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Destaques

Escrevendo um novo caminho

Escrevia um novo capítulo sem ter a mínima ideia de qual direção seguir. Ia se permitindo viver o momento presente e também as surpresas que vinham pelo caminho. Cansado de repetir velhos padrões, desta vez estava apostando as fichas no novo, ainda que não fosse levar para lugar algum. Ia firme no propósito, sabendo que sem arriscar, havia muitas coisas que deixava pra trás. Então, se perguntava se já não havia chegado a hora. A hora de quê exatamente? Não fazia ideia.  Sabia que algo precisava mudar. Sabia que algumas mudanças vinham de dentro para fora, mas também que exigiam energia para mudar.  Ia se permitindo o leve desprendimento, deixando de lado tudo o que um dia fizera sentido e agora não fazia mais. Ia se libertando, para então criar novos caminhos e chegar a lugares diferentes. Se daria certo ou não, não fazia ideia, mas estava pelo menos tentando. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escrita Maldita , p ublicado na Amazo...

Bloqueios criativos e desencontros

Bloqueio criativo. Falta de concentração. Olho para a tela do computador e o cursor está piscando, como se estivesse esperando que eu faça alguma coisa, para ele poder descansar um pouco. A história que parecia tão clara na minha cabeça se transformou em um eco, cujo som eu não consigo mais identificar. Talvez eu devesse ter anotado minhas ideias quando ainda estavam frescas na minha memória. Usar o caderno poderia ter me ajudado. Pergunto-me onde está a minha disciplina? Sinto vontade de aprender, ler, assistir, observar, no entanto o que está me faltando é escrever. Seria a minha falta de confiança? Aquela sensação de que um texto nunca está bom o suficiente, de que sua trama é patética e clichê. Ando bebendo de tantas fontes que, às vezes, me esqueço de beber de mim mesmo. O que eu realmente sinto, penso, vivo, vejo, digo, escuto. A ficção tem essa capacidade de fazer sua realidade parecer idiótica. Nossos atos heroicos, sacrifícios diários, aventuras, conflitos, emoções, dramas, não se comparam aos de nossos personagens favoritos. Viver deveria parecer mais interessante. Deve ser por isso que eu adoro passar o dia ao lado de um bom livro, assistindo um filme de terror, seriados de drama do que comigo mesmo. Chega a ser assustador como estamos sempre em fuga. Aprecio o silêncio. Enquanto ao ler um texto sei para onde estou sendo levado, mesmo sem saber exatamente o que vou encontrar no caminho, prefiro isto a ficar preso nas teias da internet, onde me sinto como um inseto preso, esperando por um predador me devorar. Ficamos horas e horas em frente ao computador, muitas vezes sem fazer nada produtivo. Não sei dizer o quanto disso é benéfico. Diferente de um refúgio seguro, uma viagem com destino certo, a cada clique viajo para tantos lugares ao mesmo tempo, que já não sei dizer onde eu estou. Gosto da liberdade, mas também sinto falta das estruturas. E é na brincadeira de não escrever que eu acabo escrevendo. Talvez o que eu precise mesmo é de uma desintoxicação virtual. Deixar as palavras escorrerem pelos meu dedos, pularem pela minha garganta, dançarem no meu cérebro, entreterem os meus olhos. Tantas ações são sugeridas a todo instante que não sabemos por onde começar, como prosseguir e a hora certa de terminar. Estamos tão aficionados por este admirável mundo novo que não nos importamos com a nossa dependência. Poderia estar escrevendo um conto, mas estou pensando em explicações para os meus bloqueios e distrações. Eu poderia culpar qualquer um, qualquer causa, mas sou o único que pode guiar a minha jornada. Ah, as letras, elas escorrem dentro de mim como um veneno, paralisando o meu coração até que eu as consiga vomitá-las. O cursor continua pulando na tela, ao mesmo tempo em que odeia, ele se diverte com a atenção recebida. Para desbloquear meus pensamentos ainda vale a pena sentir a folha na minha mão e apertar a caneta. Mesmo quando estou cercado por ruídos, o simples ato de manchar o papel com a tinta me transporta para o meu mundo particular, onde não sou tão inútil quanto pareço ser e dou vida para personagens e realidades, mostrando um pouco do que não é possível enxergar por fora, mas está lá, nas minhas entranhas, pedindo por uma oportunidade de respirar e levar minha sinfonia para outras pessoas. Só mais um texto sem sentido, alguém poderia pensar. É neste desencontro que eu me encontro.

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