quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Resenha: Rani e o Sino da Divisão – Jim Anotsu

Minha leitura da semana foi o livro Rani e o Sino da Divisão, do autor Jim Anotsu, publicado em 2014, pela Editora Gutenberg – editora parceira do Blog do Ben Oliveira que me enviou o livro para resenhar. A obra de ficção de literatura juvenil é caracterizada como fantasia urbana e contém elementos interessantes e referências literárias, musicais e da cultura pop.

Antes de tudo, preciso dizer o quanto fiquei feliz em saber que o autor Jim Anotsu é brasileiro. Ainda não o conhecia e fiquei curioso para ler os outros livros dele. Voltando à narrativa, a protagonista do livro se chama Rani, uma adolescente que mora em Graúna, uma cidade pequena e descrita pela personagem-narradora da seguinte maneira: “Você não gostaria de ir lá visitar, e a última pessoa a fazer isso chegou lá por engano”. Logo de cara, através das descrições do município e da personagem principal, a obra literária já começa a estabelecer alguns vínculos com leitores. Afinal, quem é que nunca morou em um lugar que acha desinteressante? Quem nunca passou por aquela fase da adolescência em que se sente diferente dos outros jovens?

“Acho que gosto de música porque ela é uma coisa simples com início, meio e fim bem definidos, algo que posso controlar e delimitar enquanto as coisas de verdade rodopiam e batem por aí”.

A história do livro Rani e o Sino da Divisão é narrada em primeira pessoa por Rani, logo o leitor vivencia as páginas através do ponto de vista da heroína. A adolescente é apaixonada por punk death metal estuda em um colégio estadual, onde ela e sua melhor amiga Marina se sentem deslocadas do resto dos alunos – aliás, do resto da cidade também –, até que elas conhecem Pietro e seus colegas da facção Animais de Festa e a vida delas que costumava ser bem comum, naquela cidade desértica, ganha contornos fantásticos.

Rani não é só diferente das outras garotas e garotos de Graúna por causa de seu estilo de vida e seus gostos musicais. Logo nos primeiros capítulos, o leitor descobre que ela é uma xamã que vai desempenhar um grande papel ao longo do livro. Ela não é a única criatura fantástica, com exceção de sua melhor amiga Marina, uma humana (denominação de gentio, dada pelos seres sobrenaturais), Rani faz amizade com os vampiros Pietro e Valentina, o lobisomem e cientista Fred e o demônio Tales, este último filho de Lúcifer – fato que me fez morrer de rir e imaginar a cara de quem pudesse levar muito a sério a história, como aconteceu nos Estados Unidos, onde acusaram os feitiços de Harry Potter serem de verdade e influenciarem os comportamentos dos jovens.

Tudo começou em um cemitério na primeira vez em que Rani e Pietro se encontraram, o garoto que usava roupas coloridas e impressionou a garota desde o primeiro instante. Para quem gosta de fantasia, Jim Anotsu faz um mix bem gostoso no livro. A protagonista é tão bem desenvolvida, que o autor consegue surpreender os leitores com sua linguagem criada, eu diria um tanto pós-moderna.

“Aquele breve encontro foi o gatilho de tudo o que viria a acontecer, embora eu não soubesse disso ainda. O ano em que todas as coisas ficaram realmente interessantes. O ano em que tudo deu errado. O ano em que conversei com um imperador. O ano em que entrei em um buraco negro. O ano em que tudo tremeu e cambaleou. Sim. No cemitério da cidade menos interessante do mundo. Foi ali que começou a festa”.

Rani e o Sino da Divisão está dividido em três partes, respectivamente: Wenona, Ratamahatta e Ritual. Cada uma dessas partes corresponde à estrutura clássica de histórias e o leitor se vê cada vez mais envolvido e curioso para saber como o livro termina. Desde a descoberta de sua identidade xamã, até uma ameaça que pode colocar o fim em todas as vidas da Terra, Rani e seus amigos se juntam em uma jornada para encontrar uma solução, embarcando em diferentes aventuras, viajando para diferentes mundos, conhecendo personagens que fizeram parte da história e do imaginário, nas quais a heroína aprende mais sobre si mesma e o que precisa fazer para derrotar seu inimigo, nem que para isso seja preciso deixar de lado o bem-estar individual.

