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Destaques

Desconhecer

 “Vamos nos Desconhecer”. Você respondia não e dizia que era uma ideia ruim. Mas o tempo foi mais forte e quando menos nos demos conta, estávamos em um processo de afastamento e encerramento de ciclo. Não responder também era uma reposta. Não perguntar sobre como o outro estava. Não aceitar os limites do outro. Não entender que estava tudo bem discordar e continuar conversando. A verdade é que a permanência de ninguém está em nossas mãos. Não temos controle sobre quem vai, quem fica, mas podemos lembrar de ao menos termos tentado e as coisas não darem certas. Olhando assim, talvez até parecia que só havia uma tragédia. Mas a verdade era que aprendera com o outro, coisas úteis e também aprendera como não queria ser. Escrevia como uma forma de colocar o luto para fora. Escrevia como quem sabia desde o começo: um dia iríamos nos desconhecer, e não seria uma questão só de escolher, e sim de como a vida era. Havia me deixado mal acostumado. Sempre achando que estaria disponível. Até que...

Mesma língua

Estar com alguém que falava a mesma língua era algo tão importante, que ele só se dava conta quando encontrava o oposto do esperado. Se sentia um alienígena tentando fazer contato pela primeira vez, sabendo que havia um preço a se pagar se falhasse.

A mente girava e um desconforto subia dos pés à cabeça. Frustração, essa era a palavra que estava procurando para definir o que havia sentido, sentia e sentiria, quase como se estar em sintonia fosse um milagre inalcançável, que exigia uma fé que ele não sentia.

Era assim sempre que os dedos deslizavam pelo teclado e desistia de enviar uma mensagem. Era assim sempre que recebia uma mensagem nova, como se encarasse algo indecifrável. Era como se os dois estivessem condenados, em uma espécie de maldição da linguagem, capaz de aterrorizar quem testemunhasse.

A mente buscava por um consenso, mas as palavras e as atitudes eram tão diferentes que causavam uma série de nós nos pensamentos. De repente, já nem sabia como reagir e encontrava acolhimento no silêncio, ciente de que os dois falavam monólogos paralelos para si mesmos e não havia um fio vermelho que os conectavam.

Perguntava-se se chegaria o dia em que estariam na mesma página, da mesma história e as duas línguas se tornassem uma só, em uma dança espelhada, na qual a ansiedade cedia espaço para a tranquilidade e os dois deixassem de falar sozinhos. Uma espera que não sabia se valia a pena.

Talvez aceitar que as diferenças nunca seriam sobrepostas não era só uma maneira de estabelecer limites, mas de também ter empatia e compaixão pelo outro. Parar de lutar contra as diferenças e aceitar que sempre seriam assim, talvez era tudo o que precisava. Estavam destinados a não se encontrarem e a dor que os dois sentiam, em breve sumiria.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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