quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Andarilho Percorre o Mundo

*Matéria escrita por Aliny Mary Dias, acadêmica de Jornalismo da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), para o jornal-laboratório "Em Foco", publicado em Outubro de 2012.



História - Depois de percorrer mais de 26 mil km
andando, homem carrega consigo brasões e
memórias dos locais por onde andou.
Foto: Aliny Mary Dias.
Foi um encontro ao acaso, sem hora e local exato para acontecer. Ao chegar no quartel do Corpo do Bombeiros, minha expectativa era conhecer a rotina dos militares e quem sabe, encontrar entre aqueles oficiais uma boa história que valesse algum espaço neste jornal.

Alguns minutos de conversa com o sargento Costa, temperada com muitas perguntas, é claro, e a sirene do pátio toca. Todos aqueles homens de vermelho que estavam sentados, tomando tereré para espantar o calor, se levantam. Correm em direção à viatura, ligam a sirene e saem em disparada.  Eu estava preparada para que a entrevista fosse interrompida a qualquer momento, afinal aqueles homens são os heróis do povo e seguem à risca o dizer da oração do bombeiro: ‘jamais hesite no ato de salvar’.

Um pouco desapontada fui em direção a um banco próximo à parede para esperar a volta do sargento e de sua equipe. Avistei um homem de aparência frágil com uma linha e agulha nas mãos sentado no banco, várias bugigangas e uma mochila tomavam conta de quase todo o espaço. Sentei um pouco longe dele, e sem querer conversa, mas também sem ser mal educada, dei-lhe um “boa tarde”. Aquele homem me olhou com um sorriso diferente e respondeu: “Bom tarde”. Logo percebi seu sotaque e vi que não era brasileiro, pensei comigo ‘deve ser mais um daqueles andarilhos nômades’, mas eu estava enganada.

Em menos de 2 minutos de conversa, percebi que o inglês da cidade de Massachussets, Martin Hutchinson de 50 anos, havia se tornado o personagem perfeito para minha reportagem. Aquele homem estendeu a mão e me deu um caderno cheio de brasões de corporações de bombeiros de todo o mundo colados na capa. Ao abrir tive uma surpresa, reportagens em todos os idiomas possíveis, fotos daquele homem bem mais novo do que agora, e todas as manchetes repetiam: ‘Homem cruza o mundo a pé pregando mensagem ecológica’.

Não acreditava no que estava escrito ali, mas ao olhar para seus tênis bem gastos, uma sola bem grossa colada para proporcionar mais quilômetros de caminhada e com uma rápida conversa em inglês, comecei a ter a maior lição da minha vida.

Martin é militar do Corpo de Bombeiros da Inglaterra e formado em Filosofia. Há 20 anos atrás, cansado da rotina e do consumismo exacerbado, ele decidiu que todo o dinheiro que ganhasse trabalhando seria guardado. “Eu não gastei nada, só o suficiente para comer”, conta. Com o dinheiro arrecadado durante 15 anos de trabalho, o homem decidiu que queria conhecer o planeta e fugir daquela loucura da Inglaterra.

Defensor do planeta cansado do consumismo decide sair da rotina
e resolve conhecer a realidade viajando a pé. Foto: Aliny Mary Dias.
Há 5 anos e 3 meses atrás, Martin partiu do velho mundo e embarcou em um navio até o México, de lá foi até a estrada mais próxima e começou a pedir carona. Ninguém parou, então o homem começou a caminhar. “Eu andava e via a placa de 92 quilômetros até tal cidade, continuava andando e os quilômetros iam diminuindo, assim peguei gosto por caminhar e nunca mais parei”.

Foram mais de 21 países visitados até aqui, mais de 26 mil quilômetros andados a pé e mais de 27 pares de sapatos gastos. Mas aquele homem era mais que um amontoado de números, eu ia anotando todos aqueles dados e percebia que estava prestes a fazer mais uma reportagem igual as outras que li no caderno surrado.

Parei de escrever compulsivamente e perguntei ao Martin o porquê daquilo tudo, ele me respondeu com outra pergunta. “Você está interessada na minha história? Tem tempo para me ouvir?”. Boquiaberta disse sim e aquele homem começou a falar em uma mistura de inglês, português, espanhol e castelhano. No início foi um pouco complicado, mas com os gestos e frases repetidas algumas vezes, a conversa fluiu durante 3 horas, que para mim pareceram 3 minutos.

O motivo que levou Martin a começar aquela aventura foi o consumismo e a degradação do meio ambiente, o andarilho é um defensor do planeta Terra. “Por que as pessoas compram tanto? Os produtos geram uma felicidade de uma ou duas semanas e depois as fábricas lançam uma coisa nova, as pessoas vão lá e compram de novo. Quanto mais o mundo compra mais o meio ambiente sofre”, afirma.

Nos olhos daquele homem foi possível ver o sofrimento que o desmatamento da Amazônia ou o forte calor de Bangladesh o causavam. Para ele, todos os habitantes do planeta têm responsabilidade com o meio ambiente. “Todo mundo têm que entender que as pessoas um dia terminam e morrem, mas o planeta continua, então temos que cuidar dele”.

Sobre a família Martin conta que deixou irmãos, irmãs e parentes na Inglaterra, ele não pretende voltar a cidade natal e quando perguntei se tinha filhos, foi incisivo. “Para que eu vou ter filhos? Não quero que eles vivam nesse mundo mau, as pessoas são muito más e não têm amor pela natureza e nem pelo outro”.

Martin não parava de falar e o que eu mais queria saber aquela altura era como ele se sustentava. Ele já tinha me contado que em todas as cidades que passava procurava um quartel do Corpo de Bombeiros para se hospedar, ficava entre 3 a quatro dias em cada cidade e depois pegava uma estrada e partia.

Em um momento da conversa, enquanto Martin me mostrava sua mochila cheia de acessórios criativos que ele mesmo criou, vi uma carteira. Perguntei para ele se tinha documentos ou passaporte, ele a abriu e avistei um cartão de crédito. Achei aquilo estranho, para um homem que lutava contra o consumismo, mas depois entendi o porquê.

Durante os 15 anos de trabalho de Martin, ele juntou o salário e o depositou em uma conta bancária, é desta conta que ele retira o dinheiro para comer e comprar tênis novos quando precisa. “Durante esses 5 anos e 3 meses de viagem eu gastei 3 mil dólares, só saco o dinheiro quando preciso mesmo, só gasto o suficiente para não passar fome e continuar andando”, conta.

Depois daquela aula de vida, olhei ao meu redor e percebi que vários militares estavam ali ouvindo as histórias de Martin. Se deixasse, aquele homem falaria a noite inteira, sem parar. Mas olhei para o relógio e vi que era hora de ir embora, com o sorriso nos olhos Martin agradeceu o tempo que eu havia parado para escutá-lo e disse. “A minha história pode ser muito boa ou ruim, depende de como os jornalistas a escrevem e mostram isso para as outras pessoas”.

Saí daquele lugar com uma vontade louca de chegar em casa, sentar na frente do computador e contar a história daquele homem para o mundo todo. Mas percebi que em 10 ou 11 parágrafos seria impossível transmitir toda a felicidade e aprendizado que aquele homem havia me proporcionado naquela tarde. Fui dormir com uma frase de Martin pipocando na minha mente e com a certeza que depois daquela tarde, havia entendido a verdadeira missão de todo o jornalista.


 “O mundo é meu amigo e minha casa, cuide bem dele”.
Martin Huttchinson

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