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Destaques

Autismo: Neurociências, ajustes e discussões que vão além do social

O céu de um autista pode ser o inferno do outro. Somos diferentes em todos critérios. Cada caso é um caso.



Comparar um autista como eu, que sou camaleão e tenho autonomia com um que precise de mais apoio e tenha mais limitações sensoriais não seria justo.

Eu ressalto que todo autista deve lembrar disso quando produzir conteúdo. Não adianta achar que existe um modelo único de inclusão, se ao priorizar algumas coisas, você deixa de lado outras. Por isso, abordar a questão do autismo é algo muito complexo. Da mesma forma, que não existe um personagem da ficção ou uma pessoa autista que vai representar o espectro autista inteiro.

Os ajustes que são feitos para alguns, podem ser desajustes para outros. Por isso dizemos que existem vários autismos, independente do grau.
Do mesmo modo que não existem dois autistas iguais, não existem dois aspies iguais (pessoas com Síndrome de Asperger); não existem dois aspies com superdotação iguais (pessoas com Dupla Excepcionalidade). Somos todos diferent…

Engolindo sangue, vomitando palavras


Mordeu a língua naquela manhã. Desejou engoli-la para pensar duas vezes antes de dizer as palavras que sentia. O rapaz engoliu sangue misturado com ressentimento, um gosto agridoce que invadia o seu interior. Regurgitou sentimentos, mergulhou em um rio de mágoas e se afogava em tamanha decepção.

As memórias insistiam em aparecer, mesmo quando ele tentava calá-las. Não havia nada o que pudesse fazer se não aceitar e entender que alguns acontecimentos não podem ser esquecidos e entendidos, principalmente quando sua memória fotográfica era um ótimo instrumento de tortura.

Filmes passavam na cabeça dele retomando memórias que o faziam lembrar que esta não era a primeira vez que se machucava e um pressentimento dizia que não seria a última. Toda vez que ele achava que nunca mais se entregaria novamente, o sentimento era mais forte e ele acabava cedendo. Era preciso acreditar para conseguir levantar, mas sabia em quais momentos deveria permanecer deitado. De todas as vezes em que ele tinha sangrado, nessa os cortes deixados foram os mais profundos e deixariam marcas. Cicatrizes o lembravam que nem sempre poderia seguir o seu coração, mesmo sendo uma de suas verdades: “Seguir o coração mesmo quando te leve para outros caminhos”. Bastava ser honesto consigo mesmo.

Lidar diariamente com as palavras fazia com que ele desse maior atenção e respeitasse os seus significados. Aprendera a não confundir termos, definições e sentimentos, mas sabia que nem todos tinham esse dicionário em casa. As palavras giravam em sua cabeça, frases que um dia foram ditas e não faziam o mínimo sentido. Entre contradições, acertos e erros, o rapaz vomitava palavras para expurgar a dor que o estava sufocando.

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