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Destaques

Imprevisível

Era antes de dormir que vinha a vontade de escrever. Tudo parecia estar dominado pelo sol, mas a qualquer momento tudo pode mudar em Campo Grande (MS). Tudo o que posso fazer é torcer para que não haja outros prejuízos e pessoas machucadas pela tempestade. Tudo indica que venha vento, mas por enquanto nada é 100% certo. Era na ventania que percebia o humor mudar. E se lembrava da importância da calma. Uma crise precisava ter mais do que alguns ventos para ser chamada assim. Ia deitar consciente de que não queria chuva, mas que poderia acontecer. Que o sol estava ajudando na regulação do humor, mas que era mais difícil quando tudo era imprevisível. Escrevia para se despedir do sol. Para lembrar que embora houvesse risco, não necessariamente significava que iria acontecer. E de todo modo, com os alertas feitos pelos jornais de Campo Grande (MS), que as pessoas saberiam o que fazer. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escrita Maldita , p ublicad...

Ler, Procrastinar e Escrever

Termino uma xícara de café, seguro o livro e prometo que vou começar a escrever logo. Sinto uma vontade irresistível de interromper a minha leitura somente quando estiver lendo a última frase. A palavra grita em minha mente: procrastinação.

O meu ciclo se repete diariamente. Preciso de livros e café, muito café. Abro o manuscrito, um romance que estou escrevendo há meses e por mais que eu saiba como sua história vai terminar, é como se os personagens tivessem ganhado vida própria. Tenho o começo e o fim, porém é como se eu estivesse preso dentro da narrativa.

Prometi que logo escreveria, eu sei, mas minhas ações se repetem novamente. Desço as escadas, esquento a água e preparo um café. Enquanto eu adoço o líquido escuro, folheio as páginas do livro. Sinto-me amaldiçoado, por esta palavra tão pouco usada, porém que define o que todos nós fazemos sempre – procrastinar, deixar para depois, enrolar para começar algo. Já não preciso mais de dicionário para reconhecer o seu significado, o verbo tornou-se constante na minha vida.

Sento ao lado do meu computador e o deixo me esperando, como uma criança desobediente cumprindo o seu castigo. Retorno às páginas do livro e não consigo parar de pensar no quanto é irônico ler sobre técnicas para desenvolver a imaginação, evitar os bloqueios criativos e expressar ideias, quando esta leitura está me segurando.

Desisto de lutar contra a minha própria mente. Quando ela se render, talvez será a hora de deixar minhas mãos guiarem os meus pensamentos e fazer a mágica acontecer. A tela em branco será preenchida pelas palavras. Enquanto estou aprisionado pelas teias, procuro alimentar o meu cérebro e quem sabe da sua digestão ou indigestão surjam novas ideias.

Sei que no outro dia tudo vai se repetir. É tudo igual e tudo diferente ao mesmo tempo. Ainda estou aprendendo a me domar. Café e livros estão garantidos. Mais escrita, por favor, peço ao meu subconsciente gentilmente.

Mesmo sendo submisso à escrita, prefiro construir uma relação de amizade e respeito com as letras a ter que obrigá-las a me amarem e temerem. Sou criador e refém das minhas histórias. Ou talvez tenha encontrado uma nova maneira de procrastinar, mais uma ação para aumentar o meu ciclo, escrever sobre não conseguir escrever, para não ficar sem escrever.

*Ben Oliveira

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