segunda-feira, 20 de março de 2017

Conto: O Beijo – Ben Oliveira

Sentada no chão do quarto como uma criança, ela folheava as cartas e fotografias amareladas pelo tempo. Como as folhas que desprendiam das árvores e se arrastavam pela rua, ela chorava pelas coisas que se foram, torcendo pelo dia em que receberia o meu beijo agridoce e elétrico. Vinte e quatro horas até que nossos lábios se toquem, sussurrei em seu ouvido, mas ela não me escutou.


Era uma tarde de quarta-feira. O sol rasgava as nuvens com seus raios e queimava quem ousasse permanecer sob o céu aberto. Toda semana, naquele mesmo horário, ela subia na faixa da rua, na esperança de que um carro ou outro parasse para que ela pudesse atravessar e ia até o sacolão que ficava a algumas quadras de sua casa. Eu a observava e admirava como ela parecia tão destemida, diante da rapidez dos que passavam, sem medo de que alguém pudesse atropelá-la – ou quem sabe era o que ela desejava, mas se recusava a admitir em voz alta. Embora o tempo levara tudo dela, havia algo que a movimentava e sabia que se ela se permitisse parar, as coisas não fariam mais sentido. Os anos roubaram seus dentes, seus cabelos, seus amores, seus filhos, seus nomes... Recompensando-a com o vazio e a saudade.

Depois de voltar para casa e descarregar as compras, ela saiu com sua vassoura de palha e varreu a calçada, resmungando para si mesma da sujeira que parecia não ter fim. Seu corpo frágil, como o de um passarinho, com os braços finos, as omoplatas evidentes e a pele fina e enrugada se movia em um ritmo tão lento, que chamava a atenção dos passantes e motoristas. Sua imagem era como a de uma pintura cujas cores e contornos desvaneciam – o suficiente para fazer com que as pessoas desviassem o olhar após alguns segundos, pois se lembravam das coisas que ninguém queria pensar, como a velhice, o abandono, a doença e a morte.

As pessoas a olhavam como se fosse louca. A velha varreu a poeira durante minutos e depois retornara para casa. Alguns segundos depois, a calçada estava toda suja novamente. Segui seus passos lentamente, como se fosse sua própria sombra e observei-a trancando a porta. Ela colocou a cabeça na janela e deixou o olhar se perder no movimento da rua e logo fechou as cortinas.

Diante de sua própria solidão, ela abriu espaço para os pensamentos que gritavam em sua cabeça. As palavras ruíram pela garganta: “Todos os dias a mesma coisa”. Pensava nos filhos que sempre prometiam visitá-la, mas nunca se lembravam nem mesmo de ligar; na comida que precisava preparar todos os dias e já não tinha o mesmo sabor que costumava ter; nos cabelos brancos que se acumulavam pelos cantos da casa, junto com toda a sujeira que o vento trazia; nos sonhos que não se realizaram e em tudo o que poderia ter feito e deixou para depois, mas agora sabia a verdade... o depois nunca chegaria.

Eu a escutei e a fitei durante horas. Primeiro, ela preparou a sua sopa de macarrões e legumes, em seguida, se sentou para comer, observando a novela da televisão com aqueles atores tão jovens e histórias tão banais que a deixava sonolenta. Desligou o aparelho e foi direto para o banho. Fazia algumas semanas que não assistia aos telejornais. Estava cansada de ver tantas notícias sobre desgraças, crimes e escândalos políticos que aconteciam pelo país. Pensei em avisá-la sobre a previsão do tempo, mas guardei para mim. Qualquer surpresa era melhor do que nenhuma. Promessa é promessa. Quando decidi que estava na hora de entregar o seu presente, eu sabia que não poderia mais voltar atrás.

Não eram sete horas da noite, e ela já estava se preparando para dormir. Colocou o pijama puído e bege e encostou a cabeça no travesseiro. Parecia que a única coisa que não lhe faltava nos últimos anos era o sono. Não se lembrava de quando foi a última vez que sonhara, por isso eu segurei minha caixa dourada e depositei-a em suas mãos.

