o bloqueio criativo. A tela em branco o irritava. Marissa ainda dormia. Começou a escrever sobre sua incapacidade de deixar as ideias fluírem. Quando viu já tinha preenchido uma página, mas não era aquele texto que ele buscava, não era a história que queria contar.
Daniel vestia seu moletom cinza, regata branca e o tênis Nike, quando decidiu correr para remover os alfinetes da memória. Pior do que não conseguir começar ou continuar a escrever uma história, era ficar parado por horas em frente ao computador. Não, ele precisava dar um jeito de circular as energias, oxigenar o cérebro e eventualmente, os personagens voltariam a conversar com ele. Pelo menos, foi assim que ele fez para escrever seu primeiro romance publicado.
Ele não se alongou, apesar de saber que era errado e teria que lidar com as terríveis dores depois e os analgésicos que o deixariam sonolento e o fariam perder mais um dia. O escritor queria enfrentar seus problemas de frente. Quanto mais tempo ele perdia se sentindo um derrotado, mais deprimido ele se sentia. Tique-taque, tique-taque. O relógio se movia e o tempo que ele perdia dedicando à inércia, eram minutos que ele poderia usar para ler e aperfeiçoar a escrita, dar atenção à mulher ou ajudá-la a organizar as contas. Nada podia fazer se era do ócio que sua musa gostava.
Enquanto corria pela grama, ele sentia o cheiro verde inundar as narinas. Adorava estar cercado da natureza. Aprendeu com ela que todos os seres vivos estão relacionados e a vida de um deles não para só por que outro morreu. Não, ele nem mesmo ficou de luto quando Nick morreu. O pai, aquele velho miserável que se enforcou, deixando centenas de contas para a mãe. Agatha se liberou das amarras da família. Sem um marido para atormentá-la e o filho escritor – a escória da família –, para se preocupar, ela podia fazer o que tivesse vontade. Desde que Nick se foi, o homem que passou a vida toda lutando contra seus demônios, ou melhor, cedendo às vontades daquelas criaturas sombrias que habitavam o interior de sua alma, Agatha nunca mais ligou para Daniel, nem mesmo para parabenizá-lo pelo livro. Deveria estar louca, ou feliz demais com sua própria existência para se importar com o filho.
O coração acelerado o fazia se sentir vivo. Estava tão acostumado a correr naquele campo, onde sabia que não encontraria ninguém tão próximo por pelo menos 100 km, que Daniel se sentia realizado ali. Não precisava se preocupar com o cabelo amassado, com as olheiras tão roxas quanto às memórias que floresciam em sua mente ou com o visual de louco. Ele não dava a mínima. Nem mesmo se ficasse rico com a venda dos seus livros mudaria o seu jeito. Tudo o que ele queria era escrever suas histórias, transportar os leitores para a ficção, onde coisas terríveis podiam acontecer a qualquer pessoa, a qualquer momento, independente de serem bondosas ou se mereciam.
Após se tornar um best-seller com seu romance de terror de estreia, Daniel Luckman está prestes a realizar um sonho: escrever um livro com Laurence Loud, um dos melhores escritores de horror dos últimos tempos. Quando o colega põe os pés em sua casa, coisas estranhas começam acontecer. A linha entre a ficção e a realidade, a loucura e a sanidade, os pesadelos e as alucinações se dissolvem. Uma história de mistérios, passados sombrios e amor. Quando dois escritores de terror se juntam para escrever uma história, tudo pode acontecer.
O processo de criação pode ser intenso, as emoções podem ficar confusas. Você estaria disposto a sacrificar tudo pelos seus sonhos?
*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.