quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Cultura, Cidadania & Jornalismo

O jornalista precisa envolver-se com a cultura e exercer sua cidadania para que possa transmitir informações que sejam importantes para o público. Não basta ao jornalista o papel somente de comunicar, mas o de contribuir com a cidadania e formação cultural. Para fazer isto, este profissional precisa em primeiro lugar ser um cidadão. Todavia, ser cidadão não significa só morar em um local. É necessário conhecer os deveres e direitos e ser participante na sociedade, de forma a melhorar a própria vida e a de outras pessoas. Como cidadãos e jornalistas temos que mobilizar a sociedade na luta pelo direito de melhores condições de vida.


Ser jornalista, principalmente no Brasil, um país rico em diversidade cultural, implica que este profissional deve conhecer mais a cultura e saber aceitar as diferenças de hábitos, costumes e identidades. A cultura é algo que está em construção, logo homem é produto e produtor da cultura. Para que o jornalista possa entender a realidade e contribuir com o desenvolvimento cultural coletivo, esse deve ter uma boa formação cultural individual.

Para explicar a importância da cultura e cidadania para o jornalista primeiro é necessário entender um pouco mais sobre esses termos que se relacionam entre si e ao jornalismo.

No livro ‘Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia’, coordenado por Sílvio Gallo,do Grupo de Estudos sobre Ensino de Filosofia, lançado em 1997, pela editora Papirus, explica-se que ser cidadão é mais do que estar localizado em uma cidade, é participar nas questões públicas. “Para ter uma participação política efetiva, os cidadãos devem se organizar para a defesa de interesses comuns, adquirindo vez e voz”, aponta o autor do livro.

Utilizando o mesmo livro como base, o autor menciona que o criador da psicanálise Sigmund Freud explicava a importância da felicidade e da cultura. Segundo Gallo, Freud dizia que a civilização humana é o que nos eleva da condição animal. “Os humanos são seres da cultura. A cultura é a morada do homem. O acesso aos bens culturais produzidos em toda a história é o que define nossa condição humana. O homem é um animal cujo maior desejo é tornar-se humano”, explica.

Daniele Canedo explica em seu artigo ‘“Cultura é o quê?” – Reflexões sobre o conceito de cultura e a atuação dos poderes públicos’ que é difícil definir cultura, já que esta é trabalhada multidisciplinariamente e a partir de diferentes enfoques e usos. A palavra cultura se originou do termo ‘colore’, que teve como significado até o século XVI, habitar, cultivar, proteger e honrar e era bastante utilizada para falar sobre o cuidado com os animais e colheitas. A autora conta que desde o final do século passado cultura ganhou um sentido mais figurado e está relacionado ao ‘esforço despendido para o desenvolvimento das faculdades humanas’, como as obras artísticas e práticas que fazem parte deste desenvolvimento. Segundo Canedo, autores como Denys Cuche e Raymond Williams apontavam que nos séculos XVIII e XIX houve uma consolidação do termo cultura nos meios intelectuais e artísticos, principalmente na França e Alemanha.

Em ‘A noção de cultura nas ciências sociais’, o autor Denys Cuche conta sobre o significado de cultura para os iluministas franceses: “A cultura, para eles, é a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela humanidade, considerada como totalidade, ao longo de sua história”. Canedo ressalta que naquela época o termo também estava relacionado às idéias de progresso, evolução, educação e razão. Já para os alemães, Cuche conta que cultura significava: “um conjunto de características artísticas, intelectuais e morais que constituem o patrimônio de uma nação, considerado como adquirido definitivamente e fundador de sua unidade”. Para Canedo, existia uma relação entre cultura e civilização, a primeira com os progressos individuais, enquanto a segunda com os progresso coletivos.

Atualmente, o termo cultura também está relacionado aos progressos coletivos. Canedo cita Roque de Barros Laraia, autor de ‘Cultura: um conceito antropológico’, que explica o significado de cultura: conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou ‘qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade’.

Um termo incorreto e visto na mídia com muita freqüência, como lembra o antropólogo José Marcos Barros, é o de se falar em levar cultura para tal lugar carente ou ausente de cultura, como as favelas. Barros conta que isso acontece devido a uma distorção de conceito e também a uma questão etnocêntrica, de pensar que tal cultura é melhor do que a outra, o que leva a uma incapacidade de lidar com as diferenças. “Cultura é tudo aquilo que é resultado da vida social, da aprendizagem, tudo aquilo que você adquire da sociedade é cultura”, define o antropólogo. É importante ao jornalista deixar de lado esta visão preconceituosa de que não existe cultura em tais comunidades e aprender que o termo não está relacionamento somente às manifestações artísticas, mas abrange diversos campos sociais. Barros ressalta que essas atitudes são excludentes, pois elimina uma série de outras manifestações, formas de pensar o mundo e os sujeitos.

