quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sobre Amores e Calças Jeans


Picture: Thinkstock
Uma frase que eu li hoje me fez pensar: "Quantos corações rasgados são necessários para se viver um verdadeiro amor?". Às vezes penso que este coração aqui está cansado e não vai mais aguentar um próximo round, mas a vida nos surpreende com doces paixões tão gostosas quanto aquelas balas artificiais baratas que derretem na sua boca. Amores que colorem a sua vida, deixam um cheiro gostoso pelo ar, possuem um gosto agridoce, te marcam, mas desaparecem quando você finalmente está começando a sentir algo.

Apesar de achar algumas histórias clichês e utópicas, acredito, que no fundo, de tanto ouvirmos elas serem contadas, imaginamos que poderiam acontecer conosco também. São romances mostrados em livros, novelas, seriados, filmes, músicas, propagandas... O amor se tornou um produto. Um produto que vende. Um objeto de consumo. Mas como a maioria dos produtos de grife, não são todas as pessoas que possuem condições de comprá-lo ou melhor possuí-lo. A sensação de possuir algo que você quer é muito boa, porém passageira quando o seu valor diminui após conseguí-lo.

Se o amor tornou-se um bem de consumo, elemento necessário para a nossa satisfação, nada mais justo do que compará-lo a roupas. Sabe aquela calça jeans que você se apaixonou de 300 reais?

Achar um jeans que combine com você nem sempre é uma tarefa fácil. Assim como o amor, chega um momento que você está pensando em desistir, mas então, aparece ela lá, e você não sabe dizer se é ela que está brilhando ou são seus próprios olhos. De todos os tipos existentes: skinny, cós alto, cintura alta, boca reta, boca larga, lavagem escura, entre outras, a modelagem daquela calça parece ter sido feita exatamente para o seu corpo. Mesmo não sendo um valor que você gostaria de pagar, você acredita que vale a pena e dá um jeito, afinal, "ela foi feita para você". Era como se aquela calça tivesse sido destinada para você.

Com o tempo, pouco ou muito, vai depender da sua sorte, todas as promessas que aquela vendedora fez de que a calça não mudaria de tamanho ou que ela não desbotaria começam a ser desfeitas. Você percebe que o tecido não se ajusta mais ao seu corpo como costumava e que o brilho e as cores também não são os mesmos que te faziam sentir tão confortável e satisfeito com ela.

O amor é como uma calça. Chega um momento da sua vida em que você precisa se afastar daquela roupa e por ter te feito tão bem por um tempo e custado tão caro, você acredita que apesar de não servir mais em você, ela ainda pode servir em outra pessoa. Se desfazer de algo que você tanto gostou não é simples, porém não é impossível e nem tão doloroso quanto você imaginou que poderia ser.

Os dias passam e você precisa de uma calça nova. Aquela que costumava ser sua favorita já não faz mais parte da sua vida, mas sempre tem alguma foto ou outra com ela para te lembrar daquela sensação boa que você costumava sentir com ela. Amor ou não, vocês se sentiam tão bem juntos. Passando na frente de algumas lojas, apesar de sentir que você realmente está precisando de uma nova peça de roupa, você não consegue encontrar alguma que encaixe tão bem quanto aquela costumava no seu corpo.

Quase desistindo, como sempre acontece quando você está à procura do amor, você passa na frente de um brechó. Ao entrar na loja, você vê uma estande com várias calças jeans com preços a partir de vinte reais. Muitas calças empilhadas, opções para todos os gostos e tamanhos. Cansado de tanto olhar, você pega qualquer calça e se dirige ao caixa.

– Trinta reais. – a vendedora diz para o rapaz que está na sua frente, todo alegre por ter achado uma calça que combina com ele.

A sua surpresa é enorme ao perceber que aquela era a sua calça e como ela tinha ficado tão barata. Antes que o rapaz pegue o troco dele, você devolve a peça para a pilha de roupas e percebe que não vale a pena pagar tão caro por algo que pode perder o seu valor, como aquele antigo pedaço de tecido desbotado que um dia te encantou, mas que também não compensa comprar algo tão barato para preencher a falta da outra. Sai da loja sem olhar para trás. Talvez não seja tão ruim assim ficar sem uma calça nova por uns tempos...

Leia também: Amores de Plástico

9 comentários:

  1. Impossível não se identificar com tal obra !

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  2. Parabéns, um belo texto e exemplo (;

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  3. Já desisti de calças jeans faz muito tempo, prefiro short de cetim! HAHAHAHA a troll né! mas eu ADOREI o texto, a comparação ficou muito boa. Orgulho de você, meu amigo, que está escrevendo cada vez melhor.

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  4. Brilhante... Traduz de forma bastante pós - moderna o sentimento, a velocidade da informação, a velocidade dos perfis... as pessoas se apaixonam por perfis - não por pessoas/calças jeans... Adorei a analogia... o texto ficou saboroso e de tão saboroso ficou curto, gostoso de ler... E vc kda vez mais me surpreendendo com a maneira que escreve e traduz aquilo que sentimos e poucos conseguem exteriorizar...Parabéns amigo, pelo humano sensível que é... e pelo brilhante jornalista que está se tornando...fico grato em ser teu amigo e compartilhar lindas e sábias palavras... penso da mesma forma ...um bj

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  5. adorei :) texto gostoso de ler hehe e é a pura verdade... c'est la vie!!

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  6. às vezes se espera que o amor seja como um príncipe loiro de olhos azuis montado num cavalo branco que irá resgatar a princesa ruiva de olhos como o mar, presa por um dragão no castelo mal assombrado.
    A verdade, bom, a verdade é que se espera um "par perfeito" quando deveria se esperar por um par imperfeito, que pudesse crescer junto, aconselhar, incentivar, discutir e brigar até. Mas aí, sempre pensando nesse assunto, vc logo percebe: será que esse tipo de calça serve em mim?

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  7. Muito lindo teu texto, Ben! Teu desfecho foi impecável, realmente impossível não senidentificar. lendo, me veio à cabeça Bolsa de Grife, da Vanessa da Mata. Os assuntos não são os mesmos, mas a relação é estranhamente idêntica, não sei se tu conhece a música. Enfim, que as calças nos caibam melhor, e que sejam pra sempre enquando durem (desculpa, to só clichê nesses dias...)

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