quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Café Morno


O café esfriou em minhas mãos enquanto eu pensava em tudo o que havíamos feito para estar lá. Era para ser uma lua de mel. Não era assim que acontecia nos filmes? Estávamos no outro continente, cercado de milhares de turistas sonhadores e cidadãos incomodados com os casais apaixonados que andavam pelas ruas. Assim como o café, nosso beijo estava morno. Não havia uma fagulha que fosse capaz de dar vida para aquele momento. Éramos dois estrangeiros de nós mesmos. De repente, tudo o que eu conseguia observar era a tristeza nos relacionamentos. Serendipidade. Do amor em tudo, passei a ver a desilusão e uma vez que conseguimos levantar o véu, não dá para fingir que não estamos vendo. Eu queria voltar ao momento em que nós dois éramos ingenuamente felizes e não sabíamos. Eu queria congelar aquele instante e deixar de ser o escritor que insiste em querer contar uma história que todos sabem o final. Para onde tinha ido aquele fenômeno da suspensão de crenças, aquela sensação de que o universo vai tomar conta de nós? Não era amor, repeti as palavras como se fosse um mantra. Você queria algo que eu não poderia te oferecer. Queria que eu te fizesse sentir tudo aquilo que você foi incapaz de me oferecer. Por que insistimos nessa mania de cobrar dos outros aquilo que não podemos fazer? Sua projeção me fez parecer um monstro quando tudo o que eu mais tentei fazer foi te levar ao paraíso. Dizem que a maneira que os outros nos veem é só um reflexo do seu olhar. Desta vez eu não podia discordar. Você me pintou como tudo aquilo que você tanto carregou no seu íntimo. Todas as narrativas pela metade, os olhares de julgamento, os teatros do dia a dia. Você queria um amor que fosse perfeito, sem se dar conta de todas as imperfeições da vida. Não foram as expectativas que nos mataram. Foi essa sua mania de achar que o universo foi construído para você, de que de alguma forma existe uma razão lógica para tudo, como se as pessoas fossem personagens de livros e pudéssemos brincar com seus destinos, como um escritor cruel. Se não há amor, que haja sangue. Assim você foi matando o nosso amor. A cada facada nas costas, eu engoli o sangue e me deixei viciar por esse gosto metálico. Você pegou os meus sonhos como se fossem borboletas e arrancou suas asas sem piedade. Dizem que todos nós carregamos tesouros. Você me fez sentir como uma peça descartável, daquelas que qualquer um pode comprar e desapegar. Uma vez que os brilhos se afastaram dos seus olhos, tudo o que restou para mim foi a culpa. Carregar em minhas costas tudo aquilo que você nunca pôde me oferecer. Preferia ter a língua queimada pelo café quente a continuar tomando essa bebida que envenenava e gelava minha alma. Paris nunca foi tão cinza. Nosso relacionamento nunca esteve tão morto. Joguei o café fora e descansei em paz.

Texto publicado originalmente no Sweek

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

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