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Diversidade Invisível: Assista a palestra com autista diagnosticada aos 35 anos

Nos últimos anos, houve um aumento da disseminação de informações sobre autismo na internet. Embora a visão de profissionais da saúde seja importante, muitos autistas têm contado o seu lado da história. Na palestra Invisible Diversity, a redatora freelancer e vlogger Carrie Beckwith-Fellows compartilha sua história de como foi diagnosticada aos 35 anos e de como isso a possibilitou enxergar a vida através de uma nova perspectiva.


Carrie conta sobre os inúmeros diagnósticos errados que recebeu ao longo da vida. Para quem não sabe. além de ser difícil encontrar profissionais que entendam de autismo em muitos países, como alguns autistas aprendem a mascarar seus traços autísticos ao longo da vida, ainda é complicado para algumas pessoas reconheceram que estão no espectro autista e/ou encontrar quem possa fechar o diagnóstico formal.

“Existe um grupo de pessoas de voz única, cuja grande diversidade está tão bem escondida que é invisível, mesmo para elas mesmas [...] As pessoas autistas vee…

Visita Indesejável

Já havia passado da minha hora de dormir. Fiquei acordado lendo. Tinha o hábito de descansar só depois de terminar a leitura do livro. Abri a porta e lá estava ela.

Senti um arrepio percorrer o meu corpo. Será que é a mesma criatura da outra noite? Odiava quando ela me visitava.

Fechei a porta e desejei que ela desaparecesse ou morresse instantaneamente. Era mais fácil eu morrer do que ela. Dizem que apesar de ser vítima dos homens, ela sobrevive depois da radiação e outros desastres. “Criatura maldita”, pensei, “vá embora”.

Olhei para a porta de madeira. Analise sua fresta e agradeci aos céus por não haver espaço para que ela pudesse atravessar. “No meu quarto, não, vagabunda”, continuei a pensar, “Você bem que queria ficar na minha cama”.

Só de imaginar o toque dela em minha pele, fiquei em estado de alerta. De todas as casas e banheiros, por que ela foi escolher a minha? Não estava com disposição para mostrá-la quem mandava aqui. Se estivesse no clima, sambaria em cima dela, mesmo sem música, pois não costumo perdoar sua invasão.

Ao me lembrar da porta aberta, sinto o seu cheiro e percebo que ela deve ter andado o dia inteiro e nem se deu ao trabalho de se limpar antes de me surpreender com sua visita indesejável.

Era simples, ou eu pulava nela ou ela pulava em mim. Correr ou matar. Há também quem pule, grite, comece a rir de nervosismo, chore, como há quem a ignora, a esperando se retirar quando bem desejar.
Embora minha vontade fosse a de matá-la, só de imaginar a sujeira que faria e o cheiro de sua morte, a deixei lá no banheiro e fiquei no quarto. Cada um na sua.

Seria bom se elas soubessem ler, assim eu deixaria um aviso proibindo sua presença. Mesmo analfabeta, ela é esperta o suficiente para não respeitar o que qualquer pessoa diz, ainda que custe sua vida. Às vezes, me olha como se eu fosse o estranho, e não ela. Mesmo com sua aparência medonha, tudo o que ela queria era liberdade para andar e voar, sem sofrer discriminação.

Fiz uma oração, pois mesmo sendo ateu, ouvi dizer que Deus me escuta. Desejei que ela desaparecesse. “Não vai morrer hoje, criatura insuportável”, disse alto para que ela me escutasse. Enquanto eu estivesse do outro lado da porta, não havia o que temer.

Podia vê-la dançando de um lado para o outro e fazendo a festa, como se zombasse de mim. Então, como uma criança que fez algo errado, ela para de se divertir quando abro a porta e posso senti-la se preparando. “É correr ou morrer”, me desafiava enquanto abria as asas e me encarava.

Desligo a luz e perco a vontade de ir ao banheiro. Mas, sei que ela é estrategista e vai me esperar até o momento em que eu esquecer sua presença. Sonolento, acordarei no meio da madrugada e darei de cara com ela, aquela maldita barata.

*Autor: Ben Oliveira

Comentários

  1. Prezado Ben Oliveira muito bom texto. Profundo, bem elaborado, original. Parabéns.

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    Respostas
    1. Robert, muito obrigado pela visita e pelo comentário! É sempre bom ter esse feedback. Só com a leitura já fico feliz, com o retorno do leitor fico mais feliz ainda. Abraços

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