sexta-feira, 22 de maio de 2015

Resenha: Sete Cabeças – Bruno Godoi

O livro Sete Cabeças, de 304 páginas, foi escrito por Bruno Godoi e publicado em 2014, pela Editora Empíreo (Editora parceira do Blog do Ben Oliveira). Para quem gosta de romances policiais e narrativas sobrenaturais, o autor consegue trançar essas temáticas, desenvolvendo duas histórias paralelas: Caso 132 e Frigorífico. O que elas têm em comum? Personagens sombrios, com tramas surpreendentes. Conheça mais sobre a minha leitura da semana!


Sete Cabeças traz duas narrativas, com alguns elementos em comum que fazem parte do estilo e essência do Bruno Godoi nesta obra: a associação de palavras (dá ritmo à narrativa e lembra o método psicanalítico inicialmente proposto por Freud), os Testes de Rorschach (avaliação psicológica por meio de imagens espelhadas de tinta), os Simbolismos que dão tons de mistério e misticismo para as histórias, além das referências às passagens bíblicas.

As narrativas Caso 132 e Frigorífico são contadas de maneira intercalada, sendo que cada uma das duas está dividida em três atos, o que lembra um pouco a estrutura do gênero dramático, no entanto Bruno Godoi desconstrói e reconstrói de acordo com seus propósitos. Há uma forte influência do gênero detetivesco (os dois protagonistas são detetives Anton Levey, em Caso 132, e Eric, em Frigorífico) com outras temáticas, como thriller, terror sobrenatural e suspense. É interessante como o autor usa sua bagagem cultural para deixar suas narrativas originais – embora este conceito seja fortemente discutido dentro do universo literário, sobre o que ainda não teria sido criado um dia.

Ao longo do livro, há todo um zelo do escritor com a linguagem, seja imprimindo o seu estilo, trabalhando o diálogo entre os dois textos (além da intertextualidade com outras referências, algo que pode ser visto como a possibilidade do leitor preencher esses espaços com suas próprias leituras, bagagens cinematográficas e demais formatos de narrativas) e demais elementos textuais que contribuem para a experiência de leitura, como as notas e as epígrafes presentes na abertura de cada ato. A divisão estrutural e o projeto gráfico também tornam a leitura mais prazerosa, possibilitando ao leitor respirar ou acelerar o ritmo. Poderia o leitor ler primeiro um texto e depois o outro? Claro! Acredito, no entanto, que o que aumenta a tensão e o suspense, é este intervalo entre uma leitura e outra.

Caso 132 conta a história do detetive Anton Levey. Desde as primeiras linhas, o leitor já pressente que algo sombrio irá acontecer.  Bruno Godoi intercala o ritmo rápido, com as palavras precisas e cortantes, com as angustiantes descrições que nos prendem à narrativa, literalmente – por meio dos seus ganchos no final de cada cena, mantém-se do início ao fim o desejo de avançar.

“A mancha alastrava-se para os lados, em alguns pontos esticando-se verticalmente feito chifres. Em outros, concentrava-se em formas ovais como cabeças. São sete cabeças e dez chifres. Ao centro, no encontro das paredes, assemelhava-se a um rosto ferido e deformado. Um rosto espelhado em agonia, meia face em cada parede. Uma mancha em uma prancha a se projetar noutra prancha. Simetria”.trecho de Caso 132.

Alguns elementos presentes em Caso 132: Urbanismo (grande parte da narrativa se passa em ruas, avenidas e demais cenários de uma cidade, os quais não se limitam às paisagens, mas incluem também seus personagens, como mendigos, travestis e demais personalidades que transitam e/ou vivem nestes ambientes, nos quais a linha entra a segurança e a criminalidade é cruzada a todo instante); Trevas (manchas, podridão, obscuro, sombras, chifres – para que o lado escuro seja visto, é preciso que haja a luz (antagonismo), porém há uma predileção pelo underground);  Erotismo (implícito ou explícito, há menções aos prazeres sexuais, o que teria uma relação com as criaturas noturnas e também fazem parte dos conflitos internos (ponto fraco) do detetive; Misticismo (Religiosidade, símbolos, números, cruz, igreja e demais elementos que dão dicas ao leitor, e ao mesmo tempo, criam mais mistérios).

