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Uma dose diária de poesia, por favor

Uma dose diária de poesia, por favor. É uma das coisas que eu penso todos dias há algumas semanas. Me alimentar de literatura pelo simples prazer de ver os escritores brincando com as palavras. Poesia era algo que o lembrava de tempos antigos, algo que despertava nostalgia. Era quando estava lendo que memórias saltavam na mente e se transportava para outros lugares. Era no prazer de ver o autor usar as palavras de diferentes formas que encontrava algo que reconectava a alma. Dia após dia, ia se alimentando de poesia. Dia após dia, ia sentindo os efeitos colaterais, como o coração acelerado ou uma visão borrada.  Lia na esperança de manter viva a chama da escrita dentro de si. Lia para conhecer outros autores. Lia para que nenhuma escrita fosse em vão. Lia.  *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escritpa Maldita , p ublicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano:  O Círculo (Vol.1)  e  O...

O dia em que a professora chorou

Ela acordou pela manhã, tomou um banho de água gelada, comeu seu pão, bebeu café, deu um beijo nas duas filhas, abraçou o marido e saiu de casa. Todos os dias ela repetia as mesmas coisas. Não importava se estava com dor no corpo, enxaqueca, cansada ou triste. Ela amava o seu trabalho.


Ainda era cedo quando ela chegou à escola e entrou na sala dos professores. Ninguém podia imaginar a notícia que escutariam e como ela afetaria a jovem professora. A prefeitura atrasaria mais uma vez o pagamento.

– Assim não é possível! – berrou um dos professores.

– Eles acham que não temos contar para pagar? – lamentou outra.

– Precisamos fazer uma greve. Não podemos ficar de braços cruzados.

Ela só escutava. Remoía aquelas palavras dentro de si. Nada acertado, ela foi para a sala de aula.

– Bom dia, professora! – disse uma das alunas.

– Bom dia, minha querida!

A aula passou voando. Quando se deu conta, já estava na hora da chamada. 37 nomes. Ela dizia cada um dos nomes com toda paciência do mundo.

Quando chegou em casa, ela ligou a televisão e viu uma notícia sobre professores que ameaçavam entrar em greve. O prefeito alertava sobre os salários serem maiores do que as médias dos outros estados. Ela quase vomitou ao escutar aquilo. Trabalhava de manhã, à tarde e o pouco tempo que tinha durante a noite, ela preparava as aulas da semana. Era um trabalho que nunca acabava.

No outro dia, ela fez as mesmas coisas em casa e foi ao trabalho. Os outros professores falaram novamente na greve. Ela pensou nos alunos, nas aulas que precisaria repor, na importância da educação.

Os outros professores a viram indo para a sala de aula.

– Você não vem?

– E os meus alunos? A diretora não vai gostar nada disso.

– Pois ela que nos pague logo, então.

A professora foi para a sala e logo foi recebida com uma série de perguntas.

– Professora, vai ter aula hoje?

– O que é a tal da greve?

– É verdade que você está com preguiça de dar aula?

– Meus pais falaram que você ganha melhor do que eles e estavam reclamando. Por que?

Ela olhou para os alunos. Não sabia por onde começar a responder. Tantas dúvidas, tantas preocupações. O salário do marido não seria suficiente para pagar as contas. Pensou em como a família teria que comer menos para sobreviver. Pensou em tudo, menos nas respostas.

Uma vontade de sair correndo a devorou. As lágrimas quentes lutavam pelo rosto; a garganta apertada; a dor no peito. Ela pegou as coisas e saiu o mais rápido que podia.

A diretora entrou na sala e se surpreendeu com a ausência da professora. Ela era uma das suas melhores funcionárias, fazia chuva ou sol, frio ou calor.

– Onde está a professora?

– A professora faltou! – gritaram os alunos ao mesmo tempo.

Ela sabia que se não fosse lutar pelos seus direitos seria incapaz de ensinar os seus alunos. Não era só uma questão de dinheiro. Ela se lembrou dos adolescentes que se inspiravam e tinham um carinho grande por ela, seus ensinamentos iam além da sala de aula. Naquele dia, ela preferiu reprovar diante dos olhos da diretora. Ela tinha mais uma aula para dar, uma aula sobre a vida.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad. 

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