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Destaques

Para Toda a Eternidade: Livro explora rituais funerários diversos

Entre a naturalidade e o espanto, o tradicional e o moderno, o ocidental e o oriental, Caitlin Doughty transmite ao leitor histórias de suas visitas a espaços e profissionais envolvidos com o universo mortuário. Uma das obras pedidas por quem já tinha lido Confissões do Crematório, o novo livro foi publicado no Brasil pela editora DarkSide Books, em junho de 2019, com tradução de Regiane Winarski e ilustrações de Landis Blair.


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“Eu passei a acreditar que os méritos de um costume relacionados à morte não são baseados em matemática [...] mas em emoções, numa crença na nobreza única da própria cultura da pessoa. Isso quer dizer que consideramos os rituais de morte selvagens apenas quando eles não são como os nossos” – Caitlin Doughty, Para Toda a Eternidade
Dá para ler tranquilamente Para Toda a Eternidade sem ter lido Confissões do Crematório, mas acredito que as duas leituras são complementares. Enquanto na p…

Crônica: Amor Nômade

Nosso amor era nômade. Quando eu queria ficar, você partia sem nem mesmo dizer adeus. Quando era você que me procurava, eu já estava em outro continente. Estávamos destinados a vislumbrar sombras de quem costumávamos ser.

Imagem Amor Nômade Crônica Ben Oliveira

Talvez sua foto ainda esteja jogada na minha gaveta. Talvez eu esteja mentindo. Talvez eu a tenha rasgado com os dentes e queimado junto com todas as cartas que você nunca me escreveu – ou talvez me faltara coragem para destroçar o que já era tão mastigado pela vida.

Estou aqui, você, ali. Nem mesmo nos sonhos nós estamos juntos. Há algo em nossas essências que teme que nosso amor se transforme em cinzas. Não somos amigos, embora nos conheçamos melhor do que muitos dos que estão ao nosso redor. Não somos amantes, ainda que nossos corações possam brincar de dançarinos. Não somos inimigos, não somos estranhos. O que nós somos? Somos onde não-somos e é nesta impossibilidade que nos tornamos possível.

Meus rabiscos já não são os mesmos. Lembra de quando me perguntou se aquele texto era para você? A verdade é que você nunca vai saber. Meus fragmentos batem como ondas e quando chegam até você já bateram em todas barreiras de gelo e se diluíram pela água – como nós dois, sempre destinados a falhar. Se você tivesse calma, ia perceber que até mesmo nas imperfeições de meus traços seria possível encontrar um retrato de quem realmente éramos ou de quem poderíamos ser.

Não dê ouvidos às minhas mentiras. Tudo o que aqui já escrevi nada mais são do que ilusões criadas para te enganar. A verdade é que se eu escrevesse que nunca te amei, você usaria seu canto hipnótico e daria um jeito de fazer as palavras se voltarem contra mim. As palavras, aquelas traidoras. Sempre me deixando na mão quando eu mais preciso, com suas ambivalências e limitações – como nós dois, não é mesmo?

Agora é o momento em que algum leitor aparece e reclama o quanto não aguenta mais ler baboseiras sobre nós dois. Em outro universo, você me pede para não deixarmos morrer, não importa quantas vezes você me decepcione ou eu continue nos pintando, como o casal mais improvável do mundo real – nada disso importa, pois nosso amor ainda vinga na ficção. Você me pede para carregá-lo nas costas, mas meu coração já está fatigado.

Preparo minha mochila. Olho para a estante cheia de livros e me arrependo de não poder levá-los comigo. Me lamento por todo o peso que eu gostaria de deixar para trás – você e aquela dor que me persegue, como a perna fantasma de um sobrevivente de guerra. Veja bem, nossa batalha está longe do fim. A cada dia que penso que te superei na minha mente, é só piscar os olhos e você passa por mim.

Toda escritura parece a mesma. É que nós dois estamos tentando nos reinventar. Desta vez, coloquei sapatos que não vão mais causar calos na minha caminhada, já não preciso de nenhuma marca para me lembrar de você. Abri o mapa e marquei um país. Fechei os olhos e torci para que não nos encontrássemos ali.

– Era você? – Você me pergunta.

Finjo que não recebi sua mensagem. Finjo que não te vi. Finjo que você não me viu. É melhor assim, quando nossos corações estão sempre viajando para longe de nós mesmos. Ah, esses amores nômades... eles nunca se cansam. Pode ser que nossos caminhos se cruzem, pode ser que não. E eu? Eu já estou pronto para colocar os pés na estrada, novamente.

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