quarta-feira, 12 de junho de 2013

Minhas impressões do lançamento de Loveless

*Texto: Ben Oliveira

Minhas mãos estavam tremendo, os joelhos duros e a cada passo que eu dava em direção ao lançamento do livro Loveless, um pensamento assustador tentava me convencer a fazer o contrário.

Capa do livro Loveless.
Foto: Divulgação / Editora Escândalo.
Ao lado do meu melhor amigo Tiago Berrocal e meu namorado Matheus Rondon, eu não consegui esconder os meus medos. Após duas garrafas de cerveja para que a minha língua começasse a desenrolar e as vozes da minha cabeça me deixassem tentar aproveitar aquele momento, eu queria ser não como um espectador ou como um escritor que simplesmente dá as coordenadas aos seus personagens, mas me comportando como um dos protagonistas. Gostaria de ter controlado o meu corpo e mente, a razão tinha me abandonado e eu transbordava emoções.

A cada comentário feito pela editora do livro, minhas bochechas ficavam tão vermelhas que eu sentia como se estivesse da cor da minha camiseta, era como um camaleão ou qualquer outra criatura que mudasse de cor quando se sentia em perigo.

– Tem certeza que ele tem mais de 18 anos? – a mulher vestida de preto e olhar curioso, parecia estar encantada ao perguntar ao meu amigo. Seu nome era Giselle Jacques, uma das responsáveis pela publicação de Loveless, uma coletânea de contos com temática gay, lançada pela Editora Escândalo.

Ao ouvir suas palavras, me controlei para não ir ao seu encontro com o documento em mãos, desesperado para comprovar que sou mais velho do que aparento. Meu medo inicial de ser excluído do livro demonstrou toda a minha ansiedade e nervosismo que só pioraram graças à noite anterior mal dormida, pensando em como seria aquele evento.

Escritores selecionados para livro de contos sobre o universo gay. Foto: Rafael Chapani.
Naquele momento, em frente ao palco, após ouvir Giselle chamando todos os Loveless, apelido dado pela editora para os autores do livro homônimo, eu tremia tanto que era como se minha alma tivesse abandonado o meu corpo por alguns instantes e ficasse observando aquela cena.

Dentre doze autores, eu estava orgulhoso de mim mesmo, pois tinha conseguido ter dois contos selecionados para aquela obra. Em um mundo onde a heteronormatividade ainda é lei e até mesmo os próprios gays enfrentam suas próprias resistências, preconceitos e lutam com a homofobia interna, fiquei aliviado ao descobrir que uma editora publicaria os meus textos. Apesar de muitos escritores serem homossexuais ou até mesmo heterossexuais que escrevem histórias sobre o universo gay – como no caso de Giselle e de outra escritora presente no evento, Marli Porto, tendo esta contado que não conseguiu publicar o seu romance em outra editora por não ser lésbica e julgada como alguém que não poderia abordar esta temática – as editoras, em sua maioria, se recusam a publicar obras LGBT.

Após receber um não de uma editora com um selo gay, sem nem mesmo terem lido os meus textos e com a seguinte resposta: “Informo que não temos interesse em seu original, pois não se insere em nosso catálogo”, encontrei na Editora Escândalo a esperança de que meus textos não ficariam sufocados em uma gaveta, longe de pessoas que pudessem se interessar por eles, ou melhor, armazenados na memória do computador, como se fossem almas aprisionadas entre dois mundos.

De volta àquele ambiente do Telstar Hostel, em São Paulo, onde aconteceu o lançamento de Loveless, na Festa Literária Escandaliza, meus olhos se encheram de vida ao ouvir o meu nome e ao ser descrito como o autor mais novo da editora. De repente, senti como se todos os livros lidos, os rascunhos, as madrugadas escrevendo, as horas pensando, dores e experiências vividas tivessem possibilitando o nascimento daquele livro. Éramos doze pais de um livro, mesmo não estando todos presentes fisicamente naquele local, suas energias, impressões, essências estavam reunidas ali, nas páginas e em suas palavras impressas.

