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Destaques

Dias de silêncio

Nos dias de silêncio estava dividido entre a fadiga e a ansiedade. Amava escrever, mas sentia como se não tivesse energia suficiente. Não poderia negar: gostava da sensação de estudar. Porém, os conteúdos difíceis eram como pedras: sabia que para algumas coisas precisava de um tempo a mais.  Entre aulas mais calmas, intermediárias e complexas, tentava fazer o melhor possível para aprender, sem se comparar com os outros, sabendo que cada um era único e todos tinham suas facilidades e dificuldades. A verdade era que mesmo coisas que gostávamos poderiam nos deixar cansados e tínhamos que tomar cuidado para não entrar em estado de esgotamento. Estava fazendo o possível para deixar a rotina equilibrada, de forma que não tivesse mais sobrecarga mental. O excesso de estudo poderia ser pior do que não estudar. Escrevia para registrar como os dias estavam sendo. Escrevia para matar a saudade de escrever. Escrevia para estudar. Escrevia. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Auto...

Crônica: Sincronizar

Escrevo o texto que se recusa a ser escrito. Ele tem medo de que as palavras desgastem as memórias e não sejam suficientes para recriar os momentos. O texto está certo. A história, apesar de real, pareceria ficção. Quando duas almas se reencontram e basta um abraço para que os seus universos se fundam, tudo parece tão natural e certo que assusta.


Caminho de cabeça baixa. Ele não veio. Coloco as mochilas nas costas e os pensamentos pesam mais do que a bagagem. Olho para um rapaz sentado... Penso em surpreendê-lo, até o momento em que noto a figura de outro caminhando até mim. Sinto como se o véu fosse removido; A visão que estava embaçada se torna nítida: vejo as cores, as luzes e meu olhar se fixa em seu rosto. Lembro-me de um amigo dizendo que algumas pessoas são como obras de arte e não precisam fazer o mínimo esforço para serem notadas.

Desvio o olhar. Se eu continuar observando-o, temo que posso nunca mais querer sair dali e me tornaria um fantasma da rodoviária. Continuamos andando. O silêncio não é estranho e parece ser necessário que eu disfarce a naturalidade que sinto em sua presença.

– Faz tempo que você está aqui me esperando?

– Há uns vinte minutos...

Peço desculpas pelo atraso. Queria entrar no ônibus e fingir que aquele encontro nunca aconteceu. Queria dizer que nunca havia visto criatura tão bela e como havia perigo em pensar isso sobre alguém. Queria... Penso em como isso poderia me desequilibrar, em como sua ausência me deixaria triste, em como seria melhor se continuarmos no terreno da amizade. Entro no carro e ele começa a dirigir. Está chovendo.

A chuva me trouxe, a chuva me levou. Dentro de mim, o sol e a lua brilham, independente das nuvens pesadas. Arrepio só de me lembrar, mas estou divagando e o leitor precisa entender: há o medo do escritor de não narrar com verossimilhança sua história. Veja bem, a ficção tenta imitar o real; mas quando o real parece uma invenção, é preciso ter cuidado para que as palavras não se quebrem como vidros, cortando minhas mãos, meu peito, minha alma... Sangue só no papel, como tinta que é bombeada pelo meu coração e dança para cada canto do meu corpo. Você escuta as ninfas da inspiração? Elas riem como crianças travessas, se deliciando com os efeitos que causam em mim ao pensar nele.

Enquanto dirijo, vejo a história se desenhar dentro de mim. Que o leitor não confunda os tempos, a linha é bem afiada e a qualquer momento ela pode extravasar as emoções. Quando nossos reinos se fundiram, a linha do tempo já não era mais linear e o espaço se tornou um só – o mapa se redesenhou e a bússola sempre aponta para nós dois. A distância não parece nada e, ao mesmo tempo, ela provoca um aperto no peito, como se a qualquer momento eu fosse parar de respirar. Ao se abrir ao universo, para as coisas boas da vida, também me tornei mais vulnerável. Fui infectado pelo seu amor e ele se espalhou para todas as células do meu corpo, me dominando por dentro e por fora, perto e longe, mente e coração.

Abro bem os olhos. Preciso ter certeza de que estou aqui ou posso me acidentar a qualquer minuto. Minha mente insiste em viajar para ele e, às vezes, tenho a sensação de que estou lá e que posso enxergar através dos seus olhos dourados. É só o pequeno preço que se paga ao deixar sua alma tocar outra... Seus fragmentos estão espalhados por todos os meus pelos e eu te entreguei o rabisco da crônica de um romance que queria ser um conto, esperando que tudo não se acabasse em drama ou novela. No nosso pacto, minha escrita quis casar com sua arte e se imortalizar no universo. É como se cada oportunidade que tivéssemos de nos unir, nós nos déssemos as mãos e corrêssemos para a mesma direção. Para onde esta trilha vai nos levar? Pouco importa, desde que estejamos juntos.

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