Apesar do romance de fantasia ser estruturado de uma forma conhecida por muitos leitores de obras do mesmo gênero, Jim Anotsu consegue convencer com a linguagem da narradora e de seu universo de fantasia: Cada capítulo traz o trecho de uma música que a protagonista gosta; Ao longo do livro estão escritas algumas anotações explicativas, ajudando a contextualizar melhor algumas informações; A narradora também compartilha algumas listas, como discos favoritos, coisas que gostaria de fazer, além de informativos da facção Animais de Festa, proporcionando algumas quebras na estrutura do romance. As inúmeras referências literárias, musicais e culturais utilizadas em Rani e o Sino da Divisão são um prato cheio para quem tem gostos parecidos com os da personagem principal, e para quem ainda não conhece, são incentivos para que procure algum livro ou música com o qual tenha se identificado ou ficado curioso.

Jim Anotsu é mais uma prova de que a literatura nacional pode ser desenvolvida e pode fazer tanto sucesso entre os leitores quanto os livros internacionais que são traduzidos e ocupam maior parte do espaço nas livrarias. Basta pesquisar um pouco, para ver que a aposta da Editora Gutenberg no autor foi um bom investimento, devido ao seu sucesso entre os jovens leitores e as reações emocionais provocadas durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O Brasil tem bons escritores! E me enche de alegria ao ver que algumas editoras estão valorizando mais nossos autores nacionais, principalmente de Literatura Fantástica, temática na qual já temos alguns exemplos de escritores brasileiros bem-sucedidos que estão conseguindo sobreviver de suas escritas.

“Era como saltar de um prédio e voar, pisar descalça na areia quente, pular em poças em um dia de chuva e correr morro abaixo. Havia um ritmo cadenciado naquela maré que me engolia, nas sereias que mergulhavam na água em movimento que era meu corpo inteiro, naquela canção de mim mesma”.

Enquanto alguns escritores se lamentam pela falta de espaço nas grandes editoras (o debate eterno do universo editorial: literatura arte e literatura comercial), outros vão conquistando o seu lugar ao sol e desenvolvendo seus estilos que vão agradando aos leitores. Rani e o Sino da Divisão é um livro juvenil que consegue equilibrar o entretenimento e ao mesmo tempo despertar a vontade de ler mais e buscar mais conhecimentos sobre a vida. Eu que não faço parte do público-alvo (tenho 25 anos na cara), por exemplo, fiquei curioso para conhecer algumas das referências citadas. É a literatura que não fica só nas páginas do livro, transforma o leitor e o incentiva a se tornar o protagonista de sua própria história, lidando com as adversidades e acreditando que mesmo diante dos inúmeros problemas, o importante é não desistir.

Ficou curioso? Prepare-se para embarcar num universo não só com criaturas fantásticas, mas também repletas de elementos da ficção científica, como dinossauros, invenções que misturam ciência e magia, entre outras que prefiro não comentar para não estragar a surpresa de nenhum leitor!

Sobre o autor – Jim Anotsu é escritor e tradutor que cursou Literatura Inglesa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estado onde ele nasceu, em 1988. Foi colaborador do site de contos Quotidianos e já teve dois livros publicados, Annabel & Sarah (2010) e A Morte é legal (2012), ambos pela editora Draco. Mora em Belo Horizonte (MG), não come cebolas, ouve música estranha e conversa com gente esquisita. Há boatos de que ele rascunha suas histórias em folhas de couve, às vezes até de alface, mas é tudo especulação.

Rani e o Sino da Divisão (Jim Anotsu) pode ser encontrado no site da Editora Gutenberg!

PS: Agradeço ao PavaBLOGS (Grupo Editorial Autêntica) pela oportunidade de ler e resenhar Rani e o Sino da Divisão para o blog! Quando a leitura é prazerosa, a resenha também é gostosa de escrever. Lembrando aos leitores: O fato de eu comprar um livro ou recebê-lo de editora parceira ou autor parceiro não influencia na minha opinião.

2 comentários:

  1. "[...] não come cebolas, ouve música estranha e conversa com gente esquisita. Há boatos de que ele rascunha suas histórias em folhas de couve, às vezes até de alface, mas é tudo especulação." HAHAHA, simpatizei com o livro e com o autor! Achei a capa linda e amei a ideia do livro, já sinto um certo orgulho pela obra ser brasileira! Com certeza está na lista dos próximos livros que vou comprar.

    Abraços,
    www.a-book-devourer.blogspot.com

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  2. Olá, Letícia! Fico muito feliz que você tenha se interessado. Precisamos valorizar a literatura nacional, para que as editoras continuem investindo na publicação de escritores brasileiros.
    Aproveita que o livro está em promoção em algumas livrarias!
    A capa é realmente muito linda :D

    Abraços

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