Todos os autores receberam aplausos. Alguns tímidos, outros confortáveis, cada um experimentava e se deliciava ao seu modo.

– O primeiro autógrafo é uma experiência única na vida de um escritor – ouvi alguém falar no microfone. Fico pensando no que deveria escrever, algo que até àquela hora não tinha parado para pensar.

Meus primeiros autógrafos aconteceram durante a Festa Literária Escandaliza, da Editora Escândalo. Foto: Rafael Chapani.

Minha verdadeira felicidade não estava no simples ato de assinar o meu nome, ato visto por alguns como a exaltação do próprio ego e até mesmo reprovado por escritores iniciantes, por não terem total certeza de que seus textos são bons o suficiente para merecerem um autógrafo, mas na garantia de que aqueles contos seriam lidos e vivenciados por alguém. Afinal, de nada adiantaria dar a luz para um livro, se o mesmo não tivesse pessoas interessadas em lê-lo. Mesmo sendo só de um de doze autores, me senti como um daqueles pais que se preocupam não só com o zelo e segurança de seus filhos, porém que sabem a importância de apresentá-los ao mundo e deixa-los respirar livremente, até acharem seus caminhos de volta para casa.

Conheci um pouco sobre cada um dos autores que estão perto de mim, um é revisor ortográfico, o outro é médico, tem aquele que é advogado, um filósofo e o psicanalista. Cada um tinha suas particularidades, estilos, diferentes modos de pensar e se expressar, mas compartilhavam a emoção de terem sido selecionados e ajudarem a criar aquele livro.

Depois do lançamento vários pensamentos passaram pela minha cabeça. Revivo aquelas cenas diariamente, pensando que poderia ter aproveitado mais, me soltado e deixado fluir, como a leitura de um bom livro. Lembro-me de um professor dizendo que somos aquilo que podemos ser em determinados momentos e tento pegar leve comigo mesmo. Aquela foi uma oportunidade inesquecível, todavia acredito que não será a última. Algo me diz que não importa quantas histórias eu consiga publicar um dia, sempre me emocionarei por ter dado mais um passo na minha jornada. Não há nada como sentir como se você estivesse fazendo aquilo que deveria fazer. Eu já não me sentia mais perdido e podia jurar que tinha encontrado o caminho, só precisava ter coragem para continuar seguindo em frente.

Escrever é o meu céu e o meu inferno, onde posso dar voz para os meus anjos e demônios, brincar com palavras, dar vida às ideias, reviver lembranças, inventar pessoas, retratar lugares, mergulhar dentro de mim mesmo e ser quem eu realmente quero ser, naquele instante, que pode durar alguns minutos ou uma eternidade. O texto e o autor são um só, mas não são o mesmo – paradoxo que faz quem está lendo se perguntar se o protagonista é você, se o que você está contando realmente aconteceu ou se não passa de sua imaginação.

Ainda não estou pronto para dizer adeus para os meus contos, pois tenho curiosidade de saber o que as pessoas acharam, mas dou permissão à minha alma e mente percorrerem novos caminhos e darem a vida para novos personagens e histórias.

Autores de Loveless que estavam presentes no lançamento do livro, durante a festa literária Escandaliza. Foto: Rafael Chapani.
Fica aqui os meus agradecimentos para Giselle Jacques, Roberto Muniz Dias, Rafael Nova e Alexandre Willer Melo, da Editora Escândalo, bem como aos outros Loveless que eu conheci ao vivo ou não: Eduardo Bravo, Rodrigo Adriano Machado, Felipe Moreira, Luciano Cilindro de Souza, Daniel Manzoni, Ítalo Damasceno, Cícero Edinaldo, Sergio Viula, Tales Gubes, Roberto Maty e Marcio Lima.

Para quem ficou interessado em compar Loveless, o livro está disponível no site da Editora Escândalo.

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