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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

Crônica: Distanciar

Mãos que não se tocam. Olhos que se desviam. Dentes que rangem.

Nos movimentávamos como dois ímãs que se repeliam: quanto mais tentávamos nos aproximar, o universo nos empurrava para direções opostas. Não era para ser, você me diz. Eu sempre soube, sussurro. Tento apagar o coração que desenhei no vidro, mas meus dedos só deixaram a marca mais borrada.


Será que você sente quando meus olhos esquentam e mesmo que eu tente controlar, as lágrimas continuam caindo? Você imagina que eu estou sorrindo, que te deixar livre foi tudo o que eu sempre quis... Você não tem ideia da falta que me faz.

Me abraço, como se não quisesse deixar meus pedaços trincados se esfarelarem pelo chão. Criei meu santuário de você dentro de mim. Fecho os olhos e você está ali, com aquele seu jeito de quem quer me encostar, porém não sabe como pedir. Talvez se você simplesmente me abraçasse, tudo fugiria ao meu controle. Talvez só assim você saberia como as coisas realmente são, quando nem eu, nem você, somos capazes de convencer nossas mentes de que seria melhor assim.

Abri suas mãos e soprei toda a poeira que eu deixara ali. Pronto. Já não há o que temer. Tudo a ganhar. Somos livres para continuarmos voando, acreditando que algo melhor há de aparecer no horizonte da vida. Solto meus braços e deixo meu corpo deslizar pelo ar, até atingir o oceano de lágrimas salgadas. Meu coração agridoce expulsa as mágoas pelos meus poros. Palidez se confunde com o negrume da alma.

Deito na cama e é como se estivesse sendo dragado pelo espaço. As estrelas não brilham, a lua é só escuridão.

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