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Destaques

Subdiagnóstico de autismo, números e incoerências

O brasileiro é muito individualista. Ao mesmo tempo que vejo pessoas reclamando que os números do Censo vão dar abaixo por causa dos subdiagnósticos de autismo, já vi muita gente acusando pessoas com laudo fingirem que eram autistas.


Como explicar a volatilidade? Nem tento entender o que se passa na mente do brasileiro.

Os discursos são sempre contraditórios. Por causa de polarização, todo mundo sai perdendo.

Já vi até gente dizendo que o laudo é só um papel. Se é só um papel, a pessoa, então, não precisa de um diagnóstico? Logo, por que ser contabilizada? Sejam mais coerentes nos discursos.

Incoerências dos brasileiros sobre subdiagnósticos:

– Já vi gente acusando autista de fingir, mesmo a pessoa tendo laudo;

– Já vi gente se posicionando contra diagnóstico precoce, achando que seria ruim, desconhecendo a questão da plasticidade cerebral;

– Já vi gente dizendo que autismo nem deveria ter CID;

– Já vi gente dizendo que o outro não é autista, só porque sabe argumentar e é diferente do …

Resenha: A Espécie Fabuladora – Nancy Huston

Terminei de ler o livro A Espécie Fabuladora: Um breve estudo sobre a humanidade, da escritora canadense Nancy Huston, publicado em 2008, traduzido para o português por Ilana Heineberg e publicado no Brasil, em 2010, pela L&PM Editores. O livro de 144 páginas traz um ensaio surgido após a pergunta: “Para que inventar histórias quando a realidade já é tão extraordinária?”, feita para a escritora por uma detenta de um presídio feminino. A partir da dúvida levantada, Nancy Huston explica que nós, seres humanos, somos todos contadores de histórias, absorvemos e criamos ficções a todo instante para dar sentido às nossas vidas.

Capa do livro A Espécie Fabuladora, Nancy HustonO conteúdo do livro está dividido em dez partes, nas quais Nancy Huston aborda a construção do sentido possibilitado pela ficção. No entanto, a autora não se limita aos livros de ficção, ela aborda questões que fazem parte das nossas existências e permitem a convivência em coletividade com outros humanos, como a religião, política, amor e família.

É interessante observar a maneira que a escritora Nancy Huston tece o seu texto, construindo uma relação de significados por meio de uma metalinguagem: a linguagem falando sobre a própria linguagem; a escrita abordando a escrita. Quem somos nós? Quais são as nossas identidades? Nancy discorre sobre essas inquietações presentes na vida das pessoas desde que elas adquirem consciência dos próprios atos quando crianças, e perguntamos o significado de tudo o que é desconhecido ao nosso redor, até a velhice. Desde que nascemos, a morte é uma das certezas que temos sobre os nossos futuros e para darmos um sentido às nossas vidas usamos a ficção.

Mas, o que é a ficção tão discutida no livro? Quais são as fábulas que nós contamos? Nancy vai além do viés da literatura, interligando a psicanálise, filosofia e as suas próprias experiências para encontrar respostas para as inquietações. As fábulas não são somente os contos de fadas que escutamos desde pequenos e absorvemos a moral das histórias, mas tudo o que procura dar sentido. Nossas crenças, nossos sonhos, nossas origens, os livros que lemos, os filmes que assistimos, as propagandas que consumimos, as músicas que escutamos, tudo o que nos envolve e absorvemos direta ou indiretamente  e definem quem nós somos, como enxergamos o mundo e como passamos nossas histórias adiante. O tempo inteiro estamos ouvindo e contando histórias, um eterno processo de construção e reconstrução da nossa identidade.

Somos todos contadores de histórias e personagens de nossas próprias histórias. Nossa habilidade de fabular e dar sentido para tudo o que conhecemos, nos diferencia dos outros animais. Nancy Huston explica que sem as referências que construímos ao longo da vida e o desenvolvimento da linguagem seríamos como os animais que não conseguem distinguir o bem ou mal, certo ou errado, não registram a passagem do tempo, não criam histórias de ficção para explicar suas atitudes e o que não conseguem explicar, não se preocupam com a morte ou com o que vem depois.

A Espécie Fabuladora é um ensaio delicioso de se ler. Um sopro de vida que preenche o vazio que carregamos em nossas almas. Aprendemos não só sobre as narrativas, mas sobre como enxergamos a vida do jeito que vemos. Somos todos personagens com nossas máscaras. O contexto em que nascemos e vivemos nos diferencia uns dos outros, ao mesmo tempo em que nos dá a noção do “nós”. Para existir nossos egos, identidades, linguagens, é preciso que haja a comunicação e relação com outros humanos.

Segundo Nancy Huston, o escritor vive um processo paradoxal, no qual para escrever romances de ficção ele precisa conhecer e participar da vida em sociedade, porém na hora de produzir o texto e construir o sentido é preciso desfrutar da solidão.

A construção de sentido também influencia a maneira que lemos e interpretamos os livros. Cada leitor interpreta de acordo com sua bagagem cultural, suas crenças, seu nível educacional. A experiência da leitura dificilmente é a mesma, talvez parecida, mas nunca igual. Somos como gêmeos que compartilham o mesmo código genético e possuem maneiras de pensar e se identificar, mesmo quando nascemos na mesma casa. A pluralidade cultural é o que nos diferencia e nos torna iguais; Somos todos da mesma espécie fabuladora.

Poderia compartilhar alguns dos meus trechos favoritos de A Espécie Fabuladora, no entanto teria que disponibilizar o livro inteiro – coitado de quem sofre ao ver um livro todo sublinhado, o meu exemplar está marcado de tinta azul. Do começo ao final do ensaio, Nancy Huston fabula sobre assuntos, muitas vezes, vistos como chatos ou dolorosos de se pensar, mas da forma que ela se expressou propõe a reflexão e ilumina a obscuridade de nossas mentes. Recomendo a leitura do livro A Espécie Fabuladora, de Nancy Huston, para todos escritores, jornalistas, professores e contadores de histórias – ou seja, a todas as pessoas. Afinal, aprender sobre a humanidade e a maneira que interagimos uns com os outros e o mundo nunca é demais.

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