terça-feira, 20 de março de 2012

Relacionamentos em tempos pós-modernos

“Na última noite de sábado meu coração foi defenestrado. Por um minuto eu cheguei a acreditar que estava morto. Como vítima de um serial-killer, ele me seduziu com suas palavras ora doces ora ácidas, me fez acreditar em sua afeição e juntos subimos até o décimo andar daquele edifício. A visão era esplêndida. O que eu não conseguia enxergar, as alucinações dele me faziam imaginar. “Uma vida juntos...”. Me abraçou com força, beijou o meu pescoço e sussurrou que gostaria de viver comigo. Não deu tempo de me virar para ver os seus olhos, quando me dei conta o barulho da ambulância estava ensurdecedor e as luzes vermelhas se misturavam com o sangue que não parava de escorrer da minha boca.

Em outras épocas eu seria considerado um guerreiro, com tamanhas cicatrizes carregadas no meu corpo, alma e coração. Quando meu corpo encostou na vidraça, diversos pedaços de vidro rasgavam o meu espírito”.

Vivemos em tempos de pós-modernidade onde os relacionamentos são tão bons quanto aquele aparelho tecnológico que você acabou de comprar e no outro dia já estará ultrapassado. Por que continuar com aquele celular quando a tela dele trincou? Complicações são desnecessárias... Apesar de mais caro, estimulados pelo consumo, vale a pena comprar um novo, do que tentar resolver o problema.

A estética vem antes da ética. É mais importante parecer algo do que realmente ser. Por que diabos alguém gostaria de estar contigo se ela não gosta de você? Simples, sua presença ao lado dele vale tanto quanto aquele celular de última geração, mesmo não entendendo nada sobre suas funções, o preço e a aparência são fatores fundamentais na escolha.

Não se engane com palavras. Em tempos loucos, quando bocas se abrem, palavras saem, mas nem sempre seus significados correspondem ao que as pessoas gostariam de dizer. Como uma edição mal feita, era preferível que este fosse só um filme mudo, e não mais uma paródia.

Talvez fosse preciso inventar um manual para relacionamentos em tempos pós-modernos, a frase: “Eu gosto muito de você”, por exemplo, significaria algo no estilo: “Eu até gosto de você, mas não o suficiente”. Dizer que gosta já não é suficiente, quando atitudes mostram o contrário. Dormir com o inimigo em tempos de guerra fria é cada vez mais comum, basta saber de qual lado você está ou se está perdido neste tiroteio.

Os relógios não são mais feitos como eram antigamente, feitos para durar uma vida toda. Acabou a bateria? Atrasado? Adiantado? Não importa. Chegou a hora de pegar aquele relógio que você guardou durante sete anos e aposentar ele. O mesmo dia em que ele disse que gostava de você foi o mesmo dia em que você viu o que ele realmente sentia. Quem gosta não machuca, e se machuca é sem querer, com direito ao gosto amargo do remorso.

Se Romeu e Julieta fossem adaptados para esta época, no momento em que ela forjasse a sua morte e o seu corpo fosse encontrado, não duvido muito que Romeu choraria por apenas dez minutos e aproveitaria o resto do dia para encontrar outra pessoa. Era mais conveniente para ele a morte dela, do que ter que terminar. Quando Julieta acordasse, ela certamente morreria, mas não por causa do veneno como Romeu esperava. Vestida com uma capa, a jovem não queria que ninguém a observasse e decidiu fazer uma surpresa para o rapaz.

Romeu estava bêbado conversando com outra mulher, que nem percebeu que Julieta observava cada segundo como se fosse uma eternidade. Com lágrimas nos olhos, tudo o que ela queria era saber por quê ele tinha desistido tão fácil dela. A vida dela tinha sido prometida a ele, mesmo com tamanhas adversidades, porém tudo o que Romeu buscava era a falsa sensação de liberdade e felicidade proporcionada por uma vida vazia. No momento em que a jovem disfarçada foi conversar com o rapaz, este achou que se tratava de um ladrão e a esfaqueou diretamente no coração. As últimas palavras de Julieta foram “Por que?”. Ao invés de tentar ajudar a jovem que ainda estava viva e poderia ser salva, tudo o que Romeu conseguiu fazer foi correr, deixando a garota iludida com falsas promessas morrer.

Um comentário:

  1. Simplesmente seu melhor texto até agora. Pelo menos o que mais mexeu comigo. Não sei dizer se pq eu reassisti Romeu e Julieta do Franco Zefirelli este fds. Mas fala mais alto a minha sensibilidade. E claro o olhar. O que se propôs fazer, vc não fez. Conseguiu fazer muito melhor. Não foi um textinho. Foi uma conversa ao pé do ouvido, olhando nos olhos, foi limpo e transparente. A sensibilidade de artista, a curiosidade de jornalista e o sentimento que carrego comigo falaram mais alto nesse momento. Observando esses relacionamentos auto destrutivos, chego a pensar que sou como Nietzsche - UNO, se basta pq sabe lidar com seu nível de angústia por se decepcionar tão grandemente com as pessoas... Atitudes gregárias e bestiais não me apetecem. Talvez Ben... nós nascemos no tempo errado, pq eu não me vejo, eu não me encontro, salve quando estou em cena, no palco ou ainda com meus alunos. Mas aquela cumplicidade, respeito e amor que creio que exista, talvez não esteja em nenhum outro ser. E sem hipocrisias, agnt só cobra aquilo que oferecemos... e se ainda assim a troca não for justa, que haja respeito. É difícil encontra-lo hj nas relações não é...? Cético? Não...Simplesmente fora do contexto...
    "Pode ter sido sagrado pra mim, mas só pra mim"

    "Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo" - Romeu (mas não o contemporâneo, o Romeu de Shakespeare - o de verdade - o de amor)

    MAIS UMA VEZ PELO BRILHANTE PROFISSIONAL QUE TEM SIDO... E POR TODA SINGULARIDADE QUE OFERECE.

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