sexta-feira, 14 de maio de 2010

Substância encontrada na mandioca pode ser usada na cura do câncer

Entrevista realizada para o programa Rádio em Foco, transcrita por: Ben Oliveira

Confira abaixo a entrevista sobre uma pesquisa realizada na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) com a professora, doutora e pesquisadora, Marney Cereda, sobre substâncias encontradas na mandioca que podem ser utilizadas para o tratamento e a cura do câncer.

Renan Gonzaga: Como a mandioca poderá ajudar no tratamento e na cura do câncer?

Marney Cereda: Vou dividir a resposta em duas. Em primeiro lugar, toda planta de mandioca tem cianeto, nós estamos falando, na verdade, do cianeto que potencialmente pode ser gerado quando a gente come. Como toda mandioca tem cianeto, provavelmente muita gente já está sendo tratada por esta substância e não sabe. Se a gente consegue extrair e dar para a pessoa como medicamento, a cura deve ser melhor e mais rápida. A mandioca poderá ser uma planta que proporciona um tipo de remédio simples e barato para a cura do câncer.

Renan Gonzaga: Como se chegou a esta descoberta? Há quanto tempo ela está sendo estudada?

Marney Cereda: Nós ficamos sabendo deste efeito potencial através de um colega agrônomo. Ele teve uma esposa que morreu de câncer e então começou a estudar substâncias naturais que poderiam ajudar na cura do câncer. Ele encontrou uma substância que o uso já era permitido nos Estados Unidos, chamada Linamarina. Na época em que eu estava em São Paulo na UNESP, este colega deu uma palestra para um grupo de professores pesquisadores, e quem escutou as palestras foram professores da área de oncologia e de patologia. Eles acharam que a hipótese tinha fundamento bioquímico. Com esta possibilidade, eu comecei a trabalhar financiada por uma fundação do Estado de São Paulo. Em São Paulo eu consegui fazer uma série de passos que foram necessários, mas vim concluir este trabalho aqui na UCDB, dentro do mestrado de biotecnologia. Quando eu vim para cá, já tinha conhecimento que me levava a supor que ia funcionar bem. Aqui comprovei que realmente funciona.

Renan Gonzaga: Existem pesquisas semelhantes em outros lugares do Brasil?

Marney Cereda: Do Brasil, eu não sei. Provavelmente não. Mas do mundo, sim. Curiosamente, embora a mandioca seja uma planta tropical, jamais vai crescer, por exemplo, na Inglaterra, mas lá eles se interessaram pelo problema e chegaram a trabalhar em pesquisa por outro caminho. Não o caminho que nós pegamos. Eles pegaram um caminho de estrangeiro. O estrangeiro estuda a mandioca, mas não come. Eles pegaram um caminho que precisou fazer uma série de modificações para chegar mais ou menos aonde chegou. Como brasileira e sul-americana, acostumada a comer mandioca, nós fizemos um corte no caminho e conseguimos chegar num resultado melhor do ponto de vista de utilização. O produto que nós desenvolvemos é mais natural.

Renan Gonzaga: Professora, sendo otimista em relação aos resultados obtidos. A gente pode dizer que a acetona cianidrina é uma substância natural ou ela poderá ser criada em laboratório para uma possível produção industrial?

Marney Cereda: As substâncias artificalmente sintetizadas em laboratório eram todas de uma fonte natural. Quando eu preciso de uma quantidade grande, se a natureza não consegue me fornecer, eu vou ao laboratório de química e sintetizo. No caso da acetona cianidrina que é um derivado já da linamarina, ela pode ser sintetizada e já é. A acetona cianidrina é utilizada em uma série de reações químicas, mas ela pode ser extraída da mandioca também. A questão de um uso ou de outro, vai depender de quanto vai precisar como medicamento. Existe esta possibilidade: ela pode ser sintetizada ou extraída, ou pode ser consumida na forma de mandioca cozida, sempre um pouco deste cianeto vai ficar.

Renan Gonzaga: Esta pesquisa é de grande importância para a sociedade em geral. Quais são suas expectativas em relação a ela?

Marney Cereda: Eu estou muito entusiasmada. Eu não seria pesquisadora se eu não tivesse ficado entusiasmada com os resultados que nós obtivemos. O que nós conseguimos foi o primeiro degrau de uma escada. Inclusive, por falar em público, nós ficamos muito preocupados de criar uma expectativa muito grande, principalmente, nas pessoas que estão doentes. Este primeiro degrau foi testar a substância sob células tumorais de uma forma geral, seja tumor benigno ou maligno. Com isto, percebemos que há uma destruição, esta substância mata as células cancerígenas por asfixia, elas morrem por falta de ar. E apenas as células tumorais. É um caminho que as pesquisas do mundo inteiro estão procurando. São remédios menos invasivos que destroem menos as células naturais, nós estamos acostumados com tratamentos de câncer ou tumor que as pessoas perdem o cabelo, tomam remédios fortíssimos que dão enjôo, esta é uma terapia mais natural. E esse é realmente o foco de toda a pesquisa em oncologia no mundo todo. Eu fico muito feliz e muito orgulhosa, de aqui em Campo Grande, uma das capitais dos estados que mais consomem mandioca, de ter encontrado alguma coisa que nós podemos fazer uma entrevista e o ouvinte entenderá um pouco sobre o que nós estamos falando. Do ponto de vista de cultura, eu acho que é um resgate. Quem imaginaria que a mandioca poderia ser usada como um alimento funcional. É realmente uma coisa entusiasmante.

* Renan Gonzaga é acadêmico do 5º semestre de jornalismo da UCDB. 
O programa “Rádio em Foco” é produzido pelos acadêmicos de jornalismo da UCDB. Sua transmissão acontece aos domingos, às 15:30 na FM UCDB.

2 comentários:

  1. Adorei a entrevista e as informações passadas são muito relevantes, espero que ela consiga concretizar a pesquisa e descobrir a cura 'simples' e barata para o câncer, seria muito bom para os que tem e para o estado.

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  2. Realmente, essa pesquisa é muito importante para a sociedade e precisa ser divulgada para população! Abraços

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