quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Resenha: A arte de fazer um jornal diário – Ricardo Noblat

No livro A arte de fazer um jornal diário, o jornalista Ricardo Noblat, começa narrando uma história entre um cidadão e um jornalista. Nesta história, o cidadão questiona o porquê dos jornais serem tão parecidos e o quê os jornais fazem para conquistar um maior número de leitores jovens. O jornalista então responde: “Não fazem muita coisa“, fazendo o cidadão acreditar na futura falta de leitores e conseqüente fim dos jornais.

Ao longo do livro, Noblat, põe em discussão e reflexão, qual será o futuro dos jornais. Para o autor, os donos dos jornais são considerados péssimos administradores e os jornalistas os culpados pelo baixo interesse dos leitores pelo conteúdo e assuntos abordados, pois este meio de comunicação de massa deveria publicar mais matérias de preferência dos leitores e não somente conteúdos que os jornalistas considerem interessante.

O futuro do jornalismo impresso está em risco, basta observar os dados citados no livro, da diminuição do número de leitores e de circulação dos principais jornais no mundo. No Brasil, os desafios são: o custo do jornal, o tamanho dos jornais e a qualidade dos jornais. O conservadorismo é alto e se os jornais não tiverem seu modelo transformado, o desinteresse pela mídia impressa acarretará na sua extinção.

Além de falar sobre a necessidade de um jornalismo mais dinâmico e interativo, Ricardo Noblat, com mais de 35 anos de experiência na área, aborda reflexões sobre ética, valores e vida privada. A ética é fundamental para o bom jornalismo e o autor é crítico ao afirmar que o jornalista Tim Lopes foi inconseqüente ao documentar um assunto que era de interesse público, mas que foi documentada de forma “errada e irresponsável”. O fato do profissional de jornalismo servir o público, não faz com que ele tenha autonomia para ultrapassar os limites éticos, como roubo de documentos, mentiras e gravação de conversas sem autorização.

A rispidez com que alguns assuntos são tratados é exagerada, como na parte do livro que Noblat diz ter dois filhos que estudam jornalismo e que quando eles se formarem, “eles poderão enganar os interlocutores para extrair informações e depois traí-los”.

A população sempre deu muita credibilidade ao jornalismo impresso, após a invenção da televisão, muitas pessoas preferiram obter informações através do sistema eletrônico que recebe imagens e som de forma instantânea. Todavia, como exemplificado na obra, a televisão visa lucro e compete com os outros meios de comunicação não pela importância das notícias, mas pela quantidade de audiência que tal notícia poderá conquistar. A superficialidade das notícias mostradas na televisão, contrasta da função social do jornalismo impresso.

O atual pensamento mercantil do jornal é criticado, pois atualmente as pautas estão voltadas para notícias que vendam mais. Muitos jornalistas erram ao invadir a vida particular de pessoas conhecidas. Se uma notícia não é de interesse público, não é necessário que se publique informações sobre sua vida pessoal. A competitividade da mídia está tornando o jornal impresso tão baixo quanto à televisão criticada por Noblat.

No terceiro capítulo do livro chamado: “Sobre a arte de apurar”, é explicado aos leitores a necessidade de uma boa apuração dos fatos. Os detalhes são fundamentais para as notícias e muitas vezes elas são deixadas de lado pela falta de tempo ou pressa dos jornalistas que publicarem as informações. Assim como o jornalismo necessita ser mais dinâmico, o profissional necessita adequar-se, o presente e o futuro estão em constante choque no livro.

Admitir um erro de informação do jornal é tão importante quanto à publicação de notícias, pois o interesse público deve vir antes do orgulho dos jornalistas. São poucos os jornais que admitem seus erros, no livro é citado a primeira vez que um jornal brasileiro assumiu o erro em manchete de primeira página e o prêmio ganho. São fatos assim que reforçam a credibilidade dos jornais e reconquistam a confiança dos leitores.

