sábado, 5 de janeiro de 2013

Crônica Vida Encarcerada

Texto: Ben Oliveira

Diferente do que aprendemos nas aulas de Físico-Química, nas quais o professor costumava explicar como a matéria mudava de um estado físico para o outro através da mudança de temperatura e pressão, e por vezes, conseguia retornar ao seu estado inicial, nós, seres humanos, não somos tão maleáveis quanto pensamos ser.

Nos últimos dias tenho pensado muito nas transformações que nos ocorrem ao longo de nossas vidas, seja em diferentes fases de transições como adolescência, entrada na universidade e primeiro emprego, como nas mudanças que acontecem em nossos relacionamentos. Pode ser uma mudança brusca, na qual o indivíduo sublima-se de maneira tão rápida que nem mesmo percebe que já não é mais o mesmo ou a substituição gradual dos elementos que faziam parte de sua estrutura e deixam de existir.

Talvez quem você costumava ser não morre e está em algum lugar dentro de você, aprisionado, assustado com a sua nova forma e pedindo por uma oportunidade de voltar a ser como você era e como se comportava. Não importa o quanto você tente culpar os outros, o ambiente, o tempo, e nem a si mesmo, uma hora ou outra nos convertemos em um novo ser. Aliás, acredito que diariamente nos metamorfoseamos, independente de nossas próprias vontades ou do que o outro julga melhor para nós.

− Você se lembra daquela viagem que fizemos juntos no ano passado?

− Não foi no ano passado, foi há dois anos. − as palavras parecem mais assustadoras quando ditas em voz alta.

Aceitar que hoje já não somos mais o mesmo que costumávamos ser ontem deixa o processo menos doloroso, porém não imperceptível. De repente, você ouve uma música, sente um cheiro, assiste a um filme, lê um livro, lembra-se de uma viagem, e BOOM, antes que você consiga controlar, uma lágrima está correndo pelo seu rosto e os gritos que você tentou silenciar fazem com que o ar escape dos seus pulmões, vibre pelas suas pregas vocais, percorra sua laringe e exploda na sua boca.

Você está bêbado, enxergando outra dimensão, mas seu cérebro faz questão de te lembrar de algo essencial e destrutivo − as coisas nunca mais serão como costumavam ser. Você desejava não ter chorado não levar um olhar de julgamento e muito menos um de pena, e por alguns minutos a pessoa que você conhecia estava de volta, pronta para te ajudar, abraçar e fazer a dor ir embora. Não era teatro, nem alucinação. Ela estava viva, só não sabia encontrar o caminho para casa.

Então, um novo pensamento surge na sua cabeça − talvez aqui não seja mais o lar dela. Você procurou alguém que não fosse ela para culpar, pois não conseguia aceitar o fato. Não adiantava pensar naquilo. Quando o efeito da bebida finalmente passou, você enxergou que quem você acreditava ser o estado permanente dela na verdade era só um fantasma de um passado que você nunca deixou ir.

Aquela ponte com o passado era o que te mantinha vivo. Aprendeu a controlar o seu poder destrutivo sem precisar ficar longe dela. Fechou os olhos, dormiu, mas nunca se esqueceu. Não era um sonho, nem uma fantasia. A voz do fantasma encarcerado ressoava em seus ouvidos todas as noites e trazia a esperança de que algum dia aquela bruxa retornaria à vida novamente e destruiria todas as ilusões daquela fada de outro planeta.

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