sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crônica - Festa à Fantasia


*Texto: Ben Oliveira

Dizem que no Halloween você pode ser quem quiser. Pergunto-me se a mesma afirmação é válida para uma festa à fantasia qualquer. Acredito que sim.

Tudo começa com a escolha da fantasia. Você entra em uma loja para comprar algo com que você se identifique, mas descobre que os preços são muito altos para uma roupa que será usada apenas uma vez. “Por que não alugar?”, o pensamento se passa na sua cabeça.

Então, a não ser que você já tenha ideia do que gostaria de se fantasiar, é impossível não se perder dentro de uma loja com diversas fantasias. Quando você menos espera, o seu amigo já está experimentando uma roupa na frente do espelho e realizando um dos seus desejos – se transformar no super-homem. Você e seus amigos estão rindo, tirando fotos, mas aquela preocupação sobre qual personagem escolher continua.

Você passa a mão pelos diferentes produtos e suas respectivas significações, mas nada parece ser bom o suficiente ou se adequar ao que você desejava. “Quem eu gostaria de ser amanhã à noite”, você se pergunta e o silêncio é a única resposta obtida.

– Me ajuda, não tenho a mínima ideia de qual escolher! – Você implora para os amigos.

– Tenta esta daqui – o seu melhor amigo te passa uma fantasia de Flash.

Antes de vesti-la você está rindo porque tem certeza de que ela não ficará boa em você. Escolher uma fantasia só por escolher não é desperdiçar a chance de se transformar no seu herói, vilão ou personagem favorito? No final de contos, não somos todos personagens de nossas próprias histórias – e como as pessoas o analisam define quem você é: legal, chato, bonito, feio, bom, ruim, santinho, biscate, entre tantas outras palavras utilizadas para nos descreverem?

Quando você finalmente se acostuma com a ideia de ir vestido de Flash – com aquele uniforme vermelho, falsos músculos e máscara – você descobre na hora em que vai pagar que a fantasia já estava alugada. Destino? Irresponsabilidade? Incompetência? Não importava.

– Por que você não vai de Pânico? – disse a vendedora tentando me confortar enquanto me passava uma espécie de manta preta.

– Será? – Você se pergunta em voz alta. – O que vocês acham? – pergunta para os amigos.

Cansado de procurar fantasias, você acaba optando pela do assassino Ghostface, este mesmo da série de filmes Scream, traduzida no Brasil como Pânico. Enquanto um amigo está decepcionado porque você pegou outra fantasia, o outro está satisfeito por poderem finalmente ir embora.

No dia da festa, tudo começa a fazer sentido. Talvez fantasias sejam mais do que simples escolhas aleatórias. Talvez nosso subconsciente faça parte daquele jogo dos personagens. Afinal, quantas vezes você não tinha assistido o filme e ficado fascinado com aquele assassino? Como você escolheu qualquer coisa, indicando que não estava preocupado em chamar a atenção e ser só mais um convidado na festa, escondido atrás de sua máscara?

Naquela noite, um vazio te dominou. Você era um assassino ou teria sido assassinado? A morte nem sempre é biológica. Ao encarnar um serial-killer, você estava, na verdade, dizendo que algo dentro de você havia morrido ou pior ainda, falando sobre todas as pessoas que já “morreram” diante dos seus olhos, deixando uma longa trilha de relacionamentos pelo caminho. Era como a necessidade de matar de um psicopata, não importava o quanto você se machucasse ou os outros, não tinha como parar, pois estava preso em um ciclo maldito.

O que tinha morrido? O amor? A esperança? A paz? A paciência? Não. O assassino que mata também morre e você precisava, por pelo menos um dia, ser qualquer outra pessoa.

Enquanto algumas pessoas tiram uma noite do ano para serem outras, existem aqueles que tiram a vida toda para fazerem isso. Basta fechar os olhos e perceber que aquelas roupas eram mais do que fantasias físicas e evocavam desejos, pensamentos, sentimentos.

No final da festa você descobriu que ator e personagem – fantasia e realidade – não se confundiram, e eram uma coisa só. A máscara que cobria sua máscara era sua face oculta, seus demônios e seu espírito, os quais não ousamos revelar nem para si mesmos, quem dirá para os outros.

Não importava quantas vezes a face verdadeira de alguém fosse mostrada, as pessoas acreditavam no que elas querem acreditar.

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