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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

Resenha: Sangue Quente - Isaac Marion

Texto: Ben Oliveira


Sangue Quente (Warm Bodies) é um desses livros que você não consegue parar de ler até devorar cada um de suas palavras, páginas, partes. O amor impossível é o tema do livro, que conta a história de um zumbi e de como ele se apaixona por uma jovem em tempos apocalípticos.

No Brasil, Warm Bodies, escrito por Isaac Marion, foi publicado pela Editora Leya, em 2011. O livro tem uma boa diagramação e em algumas partes traz algumas ilustrações relacionadas à história, quebrando a possível monotonia inexistente, já que
a obra tem várias divisões de pensamentos, deixando a narrativa mais envolvente.

A fórmula é a mesma que já deu certo para diversos escritores, fazendo com que os personagens sejam encantadores e o leitor se identifique com eles. O livro se inspira na história de Romeu e Julieta, obra de William Shakespeare publicada há mais de 400 anos, que serviu como base para muitas obras de romance e continua fazendo sucesso pelo mundo.

Isaac Marion escreveu uma deliciosa história de ficção e romance. Além de ser lida no sentido literal, a obra traz uma série de reflexões e metáforas sobre o comportamento das pessoas na sociedade em que vivemos. Por exemplo, questiona-se o que diferencia os mortos-vivos dos seres humanos e se não são apenas suas características desconhecidas, como um tipo de espécie diferente.

Tão fascinante quanto o amor proibido de vampiros e humanos, como pode ser visto na famosa saga Crepúsculo, escrita por Stephenie Meyer, autora que também elogiou Sangue Quente. O amor entre seres diferentes causa identificação nos leitores por causa da superação, aceitação e confiança necessárias para fazer aqueles relacionamentos darem certo, o que faz quem está lendo pensar: “Se aqueles dois estão juntos, eu também posso viver uma história assim com alguém”.

Tudo começou quando R., um zumbi que só se lembra da primeira letra do seu nome ataca um grupo de resistência dos humanos. Ao devorar um pedaço do cérebro de um jovem chamado Perry, o morto-vivo tem alguns flashes da memória do garoto e de sua namorada, Julie. Aquela sensação é tão boa, que R. decide guardar no seu bolso o que restou do órgão do jovem. Por coincidência, a ex-namorada de Perry também estava no momento do ataque ao grupo.

Mesmo sem saber exatamente o porquê, R. começa a se apaixonar e se preocupar com Julie. A cada mordida que o zumbi dá no cérebro de Perry, mais ele fica interessado pela garota. Enquanto a maioria das histórias sobre apocalipse zumbi se foca na matança entre humanos e mortos-vivos, Sangue Quente leva ao leitor o impossível – o envolvimento entre alguém que já morreu e um ser vivo.

Em Sangue Quente, o leitor percebe que mesmo em um mundo apocalíptico, sempre existe alguém tentando governar e mostrar o seu poder – seja entre os humanos, que dividiram seus grupos de acordo com as funções ou entre os próprios zumbis. Até mesmo no mundo dos mortos, os zumbis precisam respeitar os Ossudos, seres antigos, resistentes e maquiavélicos.

Para quem gosta de ler as entrelinhas, o livro além de ser uma boa fonte de entretenimento, também faz pensar nas outas realidades. Até que ponto a obra é fictícia ou não? Se um escritor consegue te transportar para outros mundos, se emocionar e pensar em uma história, mesmo quando você não está lendo mais o livro, o autor conseguiu cumprir o seu papel com a literatura.

Em alguns trechos do livro a protagonista declara sua opinião sobre o apocalipse zumbi. Julie questiona se o mundo não tinha acabado antes das pessoas se transformarem em mortos-vivos, por causa das guerras, catástrofes e excesso de consumo, e se as pessoas não eram as únicas responsáveis pelo que aconteceu.

A frieza e a irracionalidade dos zumbis não parece tão distante do comportamento dos humanos nos dias atuais. O pai de Julie, por exemplo, responsável por comandar as pessoas, após perder a mulher e se ver naquele cenário, desliga suas emoções e parece se preocupar mais com a sobrevivência do que com viver e aproveitar os prazeres da vida. Além dos diferentes hábitos alimentares e da falta de funcionamento dos órgãos da engrenagem humana, talvez o que separem os humanos dos zumbis seja o sangue quente.

O sexo e os relacionamentos vazios também são mostrados no livro. R. descreve a cena de dois zumbis esfregando seus corpos gelados. Não há emoções envolvidas, os mortos-vivos parecem consumir o ato em uma espécie de obrigação, fazendo movimentos mecânicos.

R. é o primeiro zumbi a ter sentimentos por um ser-humano fazendo tanto os humanos quanto os seus companheiros questionarem como aquilo era possível e se os outros mortos-vivos ainda têm esperança de se transformarem em bons novamente.

O protagonista se esforça para fazer o bem para Julie. Ele tenta juntar cada fragmento de memória do Perry e agradar a jovem. Do desconforto e repulsa sentidos por Julie nos primeiros contatos com o morto-vivo até a entrega e o amor, o leitor viaja pelas páginas e não consegue parar até descobrir o que finalmente acontecerá ao casal e como os humanos e zumbis irão reagir diante daquela situação. À medida que o garoto se envolve com a loira, é como se ele ganhasse cada vez mais vida.

Com duas partes longas e uma muito curta no livro, indicando que a história poderá ter continuação, Sangue Quente termina deixando o leitor com vontade de querer ler mais e ser transportado novamente para aquela dimensão.

Recomendo o livro para quem gosta de histórias que fluem com facilidade, romances adolescentes e zumbis. Para quem está enjoado dos mesmos enredos de sempre de apocalipse zumbi, Sangue Quente traz uma perspectiva pouco explorada. Descubra o que acontece quando um zumbi se apaixona!

Um prelúdio, livro anterior à Sangue Quente foi publicado no formato de eBook (livro eletrônico) pela Zola Books, no dia 28 de janeiro de 2013, com o nome de The New Hunger. Ainda de acordo com informações do Wikipedia, a sequência do livro já está sendo escrita por Isaac Marion, mas ainda não há previsão de publicação.

Cartaz do filme Meu Namorado é um Zumbi.

Para quem gostou do livro e deseja ver a história de Sangue Quente em formato de filme, a obra foi adaptada para o cinema e lançada no dia 8 de fevereiro de 2013, com o título no Brasil: Meu Namorado é um Zumbi.

Trailer do filme Meu Namorado é um Zumbi – adaptação de Sangue Quente

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