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Destaques

Imprevisível

Era antes de dormir que vinha a vontade de escrever. Tudo parecia estar dominado pelo sol, mas a qualquer momento tudo pode mudar em Campo Grande (MS). Tudo o que posso fazer é torcer para que não haja outros prejuízos e pessoas machucadas pela tempestade. Tudo indica que venha vento, mas por enquanto nada é 100% certo. Era na ventania que percebia o humor mudar. E se lembrava da importância da calma. Uma crise precisava ter mais do que alguns ventos para ser chamada assim. Ia deitar consciente de que não queria chuva, mas que poderia acontecer. Que o sol estava ajudando na regulação do humor, mas que era mais difícil quando tudo era imprevisível. Escrevia para se despedir do sol. Para lembrar que embora houvesse risco, não necessariamente significava que iria acontecer. E de todo modo, com os alertas feitos pelos jornais de Campo Grande (MS), que as pessoas saberiam o que fazer. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escrita Maldita , p ublicad...

A Viagem da Escrita

Esta é a primeira vez que eu faço isto. Estou sozinho, sentado no banco de um parque, cercado pelas árvores e aves, em frente a uma lagoa.

Escrever é como viajar. Para aproveitar ao máximo sua viagem é preciso se desconectar. Ficar longe do celular, do computador e tudo mais que possa te distrair de viver o agora. Estar presente inteiro, sem se fragmentar e prender a tantas atividades.

A viagem começa antes de colocar o pé na estrada. Estou com uma caneta e um caderninho, mas poderia estar sem nenhum instrumento. Aliás, carregamos nossa melhor ferramenta, não importa aonde vamos, nosso cérebro está sempre ligado e registrando tudo o que acontece, seja a nível consciente ou subconsciente.

Embora eu deseje que o mundo pare por um instante, tudo ao meu redor continua em movimento. Talvez esse seja um dos principais erros das pessoas, esperar que os outros parem só porque elas gostariam. A natureza gentilmente mostra que a vida é ininterrupta, como um mercado 24 horas, às vezes com mais movimento, às vezes com menos, mas nunca parado.

Levanto-me do banco. As formigas decidem dançar sobre a minha pele. Mesmo sem sentir os seus movimentos, estes insetos também querem deixar suas marcas – quem é que não quer? Desde o momento em que nascemos estamos deixando nossas pegadas e impressões por onde passamos. Saio da minha zona de conforto, um banco na sombra e ando sob o sol forte até encontrar outro lugar aconchegante.

Sou um estrangeiro neste parque, e como bom hóspede, eu não posso reclamar daqueles que estão aqui há mais tempo. Embora nós, humanos, usamos o local para socializar e realizar inúmeras atividades, somos e sempre seremos meros visitantes.

Não adianta tentar fugir, os pássaros e as formigas estão em todo lugar. Está tão quente que até mesmo as capivaras estão se protegendo do sol. Como eu disse, a vida é dinâmica, enquanto um casal está sentado em um banco a alguns metros de onde eu estou, um homem está correndo pelo parque. Solidão e paixão dividem o mesmo espaço, como os homens e os bichos.

Não me atrevo a tentar adivinhar quanto tempo se passou desde que cheguei aqui. À medida que minha mente se movimenta com ideias e minhas mãos lançam palavras no papel, o sol tira uma folga e o vento refresca minha pele, que libera um perfume agradável aos pernilongos.

Tudo muda o tempo todo. O casal que estava se beijando e trocando carícias agora está brigando, o homem que corria agora está parado. O jovem e a moça soltam uma gargalhada e se beijam novamente, como na brincadeira da cadeira em que cada um se levanta e anda ao redor delas enquanto a música toca, se sentando somente quando o som para, chegou a minha vez de circular de novo.

Vou até uma torneira. A água quente cede espaço para a água fria, assim como o ar entra e sai dos meus pulmões, tudo é tão dinâmico. Ando alguns minutos até chegar ao banco próximo a uma queda d’água. Gosto do som da água sendo puxada para baixo e caindo com força. A vida aqui é tão natural e relaxante, diferente da correria do dia-a-dia, das obrigações, estresse e compromissos.

Se escrever é viajar, todos deveriam tirar um dia para mergulharem dentro de si mesmos. Se a viagem for boa, você levará horas e dias pensando nela, se não for o que você esperava, ao menos por alguns minutos sua mente, sua alma e seu corpo terão descansados.

Fecho os olho e me concentro no som da água caindo. Sinto meu corpo sendo lavado e todos os meus pensamentos se soltando de mim, alguns ficaram no parque, outros foram para a página deste caderno. Sinto-me mais leve, mais líquido, mais forte.

Olho para o céu e caminho até a saída do parque. Não estou nem meio cheio nem meio vazio, estou inteiro.

*Texto: Ben Oliveira

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