sábado, 9 de março de 2013

Frenesi – Preso na teia

Texto: Ben Oliveira

Hoje acordei em um estado de êxtase frenético. Antes que você, leitor, imagine qual droga nova eu tenha experimentado ou o quanto eu bebi antes de escrever este texto, já adianto que não existe um único responsável por eu estar me sentindo deste jeito. Esta não é uma história com lead, na qual onde, quando, por que e como são evidenciados, até porque essa sensação pode acabar a qualquer momento.

Há exatos seis dias, tudo começou a mudar. Era como se eu só estivesse esperando esta hora chegar, sem saber quando aconteceria. Aliás, nós nunca sabemos quando as coisas boas da vida estão para surgir, elas são como aquela aranha que está tecendo sua teia e descendo com agilidade em sua direção. Quando você menos espera, aquela criatura peluda está na direção dos seus olhos – ou você grita e corre ou fica paralisado, mas nunca fica indiferente ao que aconteceu.

Você não sabe quais são as reais intenções da aranha e os dois entram em uma espécie de dança. Ela olha para você, você olha para ela. Você está assustado, ela parece confiante. Ela desce mais um pouco, você vai para o lado. Quanto mais você se movimenta, mais você se vê preso à teia daquela criatura. Então, você observa que não tem para onde correr e tudo o que te resta a fazer é pedir ajuda para alguém mais próximo.

Onde eu estava mesmo? Ah, sim... o medo de se prender. De repente, toda aquela angústia, pânico e defesa haviam desaparecido. Você abre os olhos, e percebe que a aranha já não está mais lá. Realidade ou ilusão, os seus pelos estão arrepiados, o rosto está tão vermelho e quente, como se você tivesse comido um pote de pimentas e aquela cena ficou marcada na sua memória. Aquela era, de longe, uma das aranhas mais cativantes que já haviam cruzado o seu caminho.

Aranhas são criaturas fascinantes. Eu me sentia um pequeno gafanhoto preso naquela grudenta teia. Sem fazer o mínimo esforço para me prender, eu me vi com os pés fora do chão e já não conseguia mais pular. Era como se mesmo que eu não estivesse imóvel, ou não tivesse a opção de escolher, eu voltaria para aquele lugar, pois me sentia seguro, confortável e feliz. Talvez eu esteja sendo um pouco dramático ou lírico demais e por isto, o leitor me desculpe, mas não havia sensação melhor do que a de se entregar. Era tão errado e tão certo ao mesmo tempo.

Como pode um gafanhoto compartilhar os seus mais íntimos segredos com um dos seus maiores predadores? Eu não morreria tão cedo, ou pelo menos, não contava com esta alternativa, mas sabia que em alguns meses daria um salto tão grande, sem deixar espaço para arrependimentos. Eu iria embora, porém não poderia deixar minha vida em espera. Então, ao invés de correr, me esconder ou me sabotar, eu decidi aproveitar cada dia como se fosse o último, fazer aquilo valer a pena.

A aranha estava administrando o meu tempo. Mais cedo ou mais tarde, ela não teria piedade de mim – aquele frágil gafanhoto. Enquanto outros gafanhotos no meu lugar estariam com medo de se arriscarem, medo de sofrerem ou fazerem alguém sofrer, anestesiados e deixando os dias passarem, eu aceitei o meu destino e decidi parar de pensar em como as coisas seriam no dia em que eu finalmente partisse. Por que lutar contra a maré quando se afogar era tão mais gostoso?

À medida que eu compartilho com você esta história, diversas imagens se passam pela minha cabeça. Quanto mais eu pensava, mais me lembrava, mais preso eu ficava. Coisas simples, mas que antes pareciam um Bicho de Sete Cabeças, como uma mão segurando outra, um abraço que não precisa ser pedido, um beijo, ficar deitado no peito e conversando sem hora para acabar. E quando chega a hora de partir, aquele gosto de quero mais, aquela ausência na cama, uma saudade docemente violenta.

Eu não gostava de testes e não costumava aplica-los, muito menos escolher com quem ficaria preso naquela teia, mas, mesmo se tivesse esta opção, ainda não faria a melhor escolha. Porque, às vezes, a vida é assim. E quando você menos espera, você se vê deitado naquele conjunto de fios, pronto para ser devorado por aquela aranha, contando sua vida e desejando não estar em nenhum outro lugar. Então, enquanto alguns gafanhotos tentariam fugir e outros ficariam paralisados pelo medo, eu estava sorrindo e esperando minha vez de ser envolvido e receber o beijo mortal e ardente daquela Viúva-negra.

3 comentários:

  1. Gafanhoto preso na teia não tem mais como fugir. Morre de desgaste tentando se soltar ou é morto quando a aranha sente fome.

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  2. PQP!!!Desculpe caro escritor pela expressão um tanto grotesca, mas ainda tento encontrar adjetivos e as palavras certas para elogiar tal talento nesta crônica! Mais uma vez vc consegue com sua sensibilidade, refinamento e rara inteligência poética-literária, nos brindar com histórias que nos fazem mergulhar num mundo de sonhos sem tirar nossos pés da realidade. Suas crônicas nos fazem refletir sobre o que somos e o que temos feito, nos fazem enxergar a realidade de uma modo diferente, sem os casuísmos e lugares comuns dos livros de auta-ajuda. Suas palavras nesses textos, nos consolam, nos alegram, fazem agente se emocionar, até mesmo pq não, nos disciplina e repreende! Suas palavras tão bem trabalhadas em histórias que dizem respeito à vc mesmo Ben Hur, são como um bálsamo, um maná dos deuses, que nutre nossa reserva cultural.
    Parabéns pelo seu talento, a cada crônica vc se supera, ainda termos o privilégio e orgulho de ver o seu nome recebendo prêmios e constando no top list dos autores que mais vendem suas obras. Continue nesse caminho, até a próxima crônica!

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  3. Instigante e prazeroso , odor almiscarado de sua poética . Algo kafkiano . Me deixa com sabor de quero muito mais !!!.

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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