Pular para o conteúdo principal

Destaques

Mais um dia de sol

Uma dose diária de sol o lembrava da importância de cuidar da saúde mental. Mas também o lembrava da importância diária do sol em sua vida, ajudando a encher de energia e despertar. Mais um dia de sol era tudo o que precisava.  Os dias de sol era o que buscava. Os tempos em que gostava do frio tinham dado lugar ao sono. Mas o sol, ele ajudava a renovar a esperança de que tudo ia ficar bem.  Depois de tantos dias de frio e sono, estava se reacostumando com os dias de sol. Quem diria que chegaria o dia que valorizaria mais os dias de calor do que os frios. A verdade era que as pessoas mudavam. Em alguns anos, tudo pode mudar. Mas há aquelas coisas que permanecem vivas em nossas vidas, aquilo que nós movia, como a escrita. Escrevia para manter o sonho vivo. Escrevia para inspirar. Escrevia e continuaria a escrever, seja frio ou calor, com preguiça ou energia. Escrevia. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escritpa Maldita , p ublicado n...

O Teatro dos Relacionamentos


Texto: Ben Oliveira

Foi numa madrugada de insônia onde as palavras e pensamentos se agitaram tanto dentro do seu estômago que a única reação esperada era uma só: decidiu vomitar um texto e com ele, suas mágoas. Trancado dentro do seu quarto e irritado com os barulhos externos, ele não conseguia parar de pensar no Teatro dos Relacionamentos.

Apreciava a arte teatral, como um daqueles espectadores que sentam na cadeira e não conseguem tirar os olhos do espetáculo por sequer um minuto. Com a mão apoiada no queixo, o rapaz fazia diferentes análises sobre os personagens, o enredo, a trilha sonora e todos os outros elementos que davam vida para aquela história. Não tinha a menor aptidão para atuar. Ele gostava mesmo era de assistir.

O que ele se sentia em relação ao teatro também era aplicado em sua vida pessoal. Nunca tentou muito agradar os outros, vestindo alguma máscara que não te pertencia. Talvez alguma vez em um passado tão distante que ele já esqueceu, mas preferia lidar com a solidão a precisar ter que atuar. Não tinha vocação para fantoche. O único momento em que deixou se levar pelas manipulações como um boneco, perdeu o resto de esperança, amor próprio e vontade de viver que carregava dentro de si.

Talvez por não precisar ser alguém que ele não era, este era o preço que carregaria até o fim de sua existência, ter um número limitado de pessoas ao seu redor. Ele sempre foi contra a quantidade, preferindo amizades sinceras, a aquelas onde é interesse é expressamente nítido. Então, deitado na cama e vítima daquela invasão sonora, as palavras reagiram como anticorpos, tentando expulsar aqueles elementos estranhos do seu organismo.

As pessoas tem uma necessidade quase doentia de se comparar umas as outras. Com ele não era diferente. Visto como frágil, antissocial, solitário, o jovem não passava de uma sombra em dia nublado. Não importava o que os outros pensavam, ele buscava ser feliz com o pouco que tinha.

Era impossível não pensar nas pessoas que aparentavam ter muitos amigos, quando, na verdade, não passavam de meros colegas. A ilusão da popularidade. Pensava-se que quanto mais pessoas alguém conhecia, mais feliz esta pessoa seria. Puro engano. O objeto de sua constante comparação não passava de alguém desesperado por atenção e afeto, incapaz de enxergar a mentira que vivia. Neste momento você descobre que por trás de tanta simpatia e facilidade de fazer novos amigos esconde-se a insegurança e o medo de ficar sozinho.

Parado em frente ao espelho, ele observava os seus olhos irritados e vermelhos, o cabelo despenteado e o rosto apático. Cansado, o jovem deixou os devaneios para os sonhos e finalmente conseguiu adormecer. Era feliz com sua aparente infelicidade. Ele não precisava receber os créditos pelo seu personagem, gostava de ser como era, um brinquedo torto. Deixou o teatro para aquelas que precisavam alimentar os seus egos. O escuro e o silêncio que muitos temiam, para ele, era o paraíso.

Mais lidas da semana