quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Resenha Eros e Civilização - Herbert Marcuse

Texto: Ben Oliveira

Eros e Civilização: Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, livro escrito pelo sociólogo e filósofo alemão Herbert Marcuse, em 1955, com o título original "Eros and Civilization - a philosophical inquiry into Freud", e traduzido por Álvaro Cabral trás uma visão filosófica e sociológica com base nas teorias freudianas e psicanalíticas.

Segundo o autor, o título da obra é otimista e indica como a sociedade industrializada avançada e os homens conseguiriam evitar a destruição e repressão, por exemplo, e conseguiriam sustentar os instintos vitais e lutar contra a morte. Todavia, outras formas de controle social foram implementadas para reprimir a necessidade de libertação dos indivíduos.

Entre as características da sociedade atual estão as pessoas que se adaptarem a contínua produção e consumo, a criação de novos inventos, as ações que tornam os produtos obsoletos, aos meios de destruição e a necessidade que as pessoas sentem de comprarem e renovarem seus produtos.

"O povo, eficientemente manipulado e organizado, é livre; a ignorância e a impotência, a heteronomia introjetada, é o preço de sua liberdade", através deste trecho escrito por Herbert Marcuse é possível entender sua opinião a respeito da vida em sociedade atual em que as necessidades instintivas se transformaram. De acordo com Herbert Marcuse, as mercadorias são os novos objetos da libido. O ódio pelo inimigo nacional ajuda a satisfazer a necessidade de agressividade do inconsciente e a democracia permite as pessoas a escolherem seus governantes e a participarem.

Para Herbert Marcuse, apesar de sermos cada vez mais livres, principalmente no quesito de liberdade sexual, também estamos cada vez mais presos a um sistema que prática crimes contra a humanidade para conseguir o que deseja. A liberdade econômica é comentada pelo autor que explica que os produtos dela são a pobreza e a exploração. Os escravos são parte do passado e as pessoas servem ao sistema, em nome do progresso, em uma espécie de servidão voluntária.

Quando o autor escreveu a tese de Eros e Civilização, ele argumentou que o seu propósito foi retratar como o homem conseguiria reconstruir o sistema produtivo, se libertar e se desenvolver, todavia o que se observou foi somente uma mudança do conflito. "As pessoas livres não necessitam de libertação e as oprimidas não são suficientemente fortes para libertarem-se", descreve Herbert Marcuse.

Ainda segundo Herbert Marcuse, todo o desenvolvimento técnico e científico ao mesmo tempo em que trouxe benefícios, também criou uma espécie de guerra em sociedade, na qual os cidadãos podem não perceber seus efeitos, mas as vítimas sentem. O sistema de exploração e repressão abrigam o desenvolvimento e seus produtos que possibilitam a destruição em massa.

De acordo com Marcuse, ao interromper o excesso de produção de bens supérfluos e destrutivos, o autor acredita que o homem deixaria de sofrer fisicamente e mentalmente. O autor ainda explica que toda a repressão e exploração gera uma produtividade agressiva e faz com que aconteçam guerras, nas quais mesmo sem saber exatamente como funciona a sociedade, os rebeldes sentem uma necessidade de libertação.

Ao mesmo tempo em que o sistema reprime os indivíduos, esta sociedade protege a vida, mas Herbert Marcuse acredita que a agressão retida é pior do que a agressividade natural em defesa da vida. Se o progresso continuar sendo valorizado desta forma, o sistema pode passar pela auto desintegração. Herbert Marcuse cita fatores como a necessidade cada vez maior de trabalho, o crescente desperdício de recursos, a criação de empregos desnecessários e o crescimento do setor militar ou destrutivo.

Em meio a essa guerra não tão invisível, o filósofo explica que os jovens estão na linha da frente, pois eles desejam viver e lutar contra a morte. Por mais que a vida seja prolongada através de recursos, a sociedade busca cada vez mais o "atalho para a morte", um sistema que só pensa no desenvolvimento econômico e se esquece do ser humano.

Herbert Marcuse explicou as fronteiras entre filosofia, política e psicologia já não existem e que os três estão relacionados. O filósofo explicou que através de sua tese ele buscou analisar a filosofia da psicanálise de Freud (suas implicações filosóficas e sociológicas), não ela em si. Freud acreditava que a história da civilização está atrelada à repressão do homem, condição prévia do progresso. Ainda de acordo com o Pai da Psicanálise, sem a repressão, o homem seria livre para fazer tudo o que o trouxesse prazer. "O Eros incontrolado é tão funesto quanto a sua réplica falta, o instinto de morte", acrescente Herbert Marcuse.