As imagens lhe vinham como flashes. Observou-se com os cabelos loiros e radiantes, os olhos que brilhavam como duas esmeraldas – não aquele lodo opaco que as pessoas viam nos últimos tempos – e segurava as mãos do único homem que amara, com quem ao longo de cinquenta anos de casamento tivera cinco filhos e sobrevivera a tantas crises: financeiras, de saúde e emocionais. Eles se beijavam e era como se a cada toque, a vida ia preenchendo cada espaço vazio do seu corpo.

Vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto e molhando o travesseiro. Era possível enxergar em cada marca do seu rosto a história que ela contava, mas não tinha ninguém para conversar. Sobrevivera à guerra, às inundações e ventanias, às doenças... Só não sobreviveria ao inverno da alma – somente o meu beijo poderia salvá-la.

– Não lute... – Deslizei minhas mãos frias pelo rosto dela, limpando as lágrimas com os meus dedos.

Eu podia ver o medo em seus olhos.

– Eu estive lá quando seguraram o caixão do seu marido e o enterraram. Você desejou que tivessem jogado a terra sobre seu corpo com todo o seu coração, mas por fora precisou se fazer de forte para os filhos e amigos, pessoas que hoje não têm ideia de como você está sentindo. Veja bem, é muito fácil abrir mão das coisas que queremos. Dia após dia, ano após ano, você foi engolindo todos os sonhos que viraram cinzas, até que este dia finalmente chegou. Não me faça essa cara de espanto. Todo fim tem um começo e o seu foi construído tão bem, que meus esforços agora são mínimos.

Senti o coração dela se acelerando. Parecia que era parte do ser humano reclamar e pedir pelo fim das coisas, mas lutar com todas as forças com o que pediram.

Suas pupilas escureceram como uma noite sem lua; as mãos tremiam enquanto lutavam para se soltar de mim. Um grito ecoou pela casa, como o de um animal que levara um tiro.

Você sempre acha que está pronto, mas a verdade é que nunca está completamente. Já tive trabalhos mais difíceis do que esse. Ceifar vidas não é para qualquer um.

– Não importa o que dizem: não será como um descanso, tampouco um sonho... – sussurrei. Era essa razão que colocara todas as células dela em estado de agitação.

A porta da frente se abriu. Eu não tinha mais tempo. Precisava agir rápido.

– Dona Irene! – berrou o vizinho. – Você precisa de algo?

A senhora olhou para mim e abriu um sorriso. Senti um cheiro forte subindo por sua garganta e encarei os espaços escuros em sua boca, onde antes ficavam os seus dentes. Ela que odiava receber visitas inesperadas, parecia feliz com a presença do vizinho.

– Dona Irene... – sussurrou o homem, vendo minha sombra cobrir o corpo da senhora, como uma manta.

O homem se aproximou e via a mulher imóvel. Já estava com a mão no bolso, prestes a tirar o celular para ligar para a ambulância, quando escutou a voz dela:

– Só mais uma vez... Por favor...

Se ela via a decepção nos meus olhos ou se não se importava, eu não sabia. Mas alguém precisava pagar. Encostei meus lábios no dela e me afastei, observando a cena. Perdera a conta de quantas vezes ela tentara prolongar o inevitável. Era teimosa, como uma criança birrenta.

Ela segurou a mão do homem e ele se abaixou, como se ela fosse contar um segredo.

– Ainda não estou pronta... Me desculpe!  – sussurrou ela.

Dona Irene puxou o rosto dele contra o seu e seus lábios se tocaram. Quando ele foi xingar, ela soprou uma fumaça roxa dentro de sua boca. Estava feito.

O homem caiu duro no chão. Ela piscara para mim.

Uma morte por outra. Antes de desaparecer, escutei-a telefonando para a emergência, com a voz desesperada e entre lágrimas, avisando que o vizinho acabara de apagar em seu quarto.

Foi assim, que nos despedimos. Até hoje aguardo o dia em que Dona Irene aceitará seu destino. Enquanto isso, ela continua fingindo que não me escuta e os vizinhos continuam desaparecendo. Afinal, alguém tem que morrer.
***
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