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Destaques

Documentário da Netflix aborda caso Elisa Lam e histórico mórbido do Cecil Hotel

Dependendo da sua idade e do quanto você é ligado às notícias e ao mundo online, é bem provável que você tenha ouvido falar sobre o caso da Elisa Lam , uma canadense descendente de chineses que  viajou para os Estados Unidos e morreu em um hotel de Los Angeles . O caso polêmico na época foi explorado na série documental Cena do Crime – Mistério e Morte no Hotel Cecil (Crime Scene: The Vanishing at the Cecil Hotel) , dirigido pelo norte-americano Joe Berlinger e distribuído pela Netflix , em 2021. Em quatro episódios, de forma linear, é contada a história de como Elisa Lam foi parar no Cecil Hotel e um pouco de sua personalidade no mundo digital e afinidade com o Tumblr. Importante mencionar que o documentário não traz entrevistas com os familiares de Elisa Lam. Se nem os próprios familiares conhecem a fundo uma pessoa, me pergunto por que há tantas pessoas aleatórias na internet e fãs de teorias da conspiração que se sentem no direito de dizer que algo poderia ou não ter acontecido. 

Resenha: A Espécie Fabuladora – Nancy Huston

Terminei de ler o livro A Espécie Fabuladora: Um breve estudo sobre a humanidade, da escritora canadense Nancy Huston, publicado em 2008, traduzido para o português por Ilana Heineberg e publicado no Brasil, em 2010, pela L&PM Editores. O livro de 144 páginas traz um ensaio surgido após a pergunta: “Para que inventar histórias quando a realidade já é tão extraordinária?”, feita para a escritora por uma detenta de um presídio feminino. A partir da dúvida levantada, Nancy Huston explica que nós, seres humanos, somos todos contadores de histórias, absorvemos e criamos ficções a todo instante para dar sentido às nossas vidas.

Capa do livro A Espécie Fabuladora, Nancy HustonO conteúdo do livro está dividido em dez partes, nas quais Nancy Huston aborda a construção do sentido possibilitado pela ficção. No entanto, a autora não se limita aos livros de ficção, ela aborda questões que fazem parte das nossas existências e permitem a convivência em coletividade com outros humanos, como a religião, política, amor e família.

É interessante observar a maneira que a escritora Nancy Huston tece o seu texto, construindo uma relação de significados por meio de uma metalinguagem: a linguagem falando sobre a própria linguagem; a escrita abordando a escrita. Quem somos nós? Quais são as nossas identidades? Nancy discorre sobre essas inquietações presentes na vida das pessoas desde que elas adquirem consciência dos próprios atos quando crianças, e perguntamos o significado de tudo o que é desconhecido ao nosso redor, até a velhice. Desde que nascemos, a morte é uma das certezas que temos sobre os nossos futuros e para darmos um sentido às nossas vidas usamos a ficção.

Mas, o que é a ficção tão discutida no livro? Quais são as fábulas que nós contamos? Nancy vai além do viés da literatura, interligando a psicanálise, filosofia e as suas próprias experiências para encontrar respostas para as inquietações. As fábulas não são somente os contos de fadas que escutamos desde pequenos e absorvemos a moral das histórias, mas tudo o que procura dar sentido. Nossas crenças, nossos sonhos, nossas origens, os livros que lemos, os filmes que assistimos, as propagandas que consumimos, as músicas que escutamos, tudo o que nos envolve e absorvemos direta ou indiretamente  e definem quem nós somos, como enxergamos o mundo e como passamos nossas histórias adiante. O tempo inteiro estamos ouvindo e contando histórias, um eterno processo de construção e reconstrução da nossa identidade.

Somos todos contadores de histórias e personagens de nossas próprias histórias. Nossa habilidade de fabular e dar sentido para tudo o que conhecemos, nos diferencia dos outros animais. Nancy Huston explica que sem as referências que construímos ao longo da vida e o desenvolvimento da linguagem seríamos como os animais que não conseguem distinguir o bem ou mal, certo ou errado, não registram a passagem do tempo, não criam histórias de ficção para explicar suas atitudes e o que não conseguem explicar, não se preocupam com a morte ou com o que vem depois.

A Espécie Fabuladora é um ensaio delicioso de se ler. Um sopro de vida que preenche o vazio que carregamos em nossas almas. Aprendemos não só sobre as narrativas, mas sobre como enxergamos a vida do jeito que vemos. Somos todos personagens com nossas máscaras. O contexto em que nascemos e vivemos nos diferencia uns dos outros, ao mesmo tempo em que nos dá a noção do “nós”. Para existir nossos egos, identidades, linguagens, é preciso que haja a comunicação e relação com outros humanos.

Segundo Nancy Huston, o escritor vive um processo paradoxal, no qual para escrever romances de ficção ele precisa conhecer e participar da vida em sociedade, porém na hora de produzir o texto e construir o sentido é preciso desfrutar da solidão.

A construção de sentido também influencia a maneira que lemos e interpretamos os livros. Cada leitor interpreta de acordo com sua bagagem cultural, suas crenças, seu nível educacional. A experiência da leitura dificilmente é a mesma, talvez parecida, mas nunca igual. Somos como gêmeos que compartilham o mesmo código genético e possuem maneiras de pensar e se identificar, mesmo quando nascemos na mesma casa. A pluralidade cultural é o que nos diferencia e nos torna iguais; Somos todos da mesma espécie fabuladora.

Poderia compartilhar alguns dos meus trechos favoritos de A Espécie Fabuladora, no entanto teria que disponibilizar o livro inteiro – coitado de quem sofre ao ver um livro todo sublinhado, o meu exemplar está marcado de tinta azul. Do começo ao final do ensaio, Nancy Huston fabula sobre assuntos, muitas vezes, vistos como chatos ou dolorosos de se pensar, mas da forma que ela se expressou propõe a reflexão e ilumina a obscuridade de nossas mentes. Recomendo a leitura do livro A Espécie Fabuladora, de Nancy Huston, para todos escritores, jornalistas, professores e contadores de histórias – ou seja, a todas as pessoas. Afinal, aprender sobre a humanidade e a maneira que interagimos uns com os outros e o mundo nunca é demais.

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