Algumas suposições: O nome do personagem Anton Levey, intencionalmente ou não pode ser relacionado à figura de Anton LaVey, um norte-americano que fundou a Igreja de Satã (Church of Satan) e tinha forte relação com o ocultismo. Outro nome que me vem à cabeça, embora eu não tenha lido suas obras para argumentar melhor (pela falta de tempo – uma das minhas frustrações será morrer sem ter lido tudo o que eu queria), é o do escritor russo Anton Tchekhov que talvez venha a contribuir com seus enigmas, detalhes, sonhos e fluxo de consciência.

O tempo é bem trabalhado em Caso 132. Não vou entrar em detalhes, para não estragar as surpresas, mas cabe ao leitor ficar atento às dicas deixadas pelo narrador, como as cenas e suas datas – tal como um jogo de mistérios, no qual o jogador vai liberando novas fases e obtendo mais informações. Entre as pistas estão as obsessões de Anton, a simetria e o estranhamento provocado pelas outras personagens e suas ações, levando em conta que numa boa narrativa nada acontece por acaso e mesmo as distrações do foco principal fazem parte da trama.

“O tum, tum do esmagar do crânio reverberava pelo corpo, vibrando tal rajadas intempestiva de gélido e cortante turbilhão, porém não de ar, mas de insetos. Rajadas de insetos. Anton estapeou o corpo, livrando-se de algo. Limpando-se de algo. Algo que a seus olhos lhe aderia. Deixando a mente para se materializar no corpo. Delírio. Milhares de insetos acertando-o em cheio. Dilacerando-lhe o corpo, adentrando na carne, riscando e lascando-lhe os ossos. Estilhaços de músculos desprendendo dos membros. Os ossos em ruína; a começar pelas pernas, como a estátua do Arcanjo Miguel. O detetive Anton Peter Levey ruía”.trecho de Caso 132.

Não há como ficar indiferente diante dos mistérios de Anton, um personagem virtuoso, mas com a própria alma corrompida. Tal qual o teste do borrão de tinta, há um espelhamento na narrativa que me lembrou o universo fantástico criado por Borges (ou qualquer outro autor de Literatura Fantástica) com suas regras próprias. O tom realista e detetivesco prende o leitor neste limiar real e fantasia, criando instantes de suspensão da descrença.

No primeiro ato de Caso 132, Eric faz uma breve aparição. Porém, na narrativa Frigorífico, o detetive é o protagonista. O homem acorda ao lado de outros dois desconhecidos, sendo que um deles é um açougueiro e o outro, um professor de Física. O que esses personagens têm em comum? Quem teria os aprisionado neste cômodo? Para quem gosta de terror psicológico e sangrento, além dos já citados elementos, os personagens entram numa espécie de jogo, no qual precisam seguir instruções, cujos resultados podem levá-los a sair dali – não há como não pensar em Jogos Mortais e outros filmes e narrativas nos quais há todo um sadismo por trás de quem arquitetou os planos.

À medida que a trama vai se desenrolando, alguns fatos vão iluminando o leitor, enquanto outros permanecem obscuros até o final. O próprio autor apresenta em uma das notas o conceito de aporia – por sinal, muito interessante para quem gosta de mergulhar em histórias de suspense e se delicia com elas, mesmo que nem todas as respostas sejam ‘resolvidas’, afinal, assim como na vida, há sempre o fator incerteza, a subjetividade e o espaço para a imaginação.

“Aporia (do grego): dificuldade, sem saída, pensamento impossível. Paradoxo – dúvida ou incerteza. Algo que turve o sentido real de algo. Ideia criadora de tensão que possa impedir a verdade de algum texto. Caminho que se mostra ambíguo, apresentando algo oculto à leitura convencional. O texto é vivo. Possui vida. Intenções. Compete ao leitor – pela leitura e abstração – matá-lo ou deixá-lo viver”. trecho do livro Sete Cabeças.

