domingo, 11 de janeiro de 2015

Resenha: Um Lugar para Todos – Thrity Umrigar

Quando vi o livro Um Lugar para Todos (Bombay Time), da escritora e jornalista indiana Thrity Umrigar, não pude deixar de comprar. O romance estava sendo vendido em um sebo por apenas 10 reais! Pode imaginar minha alegria? Escrito em 2001, a obra foi publicada em 2008 no Brasil, pela Editora Nova Fronteira, com tradução de Regina Lyra.

Fiquei interessado na leitura de Um Lugar para Todos, pois já havia lido outro romance indiano da autora, A Distância Entre Nós e havia gostado muito! O que me encanta na escrita de Thrity Umrigar é a sua dose de realismo, mostrando seus personagens e conflitos, as influências culturais em suas vidas e, ao mesmo tempo, proporcionar ao leitor uma torrente de emoções e reflexões com sua sensibilidade.

Não gostei muito da tradução do título (perde um pouco a força de Bombay Time, que não só aborda o nome da cidade onde a história se passa, mas tira a força do trocadilho feito pela autora e bem contextualizado em determinado momento da narrativa). Para quem pouco se importa com a capa ou título, vamos direto ao que importa: o conteúdo.

Um Lugar para Todos é o primeiro romance de Thrity Umrigar. E para ser sincero, mesmo sem ter lido esta informação na orelha do livro, foi esta a sensação que eu tive. A Distância entre Nós tem mais densidade e se aprofunda melhor nos personagens, enquanto em Bombay Time é possível sentir a forte influência do jornalismo na escrita da autora. Cada capítulo do livro gira ao redor do ponto de vista de um dos personagens que em alguns momentos se encontram no presente e em flashbacks, possibilitando uma visão plural.

O elemento que une todos os personagens do livro é o Edifício Wadia, um prédio onde todos eles moram ou já moraram um dia. A leveza e concisão da escrita de Thrity Umrigar tornam a narrativa fluída, deliciosa de ler. Mesmo com algumas expressões em hindi (língua falada pela maioria dos indianos) não traduzidas (nem mesmo num glossário ou notas de rodapé), o leitor não tem dificuldade de seguir em frente, possibilitando sua compreensão (ainda que sem ter 100% certeza de seu significado) através da contextualização.

A realização de um casamento reúne os principais personagens da história. Ao desenrolar de cada um dos capítulos, o leitor viaja pelos seus passados e presentes. Esta quebra da narrativa linear torna a leitura mais prazerosa, ajuda na familiarização com os personagens e entender as transformações dos indivíduos e do lugar que ocorreram ao longo dos anos. Embora algumas tradições permaneçam (mesmo que de forma sutil), os contrastes sociais ainda são muito fortes.

As divisões em castas, a maneira que a mulher é tratada (desde a exploração sexual até ao julgamento pelo modo de se vestir e comportar), os casamentos arranjados entre famílias, a miséria, as repressões, a influência da religião e o ciclo da violência. A riqueza de detalhamento dos personagens com suas qualidades e defeitos e a maneira que a história foi bem contada dão a impressão de que não é um livro de ficção, mas um livro-reportagem, como se tratassem de pessoas de carne, osso e alma.

Algumas das histórias são de cortar o coração, enquanto outras arrancam sorrisos. Para quem tem mais interessante sobre a cultura indiana, não há como não se envolver com os personagens e aumentar a fome de curiosidade. É interessante notar que a visão do estrangeiro sobre um país e seus cidadãos, muitas vezes, nos faz imaginar que eles estão de acordo com suas tradições e aceitam viver daquele jeito porque eles escolheram isso. Thrity Umrigar mostra que as coisas não são sempre assim, sendo a mudança de país, principalmente Estados Unidos ou Europa, uma das alternativas dos que estão insatisfeitos com o sistema e desejam desfrutar o gostinho da liberdade e de uma realidade diferente (geralmente, que eles só puderam experimentar através da literatura e do cinema).

Nem certo ou errado, o papel da escritora não é o de dizer ao leitor quais conclusões ele deve tirar diante das atitudes dos personagens. O diferente pode causar estranhamento e revolta, e talvez por isto os livros de Thrity Umrigar façam tanto sucesso pelo mundo, junto com a maneira que ela humaniza seus personagens (não são pessoas de papel, mas poderia ser eu ou você, se tivéssemos nascido e morado na Índia).

Thrity Umrigar. Foto: Divulgação.
Em uma Bombaim povoada pela classe média e miseráveis, tradicionalistas e modernos, velhos e crianças, homens e mulheres, Thrity Umrigar emociona não só com a trajetória dos personagens, mas com a escolha adequada das palavras e metáforas. As úlceras pútridas e as sementes da esperança andam lado a lado, de forma que a escritora não teme mostrar o pior e o melhor da realidade de milhares de pessoas, que veem esses ciclos de vida e morte acontecerem diariamente. Recomendo a leitura! E agora estou curioso para ler o livro A doçura do mundo, também escrito por Thrity.

Sobre a autora – Thrity Umrigar é jornalista há quase 20 anos, escreve para o Washington Post, o Plain Dealer, o Boston Globe, além de outros jornais locais. PhD em inglês, leciona redação criativa e literatura na Case Western Reserve University. Além de Um Lugar para todos, é autora dos best-sellers A distância entre nós e A doçura do mundo, publicados pela Nova Fronteira em 2006 e 2008, respectivamente; também escreveu um livro de memórias e outro romance. Ganhou o importante prêmio Neiman Fellowship da Harvard University. Cresceu em Bombaim, na Índia, e atualmente mora em Cleveland, Ohio.

2 comentários:

  1. Fiquei com bastante vontade de ler. Ano passado eu li "A Distância Entre Nós" e realmente é um livro muito bom com grandes doses de realismo. Vou procurar em algum sebo para ver se encontro uma promoção que nem essa que você pegou. Haha

    Abraços.
    eaijl.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Oi, Felipe!
      Fico feliz em saber que você tenha gostado da recomendação. A Distância Entre Nós é muito bom. Tem outro romance ocidental muito bom também, se chama Transgressões, da Uzma Aslam Kahn.
      Se encontrar, compre! Fiquei arrependido de não ter levado o outro livro da Thrity (A Doçura do Mundo). Já quero ler e sei que vai ser difícil achar por aqui.
      Abraços

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