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Destaques

Desconhecer

 “Vamos nos Desconhecer”. Você respondia não e dizia que era uma ideia ruim. Mas o tempo foi mais forte e quando menos nos demos conta, estávamos em um processo de afastamento e encerramento de ciclo. Não responder também era uma reposta. Não perguntar sobre como o outro estava. Não aceitar os limites do outro. Não entender que estava tudo bem discordar e continuar conversando. A verdade é que a permanência de ninguém está em nossas mãos. Não temos controle sobre quem vai, quem fica, mas podemos lembrar de ao menos termos tentado e as coisas não darem certas. Olhando assim, talvez até parecia que só havia uma tragédia. Mas a verdade era que aprendera com o outro, coisas úteis e também aprendera como não queria ser. Escrevia como uma forma de colocar o luto para fora. Escrevia como quem sabia desde o começo: um dia iríamos nos desconhecer, e não seria uma questão só de escolher, e sim de como a vida era. Havia me deixado mal acostumado. Sempre achando que estaria disponível. Até que...

Barganha

O silêncio da última vez em que se falaram era tudo o que restava. O som de passos se afastando, sem saber que seria a última vez, acompanhado de uma leve fantasia de que algum dia iriam se reencontrar, ainda que em um contexto diferente.

Ao lidar com a luta contra o vício, também vinha revivendo memórias e, agora, duas semanas sem fumar cigarro, estava pensando em como a mente estava tentando barganhar. Quem sabe trocar por um cigarro mais barato? Quem sabe finalmente vou conseguir fumar menos? Muitas possibilidades que sabia que não deveria ceder.

A ausência que alguém causava na vida não era tão diferente. Muitas vezes, ficávamos presos em um ciclo de “E Se”, alimentado por nostalgia, desejo e fantasia, mas nem sempre com os pés no chão. Mas assim como o vício que sabia barganhar, a mente também dava seus próprios meios de iludir de alguma forma.

A aceitação radical de que algo não vai mais acontecer, muitas vezes, é tudo o que é necessário para conseguir seguir em frente. Estava exausto das fantasias, preferia a realidade que o machucara, consciente de que talvez as coisas fossem melhores assim.

Então, assim como o velho fantasma do passado que tentava se manter vivo no presente, ia dizendo não ao cigarro, aceitando que uma vez que havia se libertado, não queria que fizesse mais parte da sua vida. Talvez fosse um pouco parecido com a dependência emocional que sentia, a parte lógica do cérebro sabia que já não fazia sentido há anos, mas a parte emocional ainda se alimentava de esperança.

Assim como o vício que era negado dia após dia e não era agradável viver sem, precisava que o cérebro entendesse de uma vez por todas que o outro jamais voltaria. Era doloroso, mas realista. Era o que precisava para voltar a viver o momento presente, deixar de esperar que o passado fosse mudar e que ainda havia tempo de reescrever a história. Eram um livro encerrado, que para o outro já havia passado da hora da doação. Um livro que não importava o quanto tentasse, não teria continuação. Aceitação era tudo o que restava.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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