Frigorífico apresenta uma estrutura temporal mais linear do que Caso 132. Outro elemento diferenciador é a delimitação espacial: grande parte da narrativa se passa num ambiente fechado – esta mistura de personalidades e um jogo doentio e sangrento dão mais emoção e impulsividade à trama. Uma das forças desta narrativa é a questão do livre arbítrio, da escolha de quais caminhos seguir. Novamente, o leitor se sente dentro de um jogo – sensação ainda mais marcante do que em Caso 132, já que as outras cenas (espaços) são liberadas gradualmente, aumentando a tensão, provocando o surgimento de outros eventos e de mais elementos simbólicos / misteriosos.

“O escuro e a ausência de olhos repreendedores tornava o ser humano um animal ativo, e mais agressivo. No silêncio e cumplicidade das trevas, os homens demonstravam aquilo impresso na alma, o ato simples de: ser. Estar e ser. O sangue derramado”. – trecho de Frigorífico.

O que fazer? Qual caminho seguir? Qual é o propósito da vida? O medo levanta a dúvida e os instintos parecem imperar sobre a racionalidade. A contraposição entre razão e emoção, luz e trevas, salvação e perdição – Bruno Godoi brinca com os elementos paradoxais em sua narrativa, bem como usa uma linguagem ácida e humor negro para criar mais atrito entre os personagens e explorar a imprevisibilidade do ser humano quando é submetido à pressão, ao encarceramento e se vê diante de um labirinto do qual precisa seguir as instruções para conquistar sua liberdade.

“Há momentos em que a humanidade se esvai feito sangue a escorrer por pulsos cortados”. – trecho de Frigorífico.

Recomendo a leitura de Sete Cabeças para os fãs de romance policial e de narrativas sobrenaturais. Bruno Godoi traz o melhor dos dois mundos, proporcionando horas de entretenimento, mas também de reflexões sobre a condição humana. Como boa leitura, o escritor não reproduz um modelo de narrativa, muito menos se preocupa somente em agradar ao leitor – ele desconstroi técnicas de construção de romance e teorias (já que Aristóteles foi um dos pais da Teoria da Literatura). O livro traz um bom exemplo de como a literatura pós-moderna pode ser muito mais do que os clichês e do que a visão quadrada dos críticos literários que tentam reduzir a literatura policial a uma subliteratura. Fiquei envolvido com o livro desde o início e seu final não me decepcionou!

Sobre o autor – Conhecido por seus livros de suspense policial e sobrenatural, Bruno Godoi nasceu em Divinópolis (MG). Amante dos livros, em 2014 tornou-se membro da Academia Divinopolitana de Letras (ADL). É também autor de O Grito Vermelho, romance que conquistou milhares de seguidores pela internet.

Sobre a editora – A Editore Empíreo surgiu com a missão de publicar literatura de qualidade e rica em cultura que edifique seus leitores usando os mais variados temas e formatos. A partir do latim Empyreus, uma adaptação do grego antigo, “dentro ou sobre o fogo (pyr)”, Empíreo é o mais alto dos céus, o local reservado para as divindades e para a perfeição.

O livro Sete Cabeças pode ser comprado na loja virtual da Editora Empíreo

A obra nacional de ficção está cadastrada no Skoob – maior rede social de leitores do Brasil.

Assista ao teaser do livro Sete Cabeças: 



Gostaram da resenha do livro? O que acharam de Sete Cabeças? Espero que tenham apreciado mais uma recomendação de leitura aqui no blog! ;-) Compartilhe com quem possa se interessar pela obra. Valorize a literatura nacional!

2 comentários:

  1. Já me ganhou pela "associação de palavras" e o "Testes de Rorschach"... sou suspeita para comentar porque eu adoro qualquer literatura com conteúdo sombrio. Os livros nacionais que você recomenda são muitos bons, Ben, eu não me arrependi de ler nenhum!!! Beijos

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    Respostas
    1. Oi, Michele! Você não sabe o quanto me deixa feliz ler isso. E tenho certeza de que os autores recomendados também devem se alegrar. Assim como você, também adoro narrativas sombrias. Se tiver conceitos da psicologia, melhor ainda!
      Beijos. Grato pelo comentário gentil.

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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