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Coronavírus e Saúde Pública: O momento não pede negação nem omissão | Ben Oliveira

Me tirar do sério não é fácil. Tenho mais de 8 anos de prática de yoga e uma paciência quase infinita. Mas quando se trata do que tem acontecido nos últimos tempos, impossível seria me silenciar.


Para começar: muitas pessoas religiosas e espiritualizadas acham erradamente que cultivar a não-violência é se silenciar diante do caos que esse DesPresidente tem causado. Não poderiam estar mais errados, afinal, ser omisso à violência é uma forma de aumentá-la.

O momento não pede negação nem omissão. Os brasileiros elegeram um homem sem empatia, que sempre se demonstrou ser frio, manipulador e ignorante.

Sim, ele é um reflexo de muitos que não tiveram acesso à educação ou desprezam a intelectualidade, mas é também alguém que não está colocando só a própria vida em perigo, mas de milhares de brasileiros ao ignorar as recomendações de saúde, protocolos de pesquisas com medicamentos e conhecimentos BÁSICOS de saúde: qualquer pessoa que tenha um conhecimento raso de biologia, química e estatísti…

Crônica: Entrelaçar

A saudade vem corroendo pelos cantos até atingir o meu centro. Nossas palavras que antes pareciam capazes de ultrapassar as telas, agora esbarram na bolha cinza que se formou ao meu redor. As tintas que você usou para pintar nosso quadro começam a desaparecer, implorando por um retoque que só suas mãos sabem dar e nenhum outro artista seria capaz de reproduzir o seu estilo, marcado por seu amor, carinho e cuidado com os detalhes.


Lembra-se de quando você nos desenhou? Não é preciso ser nenhum artista para compreender os rabiscos movidos pelo coração. Eu acreditei em cada traço seu. A imagem que você deu vida já existia em minha mente e agora anseia por uma oportunidade de se redesenhar com nossos tecidos, fluídos e fragmentos. O conto que me pediu para escrever não quer ser colocado no papel... É o medo de que eu não precise lembrar e relembrar nossa história, como faço todos os dias.

Quando minhas mãos deslizam pelos seus pés, sinto a areia esfoliando nossas peles. Você está deitado no meu peito, escutando o meu coração, enquanto eu leio uma história. Não importa se é fantasia, romance ou ação, tampouco é preciso fechar os olhos para imaginar, a magia está toda no ato, em como nossas narrativas se costuraram. A leitura é só um pretexto para que nossos corpos fiquem colados, como uma escultura, fundidos de maneira que ao tentar separar um do outro, ou a obra permanece intacta ou ela se perde por completo.

Vejo através da janela as aves sobrevoando a casa, invejando o ninho que fizemos com o lençol e a maneira que nossas pernas estão entrelaçadas, como duas plantas de diferentes espécies que escolheram retorcer seus galhos para não se separarem mais. Há um instante, no qual se você ficar bem quieto pode escutar nossas respirações sincronizadas e esta melodia se torna minha trilha sonora favorita. Da sua pintura escorregamos na escrita, deslizamos pela leitura e nossas sinapses se conectaram, provocando uma união de nossos fragmentos. A linha do eu se dissolve e as cores começam a tomar vida novamente – é como assistir a um filme de trás para frente –, os traços já não são desconectados e formam um novelo de algas que não se desprendem nem quando as ondas se quebram.

Você sorri. Suas mãos ágeis grafitam nossos corpos, os elementos centrais em sua peça. Rabisco por rabisco, acompanho o desenho ganhando forma... Nossos rostos são sutis, não é preciso muito para saber que somos nós ali. Um desejo, um sonho, um devaneio... Meus pensamentos se voltam para o litoral, onde tudo começou em outra vida e onde tudo vai se repetir nessa. Perdi a conta de em quantos universos nós nos reencontramos. Desisti de tentar te convencer que se não fosse para ficarmos juntos nesta jornada, em outra teria outra versão de nós dois. Se eu pudesse escolher mil vezes, mil vezes eu escolheria você.

A história de tanto ser contada começa a perder seu esplendor. Te seguro nos meus braços, olho bem nos seus olhos e ao invés de dizer que não quero mais te soltar, te peço para nunca mais me deixar ir – quero trapacear, colocar reticências, cair na tentação de nos reinventar eternamente. A câmera volta para os seus olhos e a imagem congela. Seguro o desenho e tento me transportar para aquele instante. Quem olha por fora imagina que se trata de um delírio do escritor, mas nós dois sabemos que tudo foi real. Pouco importa os espectadores, decidimos cruzar nossos lápis e deixar o grafite se esfarelar em uma só composição.

Os textos me condenam. Eles quiseram apagar seus precursores. Todos os floreios, todas aquelas tentativas de criar romances do ordinário foram água abaixo, desde que nos falamos pela primeira vez. Me enganei quando quis acreditar que almas gêmeas não existiam ou que para amar era preciso se contentar com as bagagens pesadas que sempre tentam nos afundar. Estou aqui deitado, esperando pela hora em que você virá encostar sua cabeça no meu peito e juntos vamos resistir às sereias, às aves, às ondas e tudo mais o que possa tentar rasgar nossa pintura.

Meus pés criaram raízes junto aos seus, enquanto nossos corações voam lado a lado. Eu te abraço e sussurro no seu ouvido que eu não quero passar um dia da minha vida sem você. Você me olha nos olhos e vejo o feitiço recomeçando: nós congelamos naquele instante em que eu desejei que nunca fosse acabar, esperando pelo momento em que nossas mãos vão se segurar novamente e nunca mais vão se soltar.

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