sexta-feira, 11 de julho de 2014

Resenha: Madame Bovary – Gustave Flaubert

O que dizer de Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert? Esta semana li a obra considerada um clássico da literatura, publicada em 1857, que causou um escândalo na época com sua trama. A edição que eu li foi a publicada em 2003, pela Editora Nova Cultural, traduzida por Enrico Corvisieri, de 414 páginas. Especifiquei o meu exemplar, pois ao longo dos anos a obra foi publicada várias vezes, por diferentes editoras, traduzida por diferentes autores. Atualmente, é possível encontrar eBooks gratuitos de livros clássicos para download, disponíveis para domínio público (não é pirataria!).

É difícil resenhar um clássico, não por ter sido difícil compreendê-lo, mas por causa da pressão de saber que é um livro que já foi lido por milhões de pessoas do mundo todo e pela questão da subjetividade. Porém, vou tentar passar um pouco das minhas impressões ao ler Madame Bovary.

O romance está dividido em três partes, sendo as duas últimas as mais marcantes. No início do livro, a impressão que se tem é a de que o protagonista é Carlos Bovary (versão aportuguesada de Charles Bovary), pois mesmo sendo um personagem sem sal, o leitor acompanha sua vida desinteressante, desde o primeiro até o último capítulo do livro. No entanto, a partir do momento que Ema (versão aportuguesada de Emma) entra em cena e se casa com o Sr. Bovary, após sua primeira esposa que ele nem mesmo gostava tanto falecer, ela vai ganhando mais peso na história e brilha tanto e tanto que sempre está prestes a explodir. Assim é sua personalidade, sempre indo nos extremos, feliz demais ou triste demais.

“Antes do casamento, havia pensado que sentia amor; contudo, como a felicidade resultante desse amor não surgia, com certeza tinha se enganado, pensava ela. E buscava saber qual era, afinal, o significado correto, nesta vida, das palavras “felicidade”, “paixão” e “arrebatamento”, que nos livros pareciam tão bonitas”. 

De um casamento fracassado para outro mais fracassado ainda. Assim é a história de vida de Carlos Bovary, embora ele esteja tão cego de amor por Ema que não percebe a real fonte de infelicidade da mulher. A protagonista possui muitos conflitos internos e deseja se ver livre do marido e encontrar o amor em outro homem, além de outras idealizações que ela busca, como uma vida cheia de glamour. Ema Bovary tem uma personalidade cheia de paradoxos (literalmente, uma personagem tridimensional) o que a torna tão interessante.

Para quem nunca tinha ouvido falar no livro, Madame Bovary tem como tema o adultério, além de estar recheado de críticas à sociedade da época. Sua obra tem um tom realista e traz um retrato fiel dos anos em que foi escrito, sem hipocrisias. Ao ler, fiquei me perguntando se Ema teria sido só um personagem, aliás, mesmo tendo sido escrita há mais de 150 anos, alguns conflitos universais nela permanecem atuais, fazendo com o que leitor se identifique independente da época em que o livro seja lido. No período em que foi lançado o romance, para reagir à polêmica, Flaubert que foi levado a julgamento respondeu: “Madame Bovary sou eu!”. Se nos dias atuais as pessoas não lidam bem com a questão do adultério e da infelicidade no casamento, imagine só como foi forte a pressão sofrida pelo escritor.

“Um homem não devia, ao contrário, primar em múltiplas atividades, saber iniciar uma mulher nos embates da paixão, nos requintes da vida, enfim, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava, nada sabia, nada desejava. Supunha-a feliz; e ela não lhe podia perdoar aquela tranquilidade tão bem assente, aquela gravidade serena, nem a própria felicidade que ele lhe dava”. 

Se você gosta de psicologia, psicanálise, sem dúvidas, vai achar Ema Bovary tão fascinante quanto eu achei. O que é tão impressionante na protagonista não são suas qualidades físicas, como sua aparência bela e seu jeito encantador, mas suas contradições (esferas psicológica e social): ela estudava em um convento, antes de conhecer Carlos e se casarem. Após o casamento, Ema tem uma filha, porém continua se sentindo vazia, como se algo estivesse faltando em sua vida. A culpa desta infelicidade, segundo a sogra, era dos romances que Ema lia e da ociosidade. Outro conflito constante entre as duas mulheres era o excesso de gastos de Ema com roupas e objetos para sua casa.

Gustave Flaubert, escritor francês, autor
do romance clássico Madame Bovary.
Quando Ema conhece o jovem Leon, ela se sente atraída pela beleza dele e sua bagagem cultural. Os dois sonham com Paris, gostam de conversar sobre livros e novidades. A atração é evidente entre os dois, embora Carlos não perceba. A partir do momento em que Ema e Leon se conhecem, fica claro que eles têm muitas afinidades e uma química forte, diferente do que ela sente pelo marido. O Sr. Bovary parece mais um fardo, uma cruz que Ema precisa carregar. Mesmo ele sendo médico e proporcionando uma vida boa para ela, sem deixar faltar nada material do que ela deseja ou precisa, Ema quer algo que o homem jamais poderá oferecê-la, um amor romântico e avassalador, em um lugar glamoroso e interessante, como aqueles encontrados nos livros de romance.