Sacrifício da libido, repressão e ausência de liberdade são alguns dos reflexos da civilização. O homem teve que aprender a controlar o seu instinto (impulsos primários) e diferenciou-se dos outros animais, transformando os seus instintos e princípios. O princípio do prazer transformou em princípio de realidade: a busca pela satisfação imediata é substituída pela satisfação adiada, o prazer torna-se restrito, as atividades lúdicas perdem espaço para o esforço laboral, a produtividade é cada vez mais incentivada e a segurança ganha destaque. Freud considerava esta transformação de princípios um grande acontecimento traumático no desenvolvimento do homem.

A repressão faz parte da luta pela existência, vista como eterna por Freud. O homem encontrou outras formas de prazer, como o desvio de energias sexuais para o trabalho. Essa visão dualista entre prazer e restrição foi relacionada com os conceitos de Eros e Thanatos, na qual o primeiro representa os instintos de vida e amor, enquanto o segundo define os instintos de morte e as compulsões repetitivas que substituem o princípio do prazer. Além de simbolizar o instinto de vida, o termo Eros utilizado por Freud, também representa a sexualidade.

O autor do livro também aborda a teoria de Freud e explica as principais camadas da estrutura mental, designadas como id, ego e superego. O id é considerado o domínio do inconsciente e instintos primários, na qual os valores morais são ignorados; o ego representa o mundo externo para o id, sua representação e controla o prazer, substituindo-o pelo princípio da realidade; o superego é o representante da moralidade estabelecida e é a camada responsável pela introjeção no ego de restrições externas, pelo sentimento de culpa.

Trabalhar é uma necessidade cada vez mais difundida. O trabalho que veio para substituir o prazer, segundo Freud, não consegue suprir a libido, pois às vezes a pessoa acaba fazendo o que não deseja somente para trabalhar para o sistema. "O tempo de trabalho, que ocupa a maior parte do tempo de vida de um indivíduo, é um tempo penoso, visto que o trabalho alienado significa ausência de gratificação, negação do princípio de prazer", descreve Herbert Marcuse. A repressão do homem significa o seu distanciamento de Eros (prazer) e a impregnação dos instintos de morte provocando desintegração pelos produtos criados por ele mesmo.

"O passado define o presente porque a humanidade ainda não dominou a sua própria história", Herbert Marcuse comenta sobre a necessidade de entender a relação com a identidade arcaica da espécie. Freud acreditava que o destino do universo está nos impulsos instintivos e nas modificações históricas. Segundo o psicanalista, o homem não consegue superar totalmente o complexo de Édipo, e mesmo antes de se formar o ego, algumas diretrizes já estão determinadas. A história da humanidade influencia bastante em quem somos hoje e como nos comportamos.

Herbert Marcuse aborda no livro a Dialética da Civilização e explica que para Freud, a culpa era importante para o progresso da civilização. A mesma culpa responsável pela infelicidade do homem, também pode ser reconhecida pela produção cultural, caso contrário, o homem ficaria submisso ao princípio do prazer. Segundo Freud, o sentimento da culpa é resultado tanto do medo da autoridade, quanto do medo do superego (autoridade interna).

Para o autor do livro, apesar do homem poder consumir diversos bens e serviços isso controla as suas necessidades e capacidades. "Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre", acrescenta Herbert Marcuse. Segundo o sociólogo, o homem tenta evitar o problema do ócio e de fazer suas próprias escolhas, distraindo-se com os novos e diversos inventos. Marcuse também aborda a produtividade, valor pelo qual o homem é avaliado por conta de suas realizações socialmente úteis. Esta produtividade é cada vez mais buscada, e cada vez mais o trabalho é segmentado e contraria o princípio do prazer. Razão e supressão são relacionados pelo autor do livro, sendo o primeiro termo considerado um instrumento para coação.

6 comentários:

  1. Ótimo resumo, vai ser muito útil.
    Minha monografia é sobre Freud e seu discurso sobre a educação e a vida social e o ultimo capitulo falarei de Marcuse ...
    Obrigado!

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    1. Roberto, fico feliz em saber que a resenha te ajudou!
      Boa sorte na sua monografia. Se puder compartilhá-la quando estiver pronta. Fique à vontade!
      abraço

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ben Oliveira, o que era para Marcuse civilização ? e qual sua atuação na vida do indivíduo ?

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  4. Texto muito bom e confiável. Só faltou a referência do livro. :)

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    1. Olá, Jéssica. Fico feliz que tenha gostado do texto. Quanto à referência, é útil para trabalhos acadêmicos. Na internet, os textos são mais descompromissados.
      Gratidão pelo comentário e pela visita.
      Abraços

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