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Destaques

Ressignificar dia após dia

A linha era tênue entre a verdade e a autoficção, mas a literatura era um espaço para criar e não tinha compromisso com a realidade. Como tinta invisível, personagens às vezes se misturam e podem confundir. Um personagem pode ser vários e a graça não está em descobrir quem é quem, mas de aproveitar a leitura. Escrever em blog poderia não ser a mesma coisa do que escrever um livro de ficção ou de memórias, mas a verdade era que acabava servindo para as duas coisas. Às vezes o passado estava no passado. Às vezes o presente apontava para o futuro. Mas nunca dá para saber sobre quem se está escrevendo e há beleza nisso. A beleza de que personagens não eram pessoas, de que não precisava contar a verdade sempre, que às vezes quatro personagens poderiam se tornar um. Saber quem é quem parecia o menos importante, mas apreciar a beleza das entrelinhas. Ia escrevendo como uma forma de esvaziar a mente e o coração, sentindo o corpo mais leve. Escrevia e continuaria escrevendo sempre que sentisse ...

A Caixa de Vidro

O dia em que a caixa de vidro descobriu que não era tão frágil como imaginava e talvez fosse preciso algo maior para danificá-la. Passada de mão em mão, se viu tremer a cada movimento, temendo que alguém fosse deixá-la cair ou trincar por conta das frustrações.

Não era tão sensível quanto imaginava. Não se deixaria levar pela ansiedade que sempre sussurrava coisas ruins ao seu ouvido. Não, no final da história, a caixa de vidro permaneceu inteira e quem sabe havia criado mais espaço para novas histórias.

O medo de se deixar quebrar havia desaparecido lentamente. Não se sentia completamente seguro, mas agora sabia que não ia quebrar tão fácil e se mergulhara em uma onda de caos, capaz de tirá-lo temporariamente a sanidade e o jogado em um mundo onde nada parecia ser o que era.

Pensou em quanto tempo havia ensaiado até o momento. O que para alguns parecia fácil, para ele parecia algo de outro mundo: fazer contato com alguém e se permitir baixar a guarda, revelando toda sua transparência incapaz de esconder. Levara três anos até aquele momento, optando pela reclusão com medo de que ninguém fosse querer alguém como ele era.

O fato de não ter quebrado na primeira vez não significava que não poderia vir a quebrar no futuro. Mas estava cansada de pensar no passado e mais exausta ainda de pensar nos medos irracionais, estava disposta a seguir em frente, na esperança de que alguém a segurasse com intensidade e cuidado, sabendo que não iria trincá-la.

Foi somente ao abrir sobre suas vulnerabilidades que entendeu que não deveria ser a única a escolher, que mesmo estando em um cenário de limitações e restrições, que não poderia fazer a escolha pelo outro e se fechar, como se nada tivesse acontecido.

Não, os dias passaram e longe de criar expectativas irreais, entendeu que talvez a caixa não fosse tão assustadora para o outro, que não precisava proteger o outro de si mesmo. Foi entre lições aprendidas que a caixa seguia firme e forte. 

Estaria mentindo se dissesse que o medo havia desaparecido, mas talvez um dia encontrasse alguém que fosse capaz de segurá-la de maneira acolhedora e soubesse que embora não tivesse controle de quando a tempestade viria, estaria ao seu lado para entender e manter a caixa de vidro grudada por uma cola que tornasse mais difícil de quebrar. 

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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