Ema deseja Leon, no entanto seu único empecilho não é o marido – o jovem escriturário acaba se mudando de cidade em busca de um emprego melhor. Meses se passam, e a mulher tem várias crises de histerias e depressão, marcada por desmaios, falta de vontade de se alimentar, incapacidade de se sentir satisfeita com o marido ou querer tocá-lo, pois o achava repulsivo, desconexão com a própria filha. Ela sofre por não ter a ilusão que tanto deseja, aliás, nesta parte é impossível não se identificar ou identificar as pessoas ao nosso redor – quantas pessoas não passam uma vida toda atrás de algo que sabem que é efêmero e tem suas falhas como tudo, como uma paixão eterna, um relacionamento amoroso perfeito ou imaginam que se mudar para um lugar descolado ou comprar mercadorias de marca preencherão o vácuo de sua existência e farão os seus problemas desaparecerem? Outra questão marcante na personalidade de Emma Bovary é como ela se sente limitada, presa, subtraída por ser mulher e não ter a mesma liberdade que um homem tinha – mais uma vez, pode-se levar em conta a utopia da liberdade: “Será que realmente somos livres? O que é liberdade?”. Essa falta de atenção à filha se deve ao fato de que Ema gostaria de ter tido um filho, para que ele tivesse a possibilidade de fazer as coisas que ela nunca pôde por ser mulher.

“Finalmente iria possuir as alegrias do amor, a febre da felicidade, de que já desesperara. Entrava em algo de maravilhoso onde tudo era paixão, êxtase, delírio”.

De volta ao enredo de Madame Bovary, as crises de Ema começam a melhorar quando ela conhece Rodolfo (versão aportuguesada de Rodolphe Boulanger). Ele parece ser tudo o que ela precisava para se sentir completa, amada, realizada. Não é possível saber até que ponto as palavras de Rodolfo são a lábia dele ou são fruto da imaginação de Ema, pois ele diz coisas românticas para ela, mas nem sempre suas atitudes condizem com suas palavras. Rodolfo parece ser o típico canalha, que sabe como dizer o que uma mulher deseja escutar para se sentir feliz e se aproveita, até que se cansa do sentimentalismo. Ele era o amante, e nada mais queria além disso, enquanto na cabeça de Emma, ela se imaginava fugindo com ele, vivendo juntos em Paris ou qualquer outro lugar, longe daquele vilarejo, do marido. O homem pergunta da filha, se ela teria coragem de abandoná-la, uma ação onde ele evidencia sua insatisfação de jogar tudo para o ar e fugir com Emma, não pela preocupação com a criança. Ela responde que levaria a criança também.

A cegueira de Charles Bovary não se deve ao seu egocentrismo, mas ao amor que ela sente pela mulher. Na imaginação dele, Emma tem crises por causa de doenças misteriosas, ele nunca questiona sua fidelidade e casamento. Charles é tão estúpido e ingênuo, que o leitor não sabe se sente pena dele ou torce para que Emma vá atrás dos seus sonhos com um amante. Então, quando Ema prepara tudo para fugir com Rodolfo, sem que o marido tenha ideia do que ela está planejando, embora o resto da cidade já esteja desconfiado dos encontros dela com o outro homem, o previsível acontece: Rodolfo volta atrás, envia uma carta para ela e desaparece.

“Estava desesperado. O que mais o assustava era a prostração de Ema: ela não falava, não ouvia coisa alguma e parecia até não sofrer, como se o corpo e a alma repousassem juntos de todas as suas agitações”.

O vazio está de volta. Ema passa por mais crises, e fica tão abatida e branca quanto uma “estátua de cera”. Ela fica tão triste que passa a ficar sem falar, sem comer, sem querer fazer nada. Alguém sugere que Carlos Bovary leve a mulher ao teatro e ele gosta da ideia. Primeiro, ela nega, de má vontade, depois Ema concorda. Ela se maravilha com o espetáculo quando vê que se trata de um homem romântico e apaixonado. Quando a peça está no intervalo, Leon encontra o casal lá e ela começa a sentir viva novamente, a ponto de saírem do espetáculo antes de acabar. No outro dia, Carlos volta à cidade e Ema fica num hotel, pois tinha combinado de assistir a apresentação novamente. Eles se encontram, todavia ainda não têm coragem de cometer, até o próximo dia, onde ele pede para que Ema ainda não vá embora.
A melancolia de Emma melhora, e consequentemente ela passa a tratar melhor o marido e a filha. Emma inventa uma série de desculpas para se encontrar escondida com Leon, como aula de piano, além de continuar comprando várias coisas.

