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Destaques

Imprevisível

Era antes de dormir que vinha a vontade de escrever. Tudo parecia estar dominado pelo sol, mas a qualquer momento tudo pode mudar em Campo Grande (MS). Tudo o que posso fazer é torcer para que não haja outros prejuízos e pessoas machucadas pela tempestade. Tudo indica que venha vento, mas por enquanto nada é 100% certo. Era na ventania que percebia o humor mudar. E se lembrava da importância da calma. Uma crise precisava ter mais do que alguns ventos para ser chamada assim. Ia deitar consciente de que não queria chuva, mas que poderia acontecer. Que o sol estava ajudando na regulação do humor, mas que era mais difícil quando tudo era imprevisível. Escrevia para se despedir do sol. Para lembrar que embora houvesse risco, não necessariamente significava que iria acontecer. E de todo modo, com os alertas feitos pelos jornais de Campo Grande (MS), que as pessoas saberiam o que fazer. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escrita Maldita , p ublicad...

Fragmentos de Mim

Há dias em que me sinto quebrado e preciso de um tempo sozinho para me recuperar. Sinto como se eu estivesse sendo puxado para diferentes direções, só restando fragmentos de mim.

Quando me sinto despedaçado, é como se eu estivesse fora de mim. Sabe quando dizem que é preciso fazer as coisas de corpo e alma? Sinto com a minha mente, o meu corpo e a minha alma estivessem em diferentes dimensões.

Com esta falta de equilíbrio, tudo parece pela metade. É preciso coragem para enfrentar meus demônios sozinho. Me isolo do mundo e tento me segurar nas paredes para não cair em um poço escuro, onde posso me afogar nos meus próprios pensamentos.

Se estou distante? Estou. Aliás, partes de mim estão longe, enquanto meu núcleo espera pacientemente os seus retornos. Tento manter a calma, respirar, fazer uma coisa de cada vez e deixar que os diferentes fragmentos se encaixem. Sou como um quebra-cabeça.

Esse excesso de informações e de mundos virtuais acabam com minha falha estrutura. Me falta resiliência para voltar ao normal depois de cada jornada para mundos desconhecidos. Porém, é como se a cada viagem, da mesma forma que eu leve um pedaço da aventura para casa e revivo aquela experiência, parte de mim também ficasse por esses lugares. A troca é obrigatória.

Nessa troca de pedaços, vou morrendo, adoecendo e adicionando novos fragmentos à minha própria história. Quem eu fui há um dia, já não é quem eu sou hoje.

Como um mutante, meus pedaços misturados aos fragmentos de outras pessoas, outras vivências, outras leituras, outras jornadas, me transformam a todo instante. Há quem prefira ser igual a vida toda e fuja da inevitável mudança. É impossível permanecer estático. Aceito meu destino com dor e glória. Cada pedaço deixado para trás dá lugar a um novo eu.

Os pensamentos se confundem, a cabeça dói, o corpo cansa e a alma sente. Basta uma noite de sono para tudo voltar ao seu respectivo lugar e quem sabe nos sonhos, eu me lembre o que perdi ou ganhei.

Apago as luzes, fecho os olhos e tento não pensar em nada. Escureço a memória, adormeço os pensamentos e esvazio a mente. É no outro dia em que eu vejo tudo se repetindo. Estou inteiro, corpo, mente e alma reunidos em um só lugar.

Quando me levanto, vejo fragmentos de mim na cama, uma mancha de quem eu costumava ser em todos os cantos do quarto, da vida, do mundo. Assopro meus livros e vejo mais pedaços de mim se espalhando pelo ar.

Começo uma nova leitura, escrevo um novo texto. Sou paradoxal, completo e incompleto, inteiro e fragmentado. Gosto de ser assim, de sempre viver, conhecer coisas novas, me transformar, morrer, renascer e distribuir por aí fragmentos de mim.

*Ben Oliveira, blogueiro e escritor

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