domingo, 25 de outubro de 2015

Crônica: Esparramado

Abre a janela. Me vê sentado sobre o fio do poste à espera que você venha me encontrar. Tento me equilibrar, mas sinto que a qualquer momento a realidade vai me derrubar. Respiro. Será que me percebe?


As árvores dançam no plano de fundo. O céu está tão claro que os olhos chegam a doer. As aves cantam uma triste melodia. Eu? Eu estava ali. O vento balançava o fio de um lado para o outro. Permaneço firme, como quem não vai sair até conseguir o que deseja.

Tento te tocar. O vidro transparente nos separa. Sinto meu peito tão pesado que a qualquer instante temo que o fio não vai me suportar. Quero abrir as asas, voar para longe. Meu horizonte agora é você.
Se eu te pedir para me soltar, você me promete que não escuta? Se eu te pedir para me esquecer, você abre a janela e desesperadamente me pede para nunca partir? Se eu te pedir um beijo, você me aninha em suas mãos?

O calor vai soltando meus músculos. A cabeça fica aérea. Vejo o seu rosto se transformar num borrão. Você sussurra: “Eu te amo”. Eu quero responder, mas a voz se perde em minha garganta. Você se diverte com meu jeito atrapalhado. Seu sorriso se abre e sinto meu corpo em queda livre.

Tarde demais. Meu coração quebrado exala minha essência. “Quero você por perto”, eu sussurro. Você segura minhas mãos e promete que não vai me deixar mais cair. Te abraço e explosões de cores, sons e gostos inundam os meus sentidos. “Não brinque com o meu velho coração”, eu te peço.

Suas mãos amaciam meu rosto. Toda a confusão desaparece. Por que faz isso comigo? Por que me sinto tão bem perto de você? Os porquês saltitam na minha cabeça. Tento colocá-los dentro da minha mente e trancá-los, mas eles lutam como animais selvagens. Meus instintos me dizem que você vai me machucar, que é o que sempre acontece quando gostamos muito de alguém... Você me olha e meu coração bombeia amor para cada poro da minha pele.

Arrepios. Sua boca está na minha nuca. Fecho os olhos. Peço para que o momento se congele. Não quero perder. Talvez seja melhor parar agora e manter o final em aberto. Talvez se eu simplesmente te deixar ir, você nunca vai se cansar e, um dia, vai voltar pra mim. Talvez se eu nunca te ter, você nunca vai se sentir preso.

Os ossos me rasgam. Quero seu amor. A mente me alerta para manter a amizade e não deixar a magia se perder. Não quero me contentar. Quero me contentar. Não quero. Quero. Subo na árvore e me agarro às folhas. O mundo está queimando e tudo o que eu sinto é o frio da sua ausência.

Você me deu asas só para arrancá-las com seus dentes felinos. Tento me contentar, lembrar que as borboletas tambêm vivem pouco. Talvez nosso amor seja feito de borboletas. Em meu estômago carrego um cemitério só nosso. Os dias se passam, a vontade aumenta e a cada prego que eu engulo, a ferrugem se espalha pelas minhas veias. Sei que a qualquer segundo este pássaro não voará mais. Aproveito para saltar e me apegar aos sentimentos que você me emprestou.

Meus bolsos se esvaziam. Só restaram os papeis das balas. Já não há cheiro, não há gosto, não há grude. Minha língua metálica se prepara para os últimos balbucios. Você já não está aqui. Sinto meu corpo fritando no assalto. Ouço o som dos carros passando na rua. Um deles me espreme contra as rodas. Deixo minha última obra de arte. Seu sorriso escorre pelo chão, enquanto minha alma é tragada pela roda da vida e morte. Sem tempo de dizer adeus ou eu te amo. A trilha sonora sobe e me perco na escuridão. Tarde demais.

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