“Da mídia, especialmente dos jornais, se esperam informações úteis que sirvam para seus leitores tomarem decisões consistentes e racionais”, explica o professor Doutor Ernane C. Rabelo, em seu projeto “Jornalismo e Cidadania”, apresentado à Universidade Federal de Viçosa. Uma das críticas feitas por Rabelo é a de que o jornalismo tem o papel de divulgar informações de interesse público, mas muitas vezes, por conta dos interesses financeiros, os jornalistas passam a divulgar informações que o público quer.

Para reforçar a necessidade do jornalismo como construção da cidadania, surgiu em 1980 um movimento chamado de Jornalismo Cívico ou Jornalismo Público. Rabelo cita Nelson Traquina que falava sobre a necessidade de valorizar mais as fontes não oficiais, a participação ativa do cidadão e o exercício ativo dos jornalistas na sociedade. Esse movimento, como lembra Rabelo, é uma forma de se resgatar os princípios do jornalismo nos séculos XVIII e XIX de levar informações compreensíveis aos cidadãos e que possam interferir na realidade que os cerca. Por meio do projeto, o Doutor quis ressaltar a importância do Jornalismo Cívico, contribuir com a formação dos futuros jornalistas, comprometidos com o social, o interesse público e a democratização das informações. Fatores importantes que começam a ser negligenciados pelos profissionais quando eles ainda estão estagiando, conhecem a realidade do mercado de trabalho jornalístico e levam isso para a atuação profissional. É um ciclo que precisa ser quebrado, antes que o jornalismo perca a sua importância e torne-se somente um comunicador de fatos, sem refletir.

Não dá para fazer jornalismo sem democracia, os dois são interdependentes. Em seu trabalho de conclusão de curso “Ética do Jornalismo na Visão do Profissional”, publicado em 2006, Rafael Augusto Oliveira Belo procura analisar o que é ética, por meio de questionários com perguntas objetivas e descritivas, utilizando autores, o Código de Ética Jornalística e a Constituição de 1988 como referenciais e relacionando ao ponto de vista dos jornalistas da capital sul-matogrossense.

Para o autor, se os interesses políticos e econômicos de um jornal está acima das informações de interesse público, não existe jornalismo ético, já que a ética está relacionada à liberdade, e o jornalista precisa desta para exercer seu papel social. De acordo com Belo, o jornalista está mais preocupado com a quantidade de fatos noticiados, do que com a qualidade, entendimento, contextualização e relevância das notícias para o cidadão. "Os jornalistas, então, escrevem para si mesmos, é uma competição", ressalta.  "O jornalista na incerteza e confusão pela própria sobrevivência não segue a ética, não a conhece na função. Prefere ficar e deixar os cidadãos na ignorância", relata. Para Belo, a falta de conhecimento da própria profissão faz com que os jornalistas divulguem fatos superficiais, sem relações com a realidade e que não auxiliam a sociedade. O autor ainda ressalta que os jornalistas conhecem a ética, todavia além de não ser aplicada, essa é ignorada.

Em seu artigo ‘Jornalismo, saúde e cidadania’, publicado em 2000, Bernardo Kucinski explica que o jornalismo tem sido um dos principais meios de construir a democracia e conquistar os direitos de cidadania. Kucinski argumenta que apesar do jornalismo estar ofuscado pelo entretenimento e propaganda, cabe a esse: “tarefas de informar, combater o segredo de Estado, levantar polêmicas, denunciar abusos do poder, corrupção e violação dos direitos humanos”.

Muitas vezes, os jornalistas se esquecem do seu papel com a sociedade. Quando a imprensa fecha os olhos para os cidadãos, que supostamente deveriam ser tratados com igualdade, é como se nós retrocedêssemos no tempo, em uma época em que somente os proprietários de terra eram reconhecidos como cidadãos. Cabe ao profissional a função de dar voz a todos, incentivar a democracia e educar a sociedade. A cultura também é fundamental para essa profissão que apesar de desvalorizada é uma das mais importantes para a sociedade. O jornalista tem o poder de construir, e a cultura é o reflexo do desenvolvimento humano em sociedade.

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