Todo jornalista deve escrever bem, para reforçar a tese, o quarto capítulo do livro é dedicado à “arte de escrever”. Imaginação e saber dominar o idioma, é fundamental para a profissão. Nos dias de hoje mesmo os profissionais que não produzem a matéria escrita devem saber escrever bem, os repórteres fotográficos e telejornalistas, devem estar aptos, os primeiros por muitas vezes estarem em lugares onde possam acontecer alguns fatos que venham a se tornar notícias e os repórteres televisivos pela necessidade de transmitir de forma coerente e concisa as informações.

De acordo com Ricardo Noblat, não existe uma receita certa para escrever bem. Ele acredita que para adquirir uma boa escrita é necessário que se leia muito e de tudo. As pessoas não devem ficar presas somente a leitura de assuntos que sejam de seu interesse, o jornalista deve ler livros bons e ruins. O português tem um amplo vocabulário, mas não são todas as pessoas que o utilizam, porém não se deve usar “palavras desconhecidas ou de uso pouco freqüente”, além de tornar o texto mais complexo, poderá dificultar a compreensão dos leitores, traindo a principal função do jornalista que é de transmitir informações de forma simples e que transmita essa idéia aos que estão lendo.

Outros erros freqüentes de escrita nos jornais são o uso de chavões, adjetivação (“não cabe ao jornalista emitir juízo de valor”), as redundâncias (repetição desnecessária da mesma idéia, vício de linguagem), confundir informação com opinião e a ausência da reescrita. Noblat critica o uso do lead convencional e acredita que os leads podem ser mais criativos. Para ele, o bom texto é comparado a uma caixa de lenços de papel, quando um é puxado, o outro fica no ponto de sair, ou seja, um parágrafo leva ao outro. Um texto com boa fluência é agradável e desperta o interesse do leitor do começo ao fim.

As experiências do jornalista possibilitaram que ele relatasse vários fatos ocorridos em sua vida relacionados ao jornalismo. Dessas experiências, ele dá exemplos de como o jornalismo pode melhorar e o que é esperado dos jornais.

Os leitores querem notícias novas, entretanto as notícias importantes não devem ser esquecidas. O fato de o jornal reproduzir as notícias após elas terem acontecido, diferente da rádio, televisão e internet que podem transmitir no exato momento, dá a ele a vantagem do maior aprofundamento dos assuntos. Muitas vezes as informações transmitidas nos outros meios de comunicação de massa não informam o suficiente à sociedade. Com a evolução tecnológica, a velocidade de difusão de informação aumentou consideravelmente e com isso as pessoas recebem excessivo número de informações, o que não indica que elas estão necessariamente bem informadas.

Nos dois últimos capítulos são mostradas as transformações do jornalismo. O penúltimo capítulo mostra quais as mudanças ocorridas no Correio Braziliense, jornal em que Ricardo Noblat trabalhou até novembro de 2002. O último capítulo do livro traz as principais “datas que marcaram a vida da imprensa”, desde Gutenberg com a invenção da prensa até os dias de hoje.

O livro é indicado para estudantes de jornalismo, jornalistas e pessoas com interesse no assunto. Recomendo o livro principalmente aos estudantes, pois eles farão parte do processo de transformação do jornalismo e como dito ao longo do livro, necessitam ler mais. Com “A arte de fazer um jornal diário”, Ricardo Noblat, consegue transmitir de uma forma ora crítica ora descontraída, como é a parte prática da profissão, fugindo da mesmice da maioria dos livros da área que ficam restritos somente a teoria.

A reflexão proposta no livro desperta nos futuros profissionais um pensamento crítico. Através dos exemplos e histórias contadas, os jornalistas do futuro poderão se preparar melhor para o mercado de trabalho e os jornalistas veteranos que ainda não se adequaram ao novo modelo de jornalismo impresso se conscientizarão do pedido de socorro dos jornais.

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