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Destaques

Dia de Conscientização do Autismo: Data batida por causa do Coronavírus

Hoje foi dia de conscientização do autismo. Com tantas preocupações sobre o Coronavírus, a data acabou passando batida. Mas para quem apoia a causa, além de usar o mês inteiro para abordar o assunto, a vida se torna uma constante aula de aceitação.



Sempre disse que nunca vestiria os símbolos que não concordo, por motivos internacionais, mas como disse minha psicóloga uma vez, não posso ficar comparando a realidade de outro país com a nossa (embora seja quase impossível pra mim).

Embora muitos autistas não gostem do quebra-cabeça e do laço (me incluo entre eles), prefiro o símbolo do infinito da Neurodiversidade, cheguei a conclusão que é só um estresse a mais e não adianta explicar para as pessoas.

Tal qual a palavra autista foi ressignificada, talvez seja melhor ressignificar do que ficar dando murro na ponta da faca (acertei a expressão?).

Enfim, só para não passar batido, foto com a camiseta que minha mãe pegou para mim em um evento de autismo em Campo Grande (MS).

Quando ganhei, p…

Monólogos Paralelos sobre a Bíblia

Eu estava almoçando quando ouvi as duas mulheres conversando. Nada como escutar um diálogo para se inspirar, até que me vi pensando no assunto por alguns minutos.

– Tem algumas coisas que eu não entendo na Bíblia – disse uma delas.

– O que? – perguntou a outra.

– Dizem que a verdade está lá, mas o que acredito mesmo é nos Dez Mandamentos.

– Por quê? E no resto da Bíblia, você não acredita? – insistiu a outra.

– Acredito nos Dez Mandamentos por que dizem coisas boas para as pessoas. Já o resto da Bíblia, cada um entende de um jeito.

Enquanto mastigava a comida e tentava digerir o que eu havia escutado, observava e ouvia a conversa. É engraçado como os diálogos se parecem com monólogos paralelos.

– Quando morrer eu quero estar com roupa branca no caixão. Não é está cor de roupa que usam no céu?  Vai dar menos trabalho e vou poder ir direto para lá.

– Será que a gente paga o pecado lá antes de entrar nos portões do paraíso? Acho que a gente paga um pouco dos pecados quando está vivo.

– Claro que sim. É igual ir ao consultório. Até você ser atendida pelo médico, não precisa ficar esperando?

– E essas pessoas que são assassinadas pelos filhos? Elas já pagaram alguns pecados. Chegando lá, eles sabem para onde vão.

– Pro céu ou pro inferno?

– Ou pro purgatório.

– Acho que o purgatório é na terra.

– Dizem que no céu é cheio de carneiros.

– Quem falou isto? – disse uma das mulheres.

– Não sei. Imagino vários carneirinhos brancos lá. E agora? Você não gosta de carne de carneiro, só de vaca.

– Quando você faz algo errado é igual era no colégio, você não ficava de castigo? Então, no céu também é assim.

– Eu não entendo por que essas religiões são contra os gays. Na Grécia aqueles homens todos se pegavam e era normal.

– Se Adão e Eva eram as únicas pessoas e tiveram dois filhos, com quem eles se casaram? É isto o que não entendo na Bíblia.

– Se casaram com alguém da família. Deve ser por isso que tem toda essa promiscuidade.

– Então, quer dizer que já estou salva?

– Deve ser. Ou, às vezes, a culpa foi da serpente.

– Não entendo.

– Eu não sei por que falam que é errado quando os homens gays usam maquiagem ou têm cabelos longos. No Egito, os homens usavam maquiagem. E Sansão não era aquele cabeludo?

Observei uma mulher preocupada com as origens e com o paraíso, enquanto a outra estava interessada no contexto atual e no que era certo ou errado. Elas falavam sobre a mesma coisa, mas ao mesmo tempo seguiam direções diferentes.

O engraçado sobre os diálogos é que quanto mais você repara, mais percebe que, na verdade, cada um fala o que quer, escuta o que deseja, e no final de contas, a conversa que cada um tem é consigo mesmo. Ao falar algo para o outro, falamos sobre nós mesmos. Ao escutar, filtramos somente o que é de nosso interesse.

Terminei de almoçar e saí da mesa com aqueles monólogos. Eles se repetiam na minha cabeça. Quando se trata da Bíblia e das religiões, não é exatamente assim que as pessoas se comportam? Cada um com seu ponto de vista. Há quem interprete tudo ao pé da letra, quem consiga ler nas entrelinhas e aqueles que insatisfeitos com respostas prontas para perguntas não feitas, insistem em questionar e refletir. Aqueles que questionam e pesquisam são vistos pelos religiosos como pessoas de má fé, quando, na verdade, são estes os que mais aprendem sobre suas verdades e sobre Deus.


Deitado na minha cama, pensei que até mesmo quando a conversa é com Deus, muitas vezes, esses religiosos criam monólogos. Não por que esta força criadora seja incapaz de se comunicar de volta, mas por que o tempo inteiro as pessoas estão pedindo por alguma coisa e somente enxergando e ouvindo o que esperam. Enfim, para que um diálogo aconteça, é preciso saber escutar mais do que falar, caso contrário, serão somente monólogos paralelos.  

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