segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Análise da ética no filme "A Montanha dos Sete Abutres"

A ética no jornalismo é muito abordada nos filmes com personagens jornalistas. Até que ponto a realidade e ficção se confundem nestas produções? Algumas histórias são baseadas em histórias reais, enquanto outras são adaptações da literatura, mas todas tocam nesta ferida jornalística, o comportamento do profissional do jornalismo diante de suas atitudes na atividade profissional.

As profissões possuem um código que norteiam os princípios e regras de conduta que os profissionais devem seguir. No jornalismo não é diferente, no Brasil contamos com o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros que existe há mais de 20 anos e sofreu mudanças em 2007. O código está dividido em 5 capítulos relacionados ao direito à informação, conduta profissional do jornalista, responsabilidade profissional do jornalista, relações profissionais e da aplicação do Código de Ética.

Análise da ética jornalística no filme ‘A montanha dos sete abutres’

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole), filme produzido e dirigido por Billy Wilder, com 111 minutos de duração e lançado em 1951, conta a história de um jornalista chamado Charlie Tatum, interpretado por Kirk Douglas. A história é baseada em um acontecimento real de 1925, em que um homem ficou preso numa caverna e a imprensa norte-americana sensacionalista transformou o caso num show, exatamente como o jornalista do filme fez com o caso.

Com a frase: “Trabalho com grandes e pequenas notícias. E se não houver notícias vou à rua e mordo um cão”, o jornalista conversa com um editor de um jornal e pede uma vaga de emprego, deixando clara a forma que este trabalha. Tatum explica que já foi demitido de 11 jornais por uma série de ações anti-éticas, como difamação, relações anti-profissionais e beber no trabalho.

O jornalista tenta a vaga no jornal de Albuquerque, pois este é pequeno comparado aos outros em que já trabalhou, e acredita ser uma forma de limpar a reputação, além de sonhar com o surgimento de uma grande matéria que o levante novamente na área profissional. O editor contou que por ser advogado, ele não tem problemas com difamações, pois esta sempre checando a veracidade das notícias. O jornalista acaba sendo contratado, decisão que parece ser a mais sensata pelo editor no começo, pois após um ano de trabalho, Tatum continua trabalhando no jornal.

Cansado de cobrir sempre as mesmas notícias e em busca de uma novidade que possa alavancar sua carreira, Tatum é convidado pelo editor para cobrir uma caça às serpentes. “Más notícias são as que mais vendem. Porque boas notícias não são notícias”, explicou o jornalista ao colega repórter. Acontece um desmoronamento e o jornalista vai junto com o outro repórter do jornal para cobrir o caso de um homem, Leo Minosa, que está preso em um lugar de instabilidade. O jornalista se passa de amigo do homem e aproveita para tirar fotografia e escrever um artigo sobre ele.

Após a notícia ser publicada no jornal, o acontecimento tornou-se um espetáculo, com direito a visitações, cobranças por número de visitas, apresentações musicais, venda de comidas, parque de diversões, ou seja, o lugar tornou-se um circo literalmente. O filme é um exemplo de como o jornalismo sensacionalista influencia as compras de jornais e a sociedade. Na visão do diretor do filme, o jornalista é visto como um construtor da “verdade”, já para os cidadãos Tatum é uma estrela, um herói, não só reconhecido pelos moradores da cidade, como pelos outros jornalistas.

Antes de conseguir realizar o seu desejo de conseguir muito dinheiro e fama, o jornalista se surpreende com a notícia da morte do soterrado por pneumonia.

No que concerne ao direito de informar defendido pelo Código de Ética Jornalística, o jornalista não é censurado em nenhum momento. Aliás, este tenta dificultar aos outros repórteres a obtenção de informações, tornando-se um amigo do xerife da cidade, do homem soterrado e de seus familiares, uma outra atitude antiética, criar vínculos com as fontes.

Quando se trata da conduta profissional do jornalista e da responsabilidade profissional do jornalista, Tatum infringe o artigo 11. do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em que se ressalta que o jornalista não pode divulgar informações visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica e a divulgação de notícias de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de acidentes.

Tatum deixa clara a sua intenção desde o começo quando procurou a redação do jornal em busca de um emprego. O jornalista precisava de uma forma de recuperar sua moral e também de ganhar dinheiro, um profissional que se preocupa mais com o dinheiro, mesmo que para isso tenha que se comportar de forma extremamente anti-ética. Enfim, para quem já tinha sido demitido onze vezes, por conta das atitudes, esta seria só mais um desvio de ética para Tatum.

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