Ilustração de Alfred de Richemont (1857-1911) - Gustave Flaubert, Madame Bovary.
Paris: Ferroud, 1905

Na terceira parte do livro, Ema vê suas ilusões sendo destruídas diante dos seus olhos. Ela está endividada e pede ao marido e a sogra dinheiro emprestado para pagar suas contas. Emma consegue pagar algumas, porém ao perceberem sua fragilidade, as pessoas começam a se aproveitar dos segredos dela, da infidelidade. A dívida cresce tanto que após pedir a ajuda de Leon e não ter um retorno, ela volta para casa e descobre que está falida e sua casa e móveis serão vendidos para pagar.

Em desespero, Ema pede a ajuda de vários moradores da cidade. Ela acredita que a qualquer minuto Leon pode aparecer e dizer que conseguiu o dinheiro que ela tanto precisava, mas não é o que acontece. Desiludida, porém não o suficiente para arranjar mais um amante, ela nega o pedido de um empresário da cidade. Sem saber o que fazer, ela percebe que Rodolfo está na cidade e vai atrás dele. Ele responde que não tem o dinheiro para ajudá-la.

Enquanto Carlos está chorando, sem saber o que fazer para salvar a sua casa e preocupado com o sumiço de Ema, ela decide encontrar uma maneira de resolver os seus problemas. Escondida, ela entra na loja do farmacêutico e pede para que o assistente não diga nada, quando ela engole arsênico. Ela consegue chegar a sua própria casa a tempo de escrever uma carta e entregá-la ao marido, pedindo para que ele só abra quando ela não estiver mais lá. Então, vários médicos entram lá, mas já está tarde demais para salvá-la. Emma morre de envenenamento.

A tragédia leva o leitor a refletir sobre a infelicidade de Emma e a cegueira de Charles. “E os amantes?”, você pergunta. Imagina-se que ao menos Leon sofreria pela morte da mulher. Os homens não vão ao enterro dela, e o final não é feliz para Emma, seja lá onde ela estivesse assistindo tudo aquilo. Leon manda um convite de casamento para o homem, Rodolfo continua o mesmo canalha e Carlos descobre as cartas dos amantes. Um final triste, porém realista.
Ilustração de Alfred de Richemont (1857-1911) - Gustave Flaubert,
Madame Bovary. Paris: Ferroud, 1905

Bom, mesmo tendo contado os fatos principais da história, pelo menos para mim, acredito que quem ainda não leu Madame Bovary, precisa ler já – não só porque é um clássico da literatura, mas porque pode nos fazer refletir sobre a própria vida. Por exemplo, na mente de Emma, se ela morresse os amantes também sofreriam. Não foi o que aconteceu. Eles parecem não ter dado à mínima. Por quem ela mais sentia repulsa, o marido Charles Bovary foi quem mais chorou por ela e sofreu por causa de sua morte, a ponto de brigar com a própria mãe por causa dos pertences de Emma que ele não queria abrir mão.

Além dos quatro personagens citados ao longo do texto, há também um deles bem marcante por causa de sua ambição e por ser prolixo, o farmacêutico Homais. Ele é o tipo de pessoa que tenta se fazer de popular, rouba os pacientes do médico Charles Bovary atendendo-os escondido, dirige um jornalzinho na cidade e está sempre metido a discutir questões, como se fosse entendido sobre todos os assuntos, o típico “Sabe Tudo”. Aliás, com a morte de Ema, como Carlos fica devastado, Homais consegue melhorar de vida, a ponto de não deixar os seus filhos brincarem com a filha do Sr. Bovary.

O romance traz uma série de críticas aos costumes da época, que naquele período foram chocantes. Quanto à linguagem do livro, achei bem fácil de entender. Os primeiros capítulos parecem ser bem chatos, mas como dito no texto, assim que Ema surge, o romance parece ganhar vida. Esta possibilidade de mergulhar na história, nos pensamentos e na alma da protagonista provocam transformações, alegrias e sofrimentos ao longo das páginas. Até o final do livro, quando Ema morre, o leitor percebe que algo dentro dele também morreu, – seus sonhos, ilusões e desejos –, porém que não é necessariamente algo ruim, se você ainda está vivo e feliz. Muito do sofrimento de Ema se deve à pressão que as mulheres sentem quando estão casadas e têm filhos, questões que permanecem conflitantes na contemporaneidade e discutidas pelo feminismo.

Para finalizar, um trecho que define bem a angústia e depressão de Emma:

“Contudo não era feliz, nunca o havia sido. De onde vinha, pois, aquela insuficiência da vida, aquele apodrecimento instantâneo das coisas em que se apoiava?... Nada, afinal, valia a pena procurar-se; tudo mentia! Cada sorriso ocultava um bocejo de enfado, cada alegria uma maldição, todo o prazer o seu desgosto, e os melhores de todos os beijos não deixavam nos lábios senão uma irrealizável ânsia de voluptuosidades mais intensas”.

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