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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

Vidas, Comparações e Ressentimentos

Comparações são perigosas. Universos e pessoas não são iguais. Duas pessoas podem ter origens semelhantes e destinos parecidos, porém cada um sabe a dor e a glória que experimentou.


Há quem encontre conforto na comparação, buscando um modo rápido de encontrar respostas para dilemas, como se toda experiência pudesse levar ao mesmo caminho. Jornadas são individuais. Duas cantoras com vozes semelhantes podem ter destinos completamente distintos: enquanto uma conquistou a fama, a outra trilhou a estrada da anonimidade.

Propósitos são poderosos. Cada ser humano é responsável por encontrar aquilo que faz sua alma vibrar. Assustador, né? A pressão pode ser devastadora para alguns e trilhar o próprio caminho parece bobeira; o imprevisível nos faz tremer. Por que ser você mesmo quando você pode ter uma vida tranquila como a do Fulano? Normal, sucesso, felicidade, sonho, propósito, paz, amor – no final, palavras têm pesos, muitas vezes, insuportáveis e podem ser venenosas. Em um mundo de espelhos invertidos, nada é o que parece ser.

O que é verdadeiro? Há quem se refugie na dor, como se a existência fosse um eterno processo de quebras contínuas; há quem veja luz mesmo na escuridão. Quem poderá dizer o que é certo ou errado, ruim ou bom? Por trás das ilusões, temos que fazer escolhas. Viver é um eterno tatear no escuro. Dizer que Fulano deveria ser igual a Beltrano só não é injusto, como é impossível – mesmo se Beltrano tivesse a chance de viver duas ou mais vezes a mesma vida, os resultados jamais seriam os mesmos, ainda que ele guardasse um roteiro de todas as ações que devesse tomar. Mesmo sabendo isso, aprendemos desde cedo a comparar coisas, pessoas, vidas e persistimos mesmo diante da morte. Um jogo de expectativas, frustrações e realizações: ressentir-se de tudo o que foi e nunca se realizou, nunca se realizará ou nunca terá a chance de repetir. No instante em que a tinta escorre pelo papel, nada será igual; tudo muda e não há muito o que fazer.

Negação ou conformismo? Aceitar as coisas como elas são significa reconhecer. Livrar o outro do laço da comparação, mesmo que ele tenha construído uma casa de espelhos quebrados de diferentes tamanhos para ti. Tolice é se esquecer que a cada respiração, momentos se transformam e jamais serão recriados igualmente. Nem mesmo as memórias são confiáveis: nossas mentes são como contadoras de histórias que, independente de decorarem as falas, sempre mudam uma coisa ou outra no processo.


Aceitou as próprias rupturas e vitórias, sabendo que nada seria igual àquele momento. Encostou a cabeça no travesseiro, entre lágrimas e sussurros: a existência por si só deveria ser suficiente. O resto era ilusão. Negou-se o direito de se comparar, mesmo com aquele corpo, as próprias vidas passadas e universos paralelos. O papel chegaria ao final; a tinta seria insuficiente. Há coisas que queremos questionar, mas qual é a validade? Limpar a mente não era uma forma de negar ou afirmar, mas de aceitar o labirinto da vida que se estendia para todos os outros planos. Linhas não eram 100% retas e suas reproduções enganavam os olhos, mas nunca o coração. Comparações eram, são e sempre serão um método de tortura, mesmo quando não nos damos conta disso. Nos  momentos em que escrevo o texto, durante e depois, a cada vez que o ar circula dentro de mim, fui me transformando. Talvez na superfície, gostamos de criar a ilusão da continuidade, mas se a comparação de si mesmo já seria desleal, por que insistir na comparação com pessoas completamente diferentes? E talvez o leitor, ao ler esse texto, possa ter percebido que seus fragmentos dançaram a cada linha. Movimentos imperceptíveis ou invisíveis. Mesmo quando não enxergamos, a magia acontece dentro de cada um de nós. Respirar, muitas vezes, é suficiente.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

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