segunda-feira, 10 de abril de 2017

Livro sobre Paulo Coelho explora a vida e sucesso do escritor brasileiro

Paulo Coelho, escritor amado ou odiado. O jornalista e escritor Fernando Morais se aventurou no desafio de escrever uma biografia sobre o controverso autor brasileiro com livros mais vendidos de todos os tempos no mundo – mais de 100 milhões de cópias, publicadas em mais de 66 idiomas e 160 países. Sonhador, como muitos autores são, Paulo Coelho dedicou sua vida à construção de sua carreira de escritor profissional e para conseguir tal façanha, o alquimista, como ficou conhecido, passou por inúmeras situações e provações, desde se aventurar pelo universo de escrever músicas e redações de jornais e revistas, experiências com drogas, satanismo e redescoberta da fé, entregando panfletos dos seus livros em diferentes lugares até sua primeira publicação de sucesso com o Diário de um Mago e as inúmeras portas que se abriram a partir daí.


Vencedor de mais de 60 prêmios em diferentes países da Europa e nos Estados Unidos, Paulo Coelho teve conquistas memoráveis, levando em conta que seus livros vendem muito em um país com índice tão baixo de leitura, como o Brasil, e seu sucesso global, mesmo diante da pirataria – em alguns países em que obras de autores internacionais não são vistas com maus olhos quando são reproduzidas ilegalmente, como no Egito, foram publicadas mais de 400 mil cópias piratas dos livros do autor.

A leitura do livro O Mago possibilitou relembrar as principais histórias escritas por Paulo Coelho e associar com os diferentes momentos de sua vida. Desmerecido dentro do próprio país por inúmeros escritores, críticos literários, imprensa e editoras, Paulo Coelho é, sem dúvidas, um case de marketing para autores, mostrando as possibilidades da escrita quando há simbiose entre as palavras e os leitores e, claro, muita persistência. Independente dos relatos sobre como a magia e a religião possam ter ajudado o escritor, a escolha de suas temáticas místicas e linguagens simples, é inegável que a trajetória de Paulo é tudo, menos um fracasso – embora muitos discordam, sem mesmo terem lido seus livros. Tudo depende de qual é a sua definição de sucesso. Paulo conquistou o que tanto almejava.

“O sonho de ser um escritor lido no mundo inteiro e de ter “fama, fortuna e poder” conduziu sua vida, de forma pertinaz, desde a adolescência. Mas esse sonho só começaria a se realizar em 1987, quando, já quarentão, publicou O Diário de um Mago. Em menos de um ano o autor havia vendido 40 mil exemplares do célebre relato de sua trajetória pelo Caminho de Santiago. As vendas seriam poderosamente alavancadas pelo segundo livro, O Alquimista, editado em 1988. No final do ano seguinte os dois livros juntos haviam batido na astronômica cifra de meio milhão de exemplares. O sucesso transformou Paulo Coelho em um nome nacional e abriu as portas de editoras nos Estados Unidos, da Europa e de outras paragens. Vinte anos depois de lançar seu primeiro livro fora do Brasil, ele seria o único autor vivo a ser traduzido em mais línguas do que William Shakespeare” – Fernando Morais, O Mago

Fernando Morais desencavou diferentes episódios da vida de Paulo Coelho, entre os mais marcantes estão os de internação em um hospital psiquiátrico, que serviu de inspiração para o livro Veronika Decide Morrer – curiosamente, uma das obras do escritor que lhe rendeu destaque por fugir um pouco da temática espiritual e abordar o universo dos transtornos mentais e o tratamento aos quais muito pacientes são submetidos. Segundo a biografia, o autor best-seller foi convidado a participar de discussões sobre tratamentos psiquiátricos e a popularidade do livro serviu para abrir os olhos sobre a desumanização de pacientes e a internação compulsória, bem como a depressão e o suicídio.

A iniciação no satanismo e o interesse por temas como a magia e o vampirismo também são experiências marcantes da biografia do escritor, período em que Paulo Coelho conheceu Raul Seixas e ambos tiveram uma parceria musical. O dinheiro que Paulo ganhou com os direitos autorais das músicas possibilitaram que ele se aproximasse mais dos seus objetivos e conquistasse independência financeira de sua família. Antes da música, o escritor se aventurou no universo do teatro, escrevendo, dirigindo e atuando. Ainda que indiretamente, sua jornada sempre teve alguma relação com a literatura.

“Quando Raul Seixas entrou na sua vida, Paulo Coelho estava mergulhado até a raiz dos cabelos no hermético e perigoso universo do satanismo. Amiudara seus encontros com Marcelos Ramos Motta e, após devorar pedregosos compêndios sobre pentáculos, cabala, sistemas mágicos e astrologia, pôde entender um pouco e aproximar-se da obra do careca que aparecia na capa do disco dos Beatles. Nascido em Leamington, Inglaterra, na última hora do dia 12 de outubro de 1875, Aleister Crowley tinha 23 anos quando diz ter recebido, na cidade do Cairo, uma entidade que lhe transmitiu o Liber Al vel Legis – “O livro da Lei de Thelema” – ou apenas Liber Oz, como passaria a ser conhecido, sua primeira e mais importante obra de cunho místico” – Fernando Morais, O Mago

Apesar de escrito com base em entrevistas, diários, cartas, memórias e convivência, a biografia de Paulo Coelho, assim como suas histórias, flertam com os cruzamentos entre fantasia e realidade, misticismo e ceticismo, loucura e sanidade – elementos que são alvos de controvérsia para os leitores críticos que desmerecem a literatura do escritor. A história de Paulo Coelho, como qualquer outra, é uma construção. Mais do que uma história de ambição e sonhos, o livro revela velhas cicatrizes de um homem capaz de tudo para alcançar seus objetivos. Enquanto muitos teriam se contentado com um não, acredite, essa é a história de milhares de escritores e de outros profissionais, independente da área de atuação, poucos conseguem persistir em suas jornadas.

A obsessão pela fama pode levar muitos à autodestruição, mas parece ter caído muito bem para Paulo Coelho. Óbvio que a história do escritor não seria a mesma, caso ele tivesse falhado em sua jornada. Desde a invenção da prensa, quantos escritores não morreram miseráveis, enlouquecidos com o peso do fracasso, os vícios e seus próprios demônios? A literatura que salva é a mesma que condena. Não precisa ser nenhum vidente para saber que, assim como aconteceram com muitos outros escritores, muitos preconceitos literários sobre a obra do autor só serão quebrados quando ele já não estiver neste plano.

Independente de desagradar a alguns com sua estética literária, superficialidade da linguagem ou com a crença de que ele escreve exatamente as pessoas querem ler – só alguns dos comentários que muito se ouve e lê sobre as obras do escritor –, a ponto de alguns críticos dizerem que nem mesmo subliteratura poderia classificar suas obras, a admiração dos leitores pelo mundo não deixa mentir. Em um Fórum Econômico Mundial, no qual Umberto Eco e Paulo Coelho participaram sobre um bate-papo sobre a globalização, internet e o futuro dos livros, o filósofo afirmou que dos livros do escritor brasileiro, o que ele mais gostou foi Veronika Decide Morrer, pois não se tratar de questões místicas. “Tocou-me profundamente. Mas confesso que não gosto muito de O Alquimista. Isso porque temos pontos de vista filosóficos diferentes. Paulo escreve para crentes. Eu escrevo para pessoas que não crêem. Tenho, por sinal, uma grande coleção de livros sobre alquimia. Interesso-me pelo tema, mas sou cético”, afirmou Umberto Eco em entrevista à revista alemã Focus, declaração que é transcrita na biografia escrita por Fernando Morais.

“Não sei qual será a minha reação ao ler o que estará escrito ali. Mas na capela que neste momento está diante do meu campo de visão, existe uma frase escrita: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Verdade é uma palavra complicada – afinal de contas, em nome dela foram cometidos muitos crimes religiosos, foram declaradas muitas guerras, muitas pessoas foram banidas por aqueles que se dizem juntos. Mas uma coisa é certa: quando a verdade é libertadora, não há o que temer. E, no fundo, foi por esta razão que aceitei ter minha biografia escrita: para que pudesse descobrir outra face de mim mesmo. E isso me fará sentir mais livre” – Paulo Coelho

Segundo Fernando Morais, o livro O Mago nasceu em 2005 na cidade de Lyon, no sul da França, onde ele se encontrou pela primeira vez com Paulo Coelho no aeroporto Saint-Exupéry. O jornalista alega não ter lido nenhuma obra do autor antes de começar a escrever a biografia O Mago, que deu origem ao livro publicado em 2008 pela Editora Planeta. Apesar de grande parte de obras sobre a vida de personalidades famosas acabarem despertando o interesse por causa da trajetória do sucesso, Fernando Morais ganha o leitor não só ao retratar as vitórias e derrotas de Paulo Coelho, mas em recontar pequenas passagens que fazem diferença na hora de entender melhor a personalidade paradoxal daquele que tenta transmitir certa luz, mesmo tendo um histórico de mergulhos nas trevas, como a publicação do livro Manual Prático do Vampirismo sem ter dado os créditos ao ghost writer Toninho Buda.

Das crises existenciais, das inúmeras formas de experimentações sobre os prazeres do corpo e da alma e da tentativa de encontrar o seu lugar no mundo, Fernando Morais revela as facetas de um escritor que mesmo pensando em desistir várias vezes, engoliu o próprio orgulho e as facas arremessadas de todos os cantos. Leitor voraz desde a infância e adolescência, período em que teve problemas com notas por usar o tempo que deveria estudar para as diferentes disciplinas, ele levou para a vida o hábito de ler clássicos da literatura nacional e internacional, livros contemporâneos e obras sobre diferentes assuntos relacionados ao universo da magia e do ocultismo. Sua fama não foi mero obra do acaso ou sorte. Paulo não só estudou o mercado editorial nacional, antes de publicar seus livros, ele se aventurou a abrir a editora Shogun que publicava antologias poéticas, como soube contar com as pessoas certas nos momentos adequados, como o momento em que conheceu Mônica Antunes que viria a se tornar sua agente literária. Quanto às declarações sobre suas fórmulas de escrita, cabe lembrar que é assunto recorrente no universo dos autores best-sellers, como Nicholas Sparks, Stephen King, J. K. Rowling, Dan Brown, Agatha Christie e tantos outras continuam sendo alvos de críticas diariamente, embora os leitores que realmente gostam dos livros não dão a mínima.

Gratidão, ódio ou indiferença, Paulo Coelho deixou sua marca no mundo. Diante de tantas controvérsias sobre sua vida, vale lembrar que independente dos julgamentos sobre sua história e trabalhos, seus livros conseguiram um feito admirável, especialmente em um país com tão poucas pessoas interessadas na leitura – Coelho proporcionou uma porta de entrada para o universo dos livros para muitas pessoas, atitude fundamental em um país em que os livros ainda são vistos como meros objetos de decoração, como acontecia e ainda acontece com os milhares de clássicos literários encalhados em estantes daqueles que querem passar uma imagem de intelectualidade.

Diferente do preconceito literário tão reproduzido pelo país, quem lê Paulo Coelho não lê só Paulo Coelho, ou livros sobre misticismo, ou qualquer outra ideia estupida que espalham por aí; a leitura é muito mais dinâmica e heterogênea do que tentam fazer parecer e há uma teia que conecta os livros, seja por meio da intertextualidade ou por meio da aquisição do hábito da leitura. O pior preconceito é aquele que vem por parte de escritores que cegos pelos próprios egos não se dão conta de que da mesma forma que eles criticam os livros de Coelho, muitos de seus iguais não vão ler suas obras, seja pelo desinteresse pelo contemporâneo ou pelas definições tão engessadas do que é literatura ou não, desmerecendo diferentes temáticas como a fantasia, ficção científica, terror e a literatura policial. Enquanto alguns usam o tempo para espalhar o ódio, outros vão lá e provam que mesmo com as dificuldades de se sobreviver da escrita (não importa de qual gênero ou temática) em um país como o Brasil, com muito trabalho é possível não só obter bons resultados, mas ir além do esperado e ultrapassar fronteiras. Se essa energia usada para linchamento intelectual fosse revertida para a promoção da leitura, os brasileiros leriam muito mais.

Engana-se quem vê mais de 100 milhões de livros vendidos no mundo e acha que isso caiu do céu ou independente de sua crença, que acredita ser resultado de algum pacto satânico do passado. Paulo Coelho foi seu próprio marqueteiro, se tornou a sua melhor marca e o seu valor intrínseco vai além do impressionante número de vendas: a verdadeira magia de um escritor está no poder de transformar a vida dos leitores com suas palavras. Parafraseando seu mais recente livro A Espiã, diante das convenções esperadas no universo literário, seu único crime foi ser um homem livre. Uma biografia sobre sonhos, suor, sangue e sacrifícios e sobre como toda magia verdadeira só funciona quando a energia, o propósito e a intenção estão alinhados com as mudanças e efeitos esperados. Mago ou não, Paulo Coelho é um alquimista das palavras.

Sobre o autor – Fernando Morais nasceu em Mariana (MG) em 1946. É jornalista desde 1961. Trabalhou nas redações do Jornal da Tarde, de Veja, da Folha de São Paulo e da TV Cultura. Recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo. Foi deputado estadual durante oito anos (pelo MDB-SP e depois pelo PMDB-SP) e secretário da Cultura (1988-1991) e da Educação (1991-1993) do Estado de São Paulo. É autor dos roteiros das minisséries documentais Brasil 500 anos e Cinco dias que abalaram o Brasil, exibidas pelo canal GNT/Globosat.

Escreveu entre outros livros, Transamazônica (Brasiliense, 1970, com Ricardo Gontijo e Alfredo Rizutti), A Ilha (Alfa-Omega, 1975, reeditado pela Companhia das Letras em 2001), Olga (Alfa-Omega, 1985, reeditado pela Companhia das Letras em 1993), Chatô, o rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), Corações sujos (Companhia das Letras, 2000), Cem quilos de ouro (Companhia das Letras, 2002), Na toca dos leões (Planeta, 2004) e Montenegro (Planeta, 2006). Tem livros traduzidos em dezenove países. Em 2001 Corações sujos recebeu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não-ficção. Em 2004 Olga foi transformado em filme pelo diretor Jayme Monjardim, tendo sido visto por mais de 5 milhões de espectadores e indicado para representar o país no Oscar de 2005. É membro do Conselho Político do jornal Brasil de Fato e do Conselho Superior da Telesur, TV pública latino-americana sediada em Caracas, Venezuela. É membro da Academia Marianense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 13, que teve como primeiro titular o presidente Tancredo Neves.

Além do Brasil, O Mago está sendo publicado em mais trinta países.



Sobre o escritor – Consagrado no Brasil e no mundo, Paulo Coelho tem sua obra publicada em mais de 150 países e traduzida em 71 idiomas. Entre seus maiores sucessos estão O alquimista, considerado o livro brasileiro mais vendido de todos os tempos, e O diário de um mago.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1947, trabalhou como diretor e autor de teatro, jornalista e compositor, antes de se dedicar à literatura. Suas parcerias musicais com o legendário Raul Seixas resultaram em clássicos do rock brasileiro.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2002, ocupa a cadeira 21. É casado, desde 1979, com a artista plástica Christina Oiticica.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

2 comentários:

  1. Oi Ben.
    Eu tive o prazer de ler dois livros do Paulo, e gostei demais. Pra mim ele é um grande escritor, um cara muito inteligente e acho muito justo e merecido o seu sucesso. Não sou fã, pois não acompanho de perto sua carreira e nem mesmo li todos os seus livros. Mesmo assim sou uma admiradora de seu trabalho.
    Abraço.
    www.docesletras.com.br

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    Respostas
    1. Oi, Lia!
      Muito obrigado pelo comentário. Paulo Coelho é um intelectual, embora tentem pintá-lo como se não fosse. Acredito que há públicos para todos os tipos de livros. Também gosto das obras dele. Há sempre algo a aprender.
      Abraços

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