segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Conto: Destino Entrelaçado – Ben Oliveira

Era tarde quando ele se viu confrontado com o seu medo mais assustador. Ela estava separada dele por alguns centímetros e se não fosse pelo vidro, a criatura encostaria suas patas peludas nele. Só de imaginá-la encostando em sua pele, ele sentiu um arrepio percorrer o seu corpo, os braços coçando e o sangue gelar em suas veias.


Ele respirou com calma. Odiava quando os vizinhos estacionavam seus automóveis tão próximos que para sair, ele precisava manobrar lentamente o seu veículo. Somente quando já não sofria o risco de bater o carro, ele a viu. O que fazer? Os pensamentos se agitaram na mente dele. Por pouco, a aranha não estaria ao seu lado. Ele estava dentro do carro e o vidro estava aberto. De súbito surgiu a ideia de ligar o ar-condicionado e ele fechou a janela, adicionando uma barreira entre os dois.

Agora ele entendia como se sentiam aqueles personagens de filmes e desenhos quando estavam sendo perseguidos por vilões que grudavam no carro e não saíam facilmente. Ele tentou acelerar, numa tentativa de arremessá-la para longe, mas não conseguia. Suas patas estavam bem presas à lataria e pelo jeito que ela agia, era como se ela deixasse claro que não o deixaria em paz tão cedo.

A cada vez que ele olhava para a aranha, o desespero aumentava. Mesmo sabendo que a janela estava bem fechada e que não havia chance da criatura entrar, ele temia ao observá-la mexendo suas patas de que alguma forma ela desse um jeito de atravessar o vidro. Ele sabia que seu medo era irracional, mas não podia evitar. Não conseguiria ficar tranquilo até que se visse livre dela. Era como se a criatura o observasse com aqueles oito olhos escuros e hipnóticos.

Com os carros a sua frente, atrás, ao lado, ele temeu que pudesse se envolver em um acidente. Olhou para o banco e encontrou um papel com a propaganda de algum produto que ele jamais compraria. Após enrolar, ele segurou firme em suas mãos e aproveitou que o sinal estava vermelho para tomar uma atitude que o faria pensar duas vezes depois.

Abriu a janela lentamente, como se temesse que a aranha pudesse saltar para dentro do carro e com precisão a atingiu uma, duas, três vezes, até que ela desgrudasse da porta e gritou:

– Morre, maldita! – O coração dele acelerou mais rápido do que o carro, enquanto uma sensação de alívio se misturava à adrenalina que circulava por suas veias. Sentiu-se livre do medo que o aprisionava e o fazia se sentir pequeno e frágil como uma mosca prestes a ser devorada por uma aranha.

A aranha já não estava ali mais perto para aterrorizá-lo, mas ele se sentia estranho. Lembrou-se de uma pontada que sentiu no dedo ao abrir a porta. Um ponto vermelho. Não era nenhuma daquelas enormes feridas e tecidos mortos que via nas imagens da internet. Ainda assim, só de imaginar que ela pudesse tê-lo picado, o fez ficar se perguntando se a criatura era venenosa o suficiente para precisar ir ao hospital à procura de tratamento ou se sua mão seria devorada pela substância, até que seria preciso amputá-la.

***

As horas passaram voando. Quando ele chegou a casa, mal se lembrava do que havia acontecido. Ligou o computador e foi ler o site de notícias. Sentiu o estômago apertar quando viu uma matéria sobre uma aranha gigante com patas de 30 centímetros. É só uma coincidência, ele repetiu várias vezes. Só de ver a imagem da criatura de pelos marrons e do tamanho de um filhote de cachorro, seus joelhos tremeram.

Ver a foto da aranha o lembrou da criatura que havia visto naquela mesma tarde. Ele ouviu um barulho na janela do quarto e quase soltou um grito. Ficou mais calmo quando percebeu que era uma barata tentando entrar. O inseto andava de um lado para o outro, tentando de qualquer jeito passar por alguma entrada mínima que fosse. Fazia um calor infernal do lado de fora e ela parecia querer desfrutar da temperatura agradável criada pelo ar-condicionado.

– Qual é o problema de vocês? O que vocês querem comigo? – Ele gritou, como se os bichos pudessem entendê-lo. Só queria um minuto de paz, longe de qualquer ser cheio de patas nojentas.

De repente, ele ouviu outro barulho. Podia jurar que era um grito de agonia, abafado pelo impacto de algo sendo arremessado contra a janela de vidro, como se alguém tivesse acertado uma pedra na barata. Ele ligou a luz e quando sua visão focalizou o que acontecia, ele viu uma aranha com as patas envolvendo o inseto. Ela tentava injetar o veneno no inseto, que de um segundo para o outro parou de se debater.

A natureza é terrível, pensou ele. Não simpatizava nem um pouco com baratas, aranhas, escorpiões, qualquer criatura, não importava se era venenosa ou não. Sentia agonia de imaginar aquelas patas passando pelo seu corpo. Não entendia porque algumas pessoas tinham dó de matar os bichos. Ele preferia usar o sapato e esmagá-las com força, com medo de que o ser sobrevivesse e se vingasse dele.

Distraído com o espetáculo da janela, ele não se deu conta da aranha gigante que se aproximava dele, como a que tinha visto na notícia, até que fosse tarde demais. Tentou se beliscar para acordar, pois tudo aquilo só podia ser um pesadelo. Antes que pudesse raciocinar, ele sentiu o ferrão. O susto foi tão grande que combinado à dor o fizeram enxergar tudo escuro e, então, apagar.

***

Algumas horas depois, quando finalmente acordou, ele se sentiu imobilizado. O oxigênio faltava nos pulmões, era como se estivesse dentro de uma caixa fechada. Ele tentou se mexer com dificuldade. Seu nojo era grande, mas a vontade de lutar pela própria vida era maior.

Sua visão não funcionava direito. Tudo parecia confuso, como se seus olhos fossem lentes borradas. Mesmo sem enxergar, ele podia sentir algo se movimentando. As teias vibravam ao seu redor, era como escutar uma melodia. Sentia-se fora de si, até que escutou um grito inumano.

Alguma coisa corria ao redor do quarto em desespero. Ele olhou para um espelho que tinha no quarto, e notou que havia um humano se movimentando, enquanto uma criatura peluda observava a si mesma com tranquilidade no próprio reflexo. Aquilo não podia ser verdade, pensou ele, ao se dar conta de que havia se transformado numa aranha. Tentou observar o próprio corpo, mas tudo o que viu foram suas patas inquietas. O instinto de atacar o homem era forte e ele não podia se controlar.

Quando sentiu a pele queimando, ele gritou e por fim, acordou.

O homem olhou para o braço e viu uma ferida vermelha se espalhando. Fez força para não desmaiar novamente. Para todos os cantos que ele olhava do quarto, via teias. Aquilo era pior do que um sonho ruim. Era uma realidade louca que ele nunca imaginou que fosse enfrentar um dia.

Sentiu vontade de gritar, mas as teias grossas cobriam sua boca. Ele coçou os olhos. Havia tantas aranhas no quarto e uma delas, a pequena, ele se lembrava dela de algum lugar. Era a mesma criatura que o havia perseguido no carro, aquela que ele se arrependeu de não ter esmagado, pois sabia que só derrubá-la não era suficiente para matá-la. Naquele instante, com exceção da dor que consumia suas energias e do veneno que queimava pelas suas veias, ele já não sabia o que era real ou alucinação. Antes que o seu coração parasse de bater de vez, ele pensou que existia um inferno, aquele deveria ser o dele. Então, os últimos sons que ele escutou foram:

– Foi ele, mamãe. Ele que tentou me matar.

– Eu já te falei para não me chamar de mãe.

Após a maior aranha resmungar mais algumas coisas, que naquele instante não faziam o mínimo sentido para o homem que julgava estar sob efeito de algum alucinógeno, ela prosseguiu:

– Não se preocupe, minha querida. Já dei conta dele. Esse homem malvado nunca mais vai incomodar você ou nenhuma de nós. – As aranhas se agitaram, provocando ruídos aterrorizantes, como se elas estivessem comemorando. – Eles acham que gostamos só de pequenos pássaros. Não imaginam o quanto eles são mais deliciosos. Mas, lembrem-se, temos que ser espertas e pegar um de cada vez, para não levantarmos suspeitas. Já bastam suas primas, que causaram maior pânico na Índia, matando os moradores de um vilarejo.

– Sim, mamãe – responderam centenas de aranhas ao mesmo tempo, ocupando todo o quarto. Em seguida, elas começaram a rir e assistiram a mãe sugar cada gota de vida do humano, até que ele se tornasse um saco de pele vazio e frágil.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

2 comentários:

  1. Meu. Deus!!!! Eu não tenho medo de aranhas, mas essa foi meio assustadora. Eu quase sufoquei de agonia, imaginando a cena. Ben, você tem uma capacidade incrível de fazer a gente se colocar no lugar da personagem, eu admiro muito isso!!

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    1. Adoro seus comentários! Me incentivam sempre a continuar escrevendo. Fico muito feliz em ter conseguido te transportar para a cena ♥ Não sou nem um pouco fã de aranhas haha Acho que esse conto expressa bem como eu me sentiria.

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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