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Destaques

Desconhecer

 “Vamos nos Desconhecer”. Você respondia não e dizia que era uma ideia ruim. Mas o tempo foi mais forte e quando menos nos demos conta, estávamos em um processo de afastamento e encerramento de ciclo. Não responder também era uma reposta. Não perguntar sobre como o outro estava. Não aceitar os limites do outro. Não entender que estava tudo bem discordar e continuar conversando. A verdade é que a permanência de ninguém está em nossas mãos. Não temos controle sobre quem vai, quem fica, mas podemos lembrar de ao menos termos tentado e as coisas não darem certas. Olhando assim, talvez até parecia que só havia uma tragédia. Mas a verdade era que aprendera com o outro, coisas úteis e também aprendera como não queria ser. Escrevia como uma forma de colocar o luto para fora. Escrevia como quem sabia desde o começo: um dia iríamos nos desconhecer, e não seria uma questão só de escolher, e sim de como a vida era. Havia me deixado mal acostumado. Sempre achando que estaria disponível. Até que...

Desintoxicar

Quantos dias são necessários para limpar a mente após tanto tempo escutando reclamações e problemas? Era uma pergunta que não sabia a resposta, mas estava ansioso para descobrir. A verdade era que estava preso em um relacionamento nada saudável e só se dera conta tarde demais, quando as coisas já não tinham volta e não se arrependia disso.

A paz que vem de dentro de nós deveria ser celebrada com mais frequência. Muitas vezes, a onda de pensamentos negativos pode nos tirar o chão e cabe a cada um de nós tentar se reerguer lentamente. Muito se fala sobre a importância de ter empatia e compaixão pelo outro, mas nem tanto se fala quando seus limites são ultrapassados diariamente, até chegar a um ponto de exaustão emocional do qual você não quer voltar para o lugar anterior.

Queria se desintoxicar. Deixar tudo o que estava fora do controle sair para fora da mente, todo aquele lixo emocional produzido pelo outro que nunca se responsabilizava, sempre criava mais problemas e ainda fazia questão de compartilhar.

Uma estranha sensação de leveza tomou conta de si nos primeiros dias. Estava tão acostumado a carregar o peso do outro, que mal tinha noção de como seus dias eram preenchidos com leveza. Não sabia como havia chegado ao ponto de não retorno, tudo o que sabia era que uma vez que tomava uma decisão cumpriria à risca.

Foi, então, sentindo o próprio corpo, deixando o ar e entrar e sair e tentando colocar para fora tudo aquilo que não o servia mais. Dia após dia, torcendo para que não sobrasse na memória nenhum problema que não era seu, buscando apreciar a paz e deixar para trás o que não fazia mais propósito. 

O fim abria a porta para o novo e quem sabe algum dia encontraria um relacionamento mais saudável para preencher aquele espaço. Sem despedidas, sem palavras, foi simplesmente devolvendo ao outro o barulho que era dele e voltando a encarar o silêncio que poderia preencher com paz